Conflito de gerações: como ter uma convivência saudável no ambiente de trabalho

Especialista explica pontos em comum entre as gerações X, Y e Z

Enviado Direto da Redação


Por Daniel Magalhães*


Os anos passam, todos crescem e ficam mais velhos e, conforme gerações amadurecem, outras mais novas surgem com diferentes hábitos e costumes. Porém, o ambiente de trabalho é um lugar onde é  possível encontrar essas pessoas de diferentes perfis e costumes, sejam vivendo harmoniosamente ou não.


Quem nasceu nos meados dos anos 90 até o início dos anos 2000 está entrando agora no mercado de trabalho e precisa lidar e até mesmo estar submisso à pessoas da geração X e os 'Baby Boomers', que têm visões consideradas por muitas pessoas das gerações Y e Z como atrasadas e retrógradas. Isso pode causar muitas desavenças no ambiente de trabalho. 


Embora já estejam a caminho da aposentadoria, alguns Baby Boomers, pessoas nascidas entre 1946 e 1964, ainda integram o mercado de trabalho e, juntamente à geração X (nascidos entre 1960 e 1980), possuem pouca familiaridade com a tecnologia cada vez mais crescente. Tecnologia essa que a geração Y (nascidos entre 1980 e a primeira metade dos anos 90) e a geração Z (nascidos entre a segunda metade dos anos 90 e 2009) dominam sem a menor dificuldade.


Porém, as diferenças entre as gerações são gritantes e não se restringem somente à esse campo. São comportamentos e até visões de mundo que mudaram gradativamente com o nascimento de novas gerações, e por isso muitos profissionais acreditam que o mercado de trabalho pode virar uma 'cena de guerra'.


Ana Beatriz, de 23 anos, e Thaís Morais, 24, ressaltam que as gerações mais antigas possuem mais experiência de vida e podem dar ótimos conselhos, mas alguns pensamentos são ultrapassados, principalmente no mercado de trabalho, o que pode aumentar a impaciência da geração atual, que gosta de resolver tudo de imediato.


"Eles são ótimos com outras coisas, conselhos e experiência de vida. Mas no ambiente de trabalho, as coisas são um pouco diferentes. Os mais velhos são bons com papel, mas se tiver que resolver algo em algum sistema, muitos estão bem desatualizados em questão de tecnologia e isso pode acabar prejudicando o trabalho em equipe", disse Ana Beatriz ao relembrar de um episódio em que não exerceu muita paciência por ter ficado sobrecarregada com o trabalho, já que a senhora de idade que trabalhava em sua equipe não tinha familiaridade com o sistema utilizado pela universidade.


"Eu, particularmente não tenho muita paciência, o que pode gerar alguns atritos. Fora que muitos deles têm um pensamento mais fechado e não entendem que as coisas foram evoluindo e o que viviam e faziam já estão ultrapassados. Mas é elogiável o esforço deles no trabalho e o quanto eles dão a vida por isso. Eu não diria que a minha geração não é proativa, mas a gente entende que temos direitos trabalhistas que precisam ser cumpridos, hora extra, hora de almoço e outras coisas", completou Thaís.


Enquanto os mais velhos sonham em conseguir a estabilidade financeira e juntar dinheiro, os mais novos não se apegam a empregos e, caso não estejam contentes, largam o trabalho sem pensar duas vezes, já que é uma geração considerada cada vez mais individualista e preocupada com valores pessoais.


Quanto à liderança no ambiente de trabalho, as gerações mais antigas são mais acostumadas com a figura de um chefe que direciona as ordens enquanto mantém a relação de poder; já as novas gerações preferem um modelo mais 'horizontal', em que o chefe está de igual para igual, um dos motivos para vermos hoje escritórios e outros ambientes de trabalho cada vez mais customizados e permissivos.


"Hoje em dia tem outras formas de trabalho, e eu sei que, se eu sair do emprego, posso conseguir outra oportunidade, por causa da idade e porque nossa geração também não é tão agarrada a ideia de ter um emprego de carteira assinada, como as gerações mais antigas são", finalizou Thaís.  


Uma pessoa que exemplifica bem essa situação do apego ao trabalho é a Mara Lúcia, que trabalha com a Ana Beatriz e a Thaís. Mesmo com 30 anos de empresa e perto de se aposentar, a recepcionista diz que pretende continuar trabalhando na universidade. Mara diz que não enfrenta muitos problemas com a geração atual, pois procura manter a mente aberta para as ideias dos funcionários mais novos, em especial com a jovem aprendiz que trabalha com ela na recepção. Mas confessa que acha a geração um pouco preguiçosa em relação ao trabalho.


"Eu acho que os mais novos têm problemas em se prontificar para fazer algum trabalho e, se aprenderam o trabalho de uma forma, não se esforçam tanto para aprender outras maneiras de fazer a mesma atividade. Mas de resto, eles são bem pontuais e interessados", disse Mara. 


Diferente dos Baby Boomers e da geração X, que é mais aberta e comunicativa, as gerações Y e Z são cada vez mais fechadas em seus celulares e não sobrevivem sem um fone de ouvido. Esta mesma geração, mais imediata, quer resolver tudo instantaneamente e acaba não exercendo paciência com os colegas de trabalho mais velhos que estão acostumados com burocracias.


Tendo em vista as diferentes personalidades, pode parecer difícil uma empresa administrada por um funcionário da geração X, repleta de funcionários da geração Y e com alguns estagiários da geração Z funcionar sem entrar em colapso?


Psicóloga e consultora de RH dá dicas 



Segundo a psicóloga e consultora de recursos humanos, Viviane Cardoso, o primeiro ponto a ser levado em conta na hora de montar uma equipe de trabalho com pessoas de idades diferentes é conhecer as características relevantes de cada geração.


"O profissional precisa entender o que cada uma tem de positivo e negativo e, com essas informações, desenvolver um processo que vai proporcionar o menor impacto possível, que tenha poucos conflitos no ambiente corporativo", disse Viviane.


Segundo ela, um outro fator que precisa ser analisado é a cultura da organização, como ela funciona e, principalmente o perfil da empresa. Assim, o profissional contratado não terá tantos problemas de adaptação e conflitos serão evitados. Então, se o perfil da empresa é uma start-up com funcionários recém-formados, por exemplo, não seria viável contratar um Baby Boomer ou alguém da geração X, que possui pouco contato com as novas tecnologias e esteja mais acostumado a um modelo mais tradicional de empresa.


"É muito importante saber a cultura da própria organização, para que as pessoas contratadas estejam no perfil da empresa e possam se adaptar melhor ao perfil organizacional e as rotinas exigidas pela companhia", adicionou a psicóloga.  


Mas o trabalho do gestor não se limita a somente selecionar as melhores pessoas de cada geração para compor sua equipe de trabalho, também é preciso administrar bem a equipe para evitar possíveis conflitos e procurar sempre maximizar os bons resultados. Independente da idade, todos os funcionários podem ter um bom relacionamento no ambiente de trabalho se respeitarem a mentalidade de cada um.


"É necessário promover uma interação no ambiente, mesmo com as diferenças de gerações para que todas as áreas estejam em harmonia com os gestores de recursos humanos e possam tirar de melhor o que cada geração tem a oferecer para a companhia e contribuir para o sucesso da área onde trabalham", finalizou ela.


Estagiário sob a supervisão de Cyntia Fonseca*

Veja também