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Estudantes com autismo da rede municipal estão sem professores de apoio

Profissionais chegavam a fazer 'rodízio' nas escolas para atender alunos

relogio min de leitura | Redação 17 de outubro de 2019 - 15:21
Pais e responsáveis denunciam falta de professores de apoio para seus filhos, matriculados na rede municipal de ensino
Pais e responsáveis denunciam falta de professores de apoio para seus filhos, matriculados na rede municipal de ensino -

Por Daniela Scaffo

Desde 2012, é garantido por Lei que estudantes com transtorno do espectro autista tenham atendimento educacional especializado complementar e o profissional de apoio. Apesar disso, nem mesmo a Lei é um comprovante de que os alunos de escolas municipais de São Gonçalo terão o aprendizado devido garantido.

A pequena Julia Gonçalves da Silva, de 8 anos, foi diagnosticada com autismo em 2017. Até então, os médicos acreditavam que ela tinha um transtorno global no desenvolvimento. 

A menina está no terceiro ano do ensino fundamental da Escola Municipal Margarida Rosa Marques Galvão, no Amendoeira, unidade onde estuda há dois anos e meio. Segundo a mãe, a manicure Flávia Cordovil, de 33 anos, há mais de duas semanas, Julia não pode ir a escola por não ter mais professor de apoio.

"Minha filha estava sendo acompanhada por uma professora ótima, que conseguiu excelentes resultados com ela. Porém, a professora de apoio precisou se aposentar e a Juju está sem condições de ir a escola", contou Flávia.

A manicure ainda explicou que, no primeiro ano que Julia estava na escola, as mães das crianças que precisavam de professor de apoio tinham que fazer um rodízio entre elas. Somente no ano passado, após empenho da direção da escola, foi contratada uma pessoa que fazia o acompanhamento da estudante.

"Minha filha é muito agitada. Se ela ficar na sala apenas com o professor, ela não deixa ninguém ficar quietinho. Tem que ter um mediador com ela para que possa aprender. Quando ela estava com a professora de apoio, Julia era outra criança. Agora, se demorar muito a contratarem outra pessoa, ela vai acabar perdendo todo esse desempenho, pois vai acabar regredindo tudo que aprendeu", explicou a mãe.

O mesmo acontece com Kaue da Silva, que tem a mesma idade de Julia. Ele está no segundo ano do ensino fundamental, da Escola Municipal Maria Amélia Areas Ferreira, no Engenho Pequeno e nunca contou com professor de apoio na unidade.

Com apenas dois anos, Kaue teve o diagnóstico de autismo comprovado por uma neurologista. Até então, ele não se comunicava e tinha crises convulsivas. Sem apoio de um professor, ele não tem muitos avanços na escola e tem vergonha de ir as aulas.

"Ele nunca contou com professor de apoio. A direção informa que a prefeitura irá fazer o concurso em novembro e que houve muita desistência dos professores contratados em irem para a escola que o Kaue estuda. Com isso, o progresso dele é difícil. A professora tem outros 21 alunos e me explica que o apoio está fazendo muita falta para o aprendizado do meu filho", explicou a também manicure Maristela Francelina da Silva, de 29. 

Outra escola que carece de professores para assegurar a educação de crianças com autismo e pessoas com deficiência é o Colégio Municipal Presidente Castelo Branco, no Boaçu. Pelo menos duas mães procuraram a reportagem de O SÃO GONÇALO para denunciar a falta de monitores de apoio.

Uma delas foi a dona de casa Jacqueline Câmara Ribeiro, 44, mãe do estudante Lucas Eugênio Ribeiro Barros, 16. O adolescente está no sexto ano do ensino fundamental, tem dislexia e retardo mental moderado. 

"Ano passado, o Lucas tenha apoio por três meses, mas a professora entrou de licença e não retornou. Nunca colocaram outra. Ele sabe ler e escrever, mas ele não interpreta, tem essa limitação e já é a terceira vez que repete a mesma série", declarou Jacqueline.

Lucas estuda em uma turma regular com outros alunos. Há algumas semanas, Lucas parou de ir para a escola após passar por um episódio difícil durante uma aula de matemática.

Segundo a mãe do adolescente, ele estava sem caneta e pediu emprestado a um colega. Nesse tempo, o professor apagou a prova que tinha redigido no quadro para os alunos copiarem. Foi uma professora de apoio de outro aluno que ajudou Lucas a fazer a prova.

"A professora de apoio de outro aluno viu a limitação do Lucas e aplicou uma prova para ele. Desde então, não levei mais o meu filho para a escola. Nunca ninguém me ligou perguntando porque ele não está indo estudar, não me deram nenhuma posição. Não quero que ele sofra esse tipo de humilhação. Coloquei ele nessa escola por ser referência em São Gonçalo, mas não estou conseguindo encontrar esse ensino de qualidade", disse a mulher, que mora em Itaoca.

Naiade Dias da Silva, 24, também estuda no Castelo Branco. Ela conta com professora de apoio há dois anos e meio, mas o contrato da educadora irá acabar no próximo dia 26, o que leva a mãe, a dona de casa Ana Cristina Dias, 56, ao desespero.

Ela explicou que o contrato do apoio não pode mais ser renovado e que só podem chamar outra professora, após o fim do contrato da atual. Faltando dois meses para o término do ano letivo, Ana teme que a filha perca o avanço que conquistou.

"Ela vai para o nono ano e será o último ano da Nana na escola. Eu não quero ela sentada na entrada da escola porque é impossibilitada de entrar na sala de aula. O concurso para os professores acontece só em novembro e demora a chamar. Até quando minha filha ficará sem professor? Ela já está inserida na dinâmica de entrar na sala", contou a mãe, que mora no Porto Novo. 

Procurada, a Prefeitura de São Gonçalo respondeu que "devido ao aumento no número de alunos matriculados na área da Educação Inclusiva, foram realizadas seis chamadas para compor o quadro de Professor de Apoio Especializado. Na próxima semana, será realizada mais uma convocação para suprir a demanda. Ao se apresentarem para tomar posse, serão direcionados para as unidades que necessitam do profissional em questão".

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