‘Se vira nos 30’ da crise
Especialistas dão dicas importantes para a reinserção no mercado de trabalho

Demitido do Comperj, Ronaldo Pereira só conseguiu vaga de motorista para voltar ao mercado
Foto: DivulgaçãoPor Elena Wesley
“Com dois filhos para sustentar, eu só pensava em arrumar qualquer vaga que surgisse”. O relato do professor de Educação Física e técnico em Segurança do Trabalho, Ronaldo Pereira, de 41 anos, revela a aflição vivida durante os quatro meses em que esteve desempregado, após ser dispensado das obras do Comperj. Morador de Itaboraí, Ronaldo precisou buscar alternativas para driblar a crise do setor industrial e reingressar no mercado de trabalho. E foi longe de casa, mais precisamente na Zona Oeste do Rio, que ele conseguiu uma chance como motorista para o consórcio que administra as obras da Linha 4 do Metrô. Diante do momento de instabilidade pelo qual passa a região, com demissões no Comperj , em Itaboraí, e no Estaleiro Mauá, em Niterói, histórias como a de Ronaldo têm se tornado comuns nas conversas cotidianas. Um primo, um tio, um vizinho, o que chega, em todo o país, a um total de 8 milhões de desempregados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o que dizem os especialistas em Economia quanto às alternativas disponíveis para voltar ao mercado?
De acordo com o professor João Luiz Maurity Saboia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a grande queda de empregos na indústria refletiu no crescimento do trabalho autônomo. O impacto é confirmado pelo IGBE: Entre março e maio deste ano, 934 mil pessoas passaram a trabalhar por conta própria, um aumento de 4,4% em relação ao mesmo período de 2014. Atualmente, 22 milhões de pessoas são autônomas.
“Chegamos a um panorama difícil após uma década de constante expansão do mercado de trabalho. Esta mão de obra tem sido absorvida pelo setor terciário, formado pelo comércio e pela prestação de serviços”, avaliou o professor. Para Saboia, um lado positivo do processo é a abrangência do setor.
“É óbvio que haverá algum comprometimento de renda, mas existem possibilidades. Por exemplo, diante desta onda de falta de segurança nas grandes cidades, quem atuava como serralheiro pode investir na instalação de grades nas residências. A função de vigilante também tem crescido bastante”, orientou Saboia.
O especialista, entretanto, faz ressalvas quanto à importância da adaptação.
“Nem todo funcionário de carteira assinada vai se adaptar ao perfil de autônomo. As rotinas são muito diferentes. Não tem qualquer relação com chegar no horário, bater cartão e receber a quantia ‘certinha’ no final do mês. Trabalhar para si requer iniciativa, criatividade”, argumentou.
Escolhas por aptidão
Para o professor de Finanças do IBMEC-RJ, Gilberto Braga, não há uma regra universal na hora de decidir que caminho tomar para voltar ao mercado de trabalho. O especialista acredita na existência de diversas possibilidades - concurso público, trabalho autônomo, microempreendedorismo -, porém ressalta que cada uma delas apresenta desafios.
“É preciso ter cuidado para não agir de forma precipitada. Sugiro que use o tempo do seguro-desemprego para analisar com o que se identifica e no que tem condições de investir. Quem deseja abrir o próprio negócio deve ter em mente a atitude de empresário: saber gerir o capital que tem, dominar o ramo no qual vai apostar, não gastar mais que o necessário apenas por bom gosto. Enfim elaborar um plano de negócios que possa guiá-lo nas decisões”, explicou.
Braga exemplificou como um erro fatal no empreendedorismo não considerar os gastos fixos.
“Vemos muitos casos de pessoas que costumavam comprar roupas no atacado em polos têxtis para revender onde mora como atividade complementar à renda. À medida que decide ampliar as vendas abrindo uma loja, ela deve calcular os gastos com aluguel, pagamento ao fornecedor, salário dos funcionários, conta de luz, entre outros”, alertou.
Quanto aos concursos públicos, os especialistas são unânimes: é um investimento a médio prazo.
“Uma ocupação estável é o desejo até mesmo de quem está no mercado. Contudo, o trabalhador deve ter em mente que ninguém é demitido hoje e é aprovado na seleção amanhã. Requer preparo, comprometimento, pois a competição é grande. Geralmente é a opção dos mais jovens, que ainda têm mais disposição para se dedicar aos estudos. Mas, na maioria dos casos, o profissional tem interesse em uma resposta que garanta recurso a curto prazo, que assegure renda para o mês seguinte.
