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Presos na terceira idade

Pedreiros com mais de 60 anos cumprem pena na esperança de voltarem à liberdade

relogio min de leitura | Redação 06 de julho de 2015 - 11:18

Antônio e Jorge, ambos condenados por homicídio, trabalham na cadeia a fim de reduzir suas penas e passar o tempo

Foto: Luiz Nicolella

Por Renata Sena

O relógio marcava 10h22 do último dia 22 quando, pedindo licença para entrar na sala onde concederiam entrevistas à reportagem de O SÃO GONÇALO, dois idosos sentaram no sofá a eles designados e permaneceram calados. Cabeças baixas, olhos marejados, fisionomias cansadas e cabelos brancos. Homens, aparentemente, longe de qualquer suspeita. Assim se apresentaram dois homens, de 62 e 64 anos, presos por homicídio, no interior do Instituto Penal Francisco Spargoli Rocha, em São Lourenço, Niterói, onde cumprem pena em regime fechado e se dizem arrependidos. Eles ainda nutrem a esperança de voltarem a viver em liberdade e retomarem suas vidas.

De maneira calma e consciente, os detentos responderam tudo o que foi perguntado, parecendo não esconder nada do dia do crime. E em volta, uma atmosfera estranhamente calma toma conta do presídio que abriga 107 detentos, durante toda permanência da equipe de OSG no local. Mas, segundo o diretor do presídio, Itamar Engel, 59, o clima ameno é padrão e constante no Instituto Penal.

Com histórias de vida semelhantes, os idosos, que sempre trabalharam como pedreiros e lutaram com dignidade para sustentar suas famílias, passaram a dividir o mesmo espaço e um sentimento ficou comum entre eles: a certeza que estão pagando pelo crime que cometeram.

Preso há sete anos e com a previsão de receber o benefício do regime semi-aberto até março de 2016, Antônio Severino Ferreira, 62, perdeu sua liberdade nove dias depois de matar a tiros um vizinho no Complexo da Chumbada, no Galo Branco, São Gonçalo. Motivado pela raiva e pelo medo, segundo ele, o pai de seis filhos findou a vida do vizinho e mudou seu próprio futuro, seguindo para um caminho nunca imaginado.

“Eu sempre trabalhei muito e, durante oito meses, vivi o drama de ter um ex-amigo me ameaçando e me ofendendo. Um dia resolvi comprar uma arma para me defender, e essa arma se transformou no fim dele e no meu”, disse Antônio sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação do próprio feito.

Ainda de acordo com Antônio Severino, o vizinho era seu amigo e por uma briga dos netos as famílias tiveram uma discussão. Três dias depois, o genro de Antônio foi morto por um grupo de homens, que agiu, segundo testemunhas, a mando do vizinho da família. A partir dessa data, foram mais oito meses vividos sob clima de tensão para Antônio.

“Ele começou a dizer quem a favela estava pequena para nós dois. Começou a andar armado e falava de mim em todos os lugares. Daí resolvi comprar uma arma também e, num dia à tarde, encontrei com ele no alto do morro. Ele me ofendeu e tentou sacar a arma dele. Fui mais rápido e atirei primeiro”, detalhou Antônio que chegou a ser “julgado” pelo tribunal do tráfico da comunidade e inocentado pelos bandidos que “acreditaram” em legítima defesa.

‘Quando a vi com outro, perdi a cabeça’

O crime de homicídio também foi cometido pelo pedreiro Jorge Pinheiro Ribeiro, 64. Mas, no caso deste, a fúria foi descarregada na esposa, assassinada a tiros junto com o amante, no meio da rua, próximo à casa do casal, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Assim como o colega de cela, Jorge tinha emprego fixo e nunca tinha se envolvido em confusão até então. “Sempre fui calmo e trabalhador. Comprei a arma para me proteger dos perigos da rua mas nunca imaginei cometer um crime. Dei muito duro para criar meus filhos e quando vi a minha mulher com outro homem, perdi a cabeça”, disse Jorge que chegou a ficar foragido por mais de 10 anos e acabou preso em 2011 quando tentou atualizar o título de eleitor.

“Eu fui condenado há 13 anos, mas acabei solto e não fui orientado a comparecer no Fórum. Com isso, me mudei para Cabo Frio e acabei como foragido sem saber. Até que recebi a voz de prisão mais uma vez”, narrou ciente do porquê está preso. “Estou pagando pelo que fiz”, completou que ainda não sabe por quanto tempo permanecerá preso.

Apesar de ter tirado a vida da mãe de seus três filhos mais velhos, o homem simples e aparentemente calmo não perdeu o apoio da família, que assim como os familiares de Antônio vão às visitas e demonstram carinho pelos presos.

“Os familiares vêm sempre nas visitas e não temos problemas aqui. Tenho 70 internos acima de 60 anos e 17 no sistema semi-aberto. É um ambiente tranquilo e disciplinado”, esclareceu Itamar, que atua há 30 anos como inspetor penitenciário e está há quase três meses como diretor do Instituto Penal em Niterói.

Predispostos à violência

O fato de ter uma arma pressupõe que a pessoa está pronta para usá-la um dia? No caso de crime passional, é a constatação da cultura machista, ou seja, o homem não aceita a traição e se vinga matando? Apesar de não aparentarem comportamento violento à primeira vista, especialistas em comportamento humano acreditam que o fato de uma pessoa comprar uma arma de fogo já demonstra uma predisposição a cometer um crime.

“Para uma pessoa que possui uma arma, a reação será sempre atacar. Diferente de uma pessoa que tem um psicológico mais estabilizado”, argumentou o psicólogo Matheus Accorsi.

Ainda segundo especialistas, o “desvio” de ação violenta de um cidadão comum pode ser explicado por um excesso de insegurança, através da qual o indivíduo procura “garantias” por meios de artifícios.

“Na verdade é uma questão de insegurança os que falam que são valentes com a arma na cintura”, explicou Diogo Bonioli, do Instituto de Saúde Mental e do Comportamento (ISMC) acrescentando ainda que em todos os casos de porte de armas de fogo são indispensáveis exames psicológicos para garantir a integridade de quem possui a arma e de quem a cerca, o que em muitos casos não acontece.

“Quem tem uma personalidade vulnerável não pode portar esse tipo de objeto. Por isso existem exames psicológicos para adquirir o direito à posse de arma de fogo. A pessoa precisa ser livre de obsessão e vulnerabilidade”, completou Bonioli.

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