Alegria de um breve reencontro
Irmãos voltam a conviver nos últimos meses de vida de um deles no Abrigo Cristo Redentor, em São Gonçalo

Eres Soares, de 84 anos, passou a morar na instituição há quatro meses onde já estava o irmão Haroldo, que faleceu há 15 dias
Foto: Alex RamosPor Marcela Freitas
Imagine deixar de conviver com seu irmão por 19 anos e reencontrá-lo, sem saber, nos últimos instantes de sua vida? Foi essa a oportunidade recebida pelo aposentado Eres Soares de Araújo, de 84 anos, e um dos residentes do Abrigo Cristo Redentor, na Estrela do Norte, São Gonçalo, e o sexto personagem da série de O SÃO GONÇALO, que está retratando todo domingo a história de idosos que vivem no local.
Eres chegou ao abrigo há cerca de quatro meses e, lá reencontrou o irmão Haroldo Soares de Araújo, 80, que já vivia na instituição há 19. A oportunidade de voltar ao convívio familiar, mesmo que em um lugar com tantas outras pessoas, fez com que Eres se sentisse em casa e recuperasse assim a sua paz.
Mas quis o destino que uma nova separação acontecesse. Haroldo faleceu no último dia 15, vítima de infarto. Apesar da dor da partida, Eres garante que não teria melhor lugar para eles se reencontrarem. Afinal, a alegria de morar na instituição tem o ajudado a superar todas as tristezas vividas.
“Eu até me emociono em falar sobre esse lugar. Nunca me senti tão amado. As pessoas gostam de cuidar do próximo. Até as roupas que uso é eles que me dão. Aqui tenho liberdade de ir a igreja, meu lugar preferido. Estava em um abrigo em que não era bem tratado. Não quero nunca mais voltar para lá. Posso dizer que ganhei um presente de Deus”, afirmou Eres.
A equipe de OSG entrevistou os irmãos enquanto Haroldo ainda era vivo, no entanto nesse dia (uma semana antes da sua morte) ele não quis ser fotografado devido à timidez. Quando a equipe voltou, na última quarta, para tentar convencê-lo a fazer as fotos com o irmão, recebeu a notícia do seu falecimento.
À época da entrevista, Eres demonstrou sua alegria dupla: morar no Abrigo e junto com o irmão.
“Haroldo não casou e não tinha filhos. Com certa idade, ele quis vir morar aqui. Eu o visitava pouco. Não entendia porque ele gostava tanto daqui. Hoje eu entendo. Fiquei muito feliz em voltar a conviver com ele”, disse sem saber que duas semanas depois o irmão faleceria.
Muito tímido, Haroldo foi monossilábico para comentar como era bom viver na instituição. “Sou muito bem tratado. Gosto daqui”, disse.
Trajetória - Eres chegou à instituição após passar por uma casa de recuperação, que acabou sendo fechada por não cuidar bem de seus residentes. Antes disso, ele vivia em uma casa própria, no centro de Niterói, mas como estava em idade avançada, necessitando de uma atenção especial, a família achou melhor mantê-lo em um local em que os cuidados fossem constantes.
Eres se casou aos 41 e sua esposa, na época tinha 51. Os dois ficaram casados por 15 anos, até que a esposa veio a falecer. Da relação não nasceram filhos. Mas Eres garante que teve a oportunidade de viver o mais verdadeiro amor.
“Desde cedo tive que trabalhar para ajudar minha mãe. Éramos seis irmãos, e eu o mais velho. Casei tarde por isso. Mas acho que ela veio no tempo de Deus. Sou evangélico e acredito muito na vontade dele. Só tenho motivos para agradecer”, concluiu.