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O seu relacionamento é abusivo? Entenda a situação

Especialistas dão dicas para sair desses casos

relogio min de leitura | Redação 15 de outubro de 2019 - 15:27
Mirella Barboza mostra tatuagem que fez de música que ajudou-a a superar situação difícil
Mirella Barboza mostra tatuagem que fez de música que ajudou-a a superar situação difícil -

Por Ana Carolina Moraes*

Desde crianças somos ensinados que devemos ter um relacionamento estável para casar e ter filhos, mas nem sempre tudo é tão lindo. Existe o lado sombrio dentro de alguns relacionamentos, que não são abordados com tanta frequência. O relacionamento abusivo pode ser algo que transforma as pessoas e, muitas vezes, não se sabe ou não se quer acreditar que está vivendo em uma situação dessas. Por isso, é necessário entender, como detectar um relacionamento abusivo? 



Segundo Marisa Chagas, sócia, gestora e fundadora do Movimento de Mulheres em São Gonçalo (MMSG), as mulheres nem sempre percebem que sofrem violência do parceiro, porque elas acreditam que ser violentada é só no sentido físico. Mas não, tudo começa no fator psicológico. 



É o caso da jovem Mirella Barboza, de 20 anos, moradora do Zé Garoto, em São Gonçalo. A moça viveu por seis anos em um relacionamento abusivo e afirma que nunca sofreu violência física, mas sofreu tanto mentalmente por causa do relacionamento que chegou a entrar em depressão por um tempo.

“A violência física não aconteceu. Mas a violência psicológica acontecia. Ele me colocava para baixo a todo custo, de forma indireta, falava coisas para mim que eu ficava 'meu deus'. Eu comecei a ser uma pessoa mais seca e rude depois do relacionamento, porque ele não me dava espaço para ser carinhosa, nem com outras pessoas, nem com ele. Toda vez que eu demonstrava um afeto ou um carinho por alguém, ele arrumava confusão e eu tinha que me afastar dessa pessoa.. Comecei a não me sentir bonita, inteligente, o que eu falava, eu notava que era à toa", relatou.



Mirella também afirma que demorou para entender que vivia num relacionamento abusivo. “Eu conversava com algumas amigas que me alertavam que eu estava em um relacionamento abusivo e eu falava “é, verdade, isso(atitude do parceiro) foi abusivo." Mas eu nunca via o contexto geral e falava “eu realmente estou em um relacionamento abusivo.” Eu só falava: “ele foi abusivo nessa questão".



Pensando nisso, Marisa dá algumas dicas para entender se o seu relacionamento é abusivo



1- Isolamento social - se o seu parceiro não deixa você sair nem com suas amigas ou sozinha, mas ele pode sair para onde quiser e quando quiser, é abusivo.



2- Controlar ligações - parceiros abusivos tendem a controlar a mulher por telefone, querendo saber onde ela está o tempo todo, ligando toda hora ou controlando por aplicativos. 



3- Se ele controla suas roupas, está errado. 



4- Mulher não tem projetos para si - Se você não tem projetos e planos para a sua vida, como, não pensar em viajar, por exemplo, por medo do que seu marido vai pensar ou dizer, é um relacionamento abusivo.



5- Se o homem quer que a mulher exerça todos os papéis - se o seu parceiro quer que você seja mãe, irmã, confidente, esposa, amiga, é abusivo, porque só vivemos um papel na sociedade e é mais desgastante tentar viver todos. 



6- Se o homem desqualifica a mulher - se o parceiro fala mal de você, de sua aparência ou de suas ações, é abusivo. 



7- Se o parceiro acredita que sem ele você não é nada - Infelizmente, as pessoas acreditam que sem seu parceiro elas não serão nada e os homens também reafirmam isso. Nessa situação, é abusivo. Temos que ter consciência de nossas ideias, planos e vontades e entender que somos mais do que só uma parceira em um relacionamento.



8- Desqualificar sua posição de mãe - Se o homem crê que você não é uma boa mãe e fica falando isso, mesmo que você faça tudo por seus filhos, é abusivo. 



9- Se o parceiro muda de humor frequentemente - Se o homem muda de humor frequentemente pode ser abusivo, e ele pode descontar as frustrações dele em você. 



Mas, é importante lembrar que no começo do relacionamento o parceiro quase nunca se mostra abusivo. Pelo contrário, ele sempre se mostra um cara que entende suas lutas e seus problemas. Mirella conta que isso aconteceu com ela: “No começo, eu falava com ele sobre machismo e racismo, sobre ser preta e mulher, ele achava um absurdo essas ideias preconceituosas e no relacionamento, eu vi que ele era machista".


A moça, que saiu do relacionamento abusivo em maio deste ano, explica que chegou a morar com o rapaz e ele alternava o humor. Ela conta: "ele sofreu um acidente de moto e aí eu fui para a casa dos pais dele cuidar dele. E durante o tempo que eu cuidava dele, eu era maravilhosa, a mulher da vida dele e ele ia casar comigo. A partir do momento que ele melhorou e ele pôde fazer as coisas dele por conta própria, eu já não servia mais e eu era a chata da história, a que sempre brigava por motivos diferentes, a que não estava acostumada com a realidade da vida. Era para me diminuir mesmo".



Mirella ainda afirma que começou a sair do relacionamento quando criou uma estabilidade emocional e começou a perceber que era independente dele financeiramente. “Eu cresci com uma família abusiva e achava que algumas coisas eram normais e naturais. Mas aí eu passei para a faculdade no começo do ano e percebi que eu não dependia tanto dele financeiramente e emocionalmente. A relação foi muito por dependência, sabe? Ele me fez começar a depender demais dele. Quando a gente começou a namora,r eu não dependia dele para coisa nenhuma e aí durante o relacionamento eu comecei a depender muito, inclusive emocionalmente. E eu acho que eu saí disso quando entrei na faculdade e percebi que poderia ser mais do que eu era no relacionamento".



A psicóloga Sandra Torres acredita que pessoas devem procurar se entender antes de resolver entrar em uma relação, pois o emocional pesa muito e pode gerar problemas no relacionamento, como o abuso. Ela também acredita que as pessoas abusivas possam ser psicopatas, não sentem culpa no que fazem, ou sociopatas e terem algum complexo. E também são pessoas narcisistas, que não lidam bem com a rejeição. 



Ela ainda conta que, em seu consultório, já ouviu casos desse tipo de relacionamento e diz que, geralmente, “a pessoa avança no pescoço da vítima e depois volta dizendo que ama e quer voltar." Ela  completa: “Tenho casos de pessoas que não saem por medo.” Mirella confirma isso dizendo: “quando ele viu que eu queria sair do relacionamento a todo custo, dizia que ia voltar e mudar".


Mirella achou forças nela mesma, em suas amizades e em músicas para sair daquela situação. A jovem tatuou uma parte de seu corpo com a letra da música que a ajudou a superar. A música é de Francisco, El Hombre e se chama "Triste, Louca ou Má." A letra tem frases como: “um homem não te define”, “você é seu próprio lar.” Esta última frase é a que a jovem tatuou.



O Movimento de Mulheres em São Gonçalo(MMSG), que recebe o patrocínio da Petrobrás, atende, em média, cinco novos casos de violência contra a mulher por dia. Quem precisar de ajuda ou informações sobre o assunto deve procurar o MMSG, que organiza palestras, rodas de conversa (toda terça às 10h), além de programas de acompanhamento com psicólogos, pedagogos, advogados e assistentes sociais para mulheres que precisam e também para crianças que vêem os pais em relacionamento abusivos e acabam sendo afetados por essa situação.

O Movimento tem dois endereços: um na Rodrigues da Fonseca, 201, na Zé Garoto e outro na Avenida Amaral Peixoto ,166, 4° andar, no centro de Niterói. O atendimento é de segunda a sexta, entre as 8h30  às 18h, mas as mulheres precisam chegar no local até às 17h.

Além disso, existe o projeto Tecendo Redes de prevenção à violência, que alerta sobre sinais de violência, e o Centro Especial de Orientação à Mulher (CEON) Zuzu Angel, em conjunto com a Prefeitura, que se localiza em Neves.


Também é possível denunciar casos de violência contra a mulher em uma das várias delegacias especializadas no atendimento desse público (Deam) ou através do Disque-Denúncia criado pela Secretária de Políticas para Mulheres (SPM), através do número 180. 



Na maioria das cidades brasileiras, não existe nenhuma delegacia especializada no atendimento à mulher (Deam). Essa é a realidade de 91,7% dos municípios de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, em 90,3% das cidades do país não há nenhum tipo de serviço especializado no atendimento à vítima de violência sexual. 

Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca*

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