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Niteroiense vence preconceitos e vira 'fenômeno' da internet

Série 2 - Jovens que transformam

relogio min de leitura | Redação 15 de outubro de 2019 - 10:29
Série 2 - Jovens que transformam
Série 2 - Jovens que transformam -

Por Daniela Scaffo

Se o acesso de mulheres à carreira acadêmica oferece desafios, as dificuldades para as negras são ainda maiores. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de mulheres brancas que conseguiram completar o ensino superior (23,5%) é o dobro do de negras ou pardas (10,4%).

O segundo capítulo da série ‘personalidades da região com menos de 30 anos’, apresenta a história da administradora e digital influencer Sarah de Andrade Fonseca, de 25 anos. A jovem - negra, moradora de Niterói, empresária, formada na Universidade Federal Fluminense (UFF) aos 21 anos e empoderada - conta com mais de 290 mil seguidores nas redes sociais.

Segundo ela, a carreira de influenciadora aconteceu aos poucos, quando começou a treinar corrida com outras meninas do mesmo ramo e acabou aprendendo a como falar nas redes sociais, ao mesmo tempo que foi ganhando seguidores por estar sempre com pessoas que já contavam com bons números.

O novo projeto na internet ainda ajudou a administradora a alavancar a sua marca de bijuterias, a Sr. Biju. Para o seu público da internet, Sarah oferece o que ela própria produz.

O negócio foi desenvolvido ao mesmo tempo em que a jovem trabalhava formalmente, com carteira assinada. Aos 21, assim que se formou, Sarah mudou-se da casa de seus pais e teve que conciliar ser dona de casa/gastos domésticos com a própria empresa.

“Comecei a ver que quem me seguia realmente me ouvia e queria saber da minha rotina. Por ser administradora, comecei a realmente enxergar aquilo como um negócio e fui traçando planos para minhas redes sociais. Tenho uma marca de acessórios desde 2012 e aproveitei o meu público para oferecer o que eu mesma vendia. Um dos meus maiores sonhos é fazer a minha marca ser muito reconhecida, porque são sete anos de história e ainda nem cheguei na metade do que quero. Demorei muito pra abandonar o trabalho com carteira assinada com medo da instabilidade da minha empresa e por não saber se conseguiria arcar com todos os gastos pessoais e da empresa. Foi uma matemática desafiadora”, contou Sarah, criada no bairro Fonseca, mas que atualmente mora no Centro de Niterói.

Para Sarah, a pouca idade e história motivam as pessoas na cidade onde mora. Ela conta que, frequentemente, recebe mensagens e feedbacks na rua, com agradecimentos por representar as mulheres negras e sobre as mudanças positivas na vida das pessoas inspiradas em suas histórias.

A jovem também foi uma das participantes da quarta temporada do “De Férias com o Ex”, programa exibido pela MTV Brasil, numa mansão em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. No episódio de abertura, Sarah aparece beijando duas pessoas, um homem e uma mulher, durante a primeira festa que aconteceu na casa. O objetivo de participar do programa, segundo Sarah, foi das pessoas a conhecerem e consequentemente, a sua história.

“Acredito que afeto positivamente a minha cidade através da minha influência nas redes sociais. Venho tentado, principalmente, motivar e inspirar pessoas. De vez em quando, recebo mensagens de pessoas falando que ou iniciaram/desenvolveram seu próprio negócio ou estão na luta de conseguirem ser elas mesmas, independente do que a sociedade impõe. De forma geral, acredito que, mesmo de pouco em pouco, eu influencio na autoestima, luta racial e economia do meu local. Ouvir o feedback das pessoas é tão positivo que nem consigo descrever o que sinto. Me corta o coração ver algumas pessoas com tantos números e nada de bom para agregar além de fotos bonitas, que muitas vezes nem são reais”, explicou.

As inspirações de Sarah vieram de casa. A digital influencer conta que a mãe de sua mãe faleceu quando ela (sua mãe) ainda era criança e ele teve que se mudar diversas vezes para casas de tias e madrastas, até crescer e seguir sua própria trajetória, inclusive como manicure. Já o pai, que ela considera um herói, precisou estudar muito para mudar a realidade de vida.

“Minha mãe fez um pouco de tudo, até foi manicure. Meu pai é um grande herói, a família dele fazia sopa quase todo dia pra render comida pra ele e seus irmãos. Ele só conseguiu sair dessa situação porque estudou muito e passou para um concurso público”, relatou.

Para as próximas gerações, Sarah espera que elas acreditem mais no próprio potencial e parem de se esconder no julgamento da sociedade. “As pessoas têm muito medo de serem rejeitadas. Estar aqui tão perto e mostrar que o sonho pode ser real com certeza vai inspirar outras pessoas do local. Ver na tv é uma coisa, saber que a pessoa mora na próxima esquina é diferente, torna o sonho mais tangível”, explica.

Preconceito racial - Os desafios fizeram parte da trajetória de Sarah. Entre eles, o fato de ter sofrido preconceito racial.

Em um dos casos, a empreendedora chegou a passar por uma ‘entrevista’ quando foi sacar o seu FGTS. O motivo? O currículo brilhante da jovem e a desconfiança do atendente de que ele pertencia, mesmo a uma mulher negra.

“Fui sacar o FGTS para investir no meu negócio e o atendente nitidamente não acreditou que a carteira de trabalho era minha. Eu fui assessora tributária por dois anos em uma multinacional e ele me perguntou coisas como: nome da mãe, nome do pai, o que é ser assessor tributário... Eu nunca vi ninguém falando que tinha entrevista para o atendente ter certeza que era você no documento. Essas situações machucam muito e, por isso, que estou firme e forte no propósito de mostrar pras pessoas que o racismo está super presente e não é ‘mimimi’”, contou Sarah.

Mas a determinação e o foco não deixaram com que Sarah desistisse. Agora, ela tenta incentivar outras negras e negros a continuarem determinados nos seus sonhos e a jamais abaixarem a cabeça.

Inclusive, a administradora está com um projeto onde entrevista empreendedores negros, chamado ‘Conexão’. Os objetivos são fazer as pessoas entenderem o que é ser negro na sociedade em relação à economia e motivar os negros a tentarem, mesmo com poucas oportunidades.

“Gostaria que esse projeto crescesse e penso em continuar usando minhas redes por mudanças positivas. Como inspiração e motivação ao mesmo tempo que realizo meus sonhos (que são muitos)”, explica.

“Ouvi esses dias uma frase que gostei muito para negros que estão crescendo. “Levante a cabeça, mas nunca o nariz”. E é exatamente isso. Crescer, mas sem esquecer sua história e ajudar os demais. Mesmo quando via tudo quase indo por água abaixo, eu persistia. Minha empresa já quase faliu duas vezes e ainda assim, mesmo sem muitos recursos e tendo que tirar do meu dinheiro pessoal, eu me apertei toda e insisti”, finaliza.

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