Falta uma semana para o 1º Festival Literário de São Gonçalo
O evento surge em um momento de desvalorização da cultura na cidade

Por Cyntia Fonseca e Daniela Scaffo
Por anos vítima da apatia cultural, a cidade de São Gonçalo vai receber,na próxima semana, o tão esperado 1º Festival Literário (Flisgo).
O evento acontece de 11 a 14 de outubro, no Partage São Gonçalo, no centro. A programação, a partir das 10h, contará com estandes de editoras, escritores, professores, jornalistas, artistas e mobilizadores sociais em geral.
O festival pretende difundir a leitura e contato direto com obras, resgatar a literatura regional e também proporcionar oportunidades a autores regionais.
Os coordenadores Alberto Rodrigues, Paula Dias (ONG Afrotribo) e Daniele Gonçalves (Coletivo Dandaras) querem oportunizar e criar em São Gonçalo uma estrutura de referência cultural.
“São Gonçalo é um dos maiores exportadores de talentos nas áreas da música, dança, cinema, moda. Podemos afirmar que todas essas artes passam pela literatura, e criar uma visibilidade e unificação dessas artes é uma das propostas do festival. Até então os nichos não se envolviam, e gerar um networking entre os artistas, criar base e sustentação, um ajudando e apoiando o outro, troca de informações e experiências é um dos focos. É um marco para São Gonçalo, um movimento esperado há muito tempo. A resposta da comunidade gonçalense tem colaborado para a realização do Flisgo, graças a uma consciência coletiva de cidadania voltada para a cultura em São Gonçalo que está sendo gerada”, contam os organizadores.
Palavras-chave: 'networking' e acessibilidade
Entre as presenças confirmadas estão o ator e produtor Deo Garcez, a escritora Anielle Franco, irmã da vereadora Marielle Franco, com o lançamento do livro ‘Cartas para Marielle’; escritora Paula Vinagre, do livro ‘O espelho da alma’, o escritor e produtor cultural Jordão Pablo de Pão, do livro ‘Café Quente’; além dos curadores: o assessor cultural e colunista João Luiz, a escritora e conferencista Lia Vieira, a pedagoga e agente literária Priscilla Mina, e o escritor e editor Celso Possas Junior, que também é organizador da Feira Literária de Niterói, a Flinit.
Sem esquecer da questão da acessibilidade, o evento também contará com intérpretes voluntários da Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS) durante as mesas de debates e apresentações.
“O Alberto é um guerreiro da atividade literária na cidade, ajuda muito autores de São Gonçalo, então todos que o conhecem e são convidados por ele se sentem impelidos à colaborar. E a outra razão é que queríamos uma feira que acontecesse todo ano, como ocorre em outras cidades, como Poço de Caldas, Parati. São Gonçalo também tem que ter”, conta o autor Celso Possas Junior.Ano de 'portas fechadas' para a cultura na cidade.
A Flisgo vai acontecer na contramão da falta de incentivos à cultura na cidade. Este ano, milhares de estudantes e leitores em geral perderam, por alguns meses, o único acesso à leitura totalmente gratuito no município: a Biblioteca Pública, que desde 1988 funcionava dentro do Centro Cultural Joaquim Lavoura, o Lavourão, no bairro Estrela do Norte.
Ano de 'portas fechadas' para a cultura na cidade
O espaço foi reinaugurado no dia 17 de setembro, em uma nova instalação no Mutondo, no anexo da Prefeitura, a quase quatro quilômetros de distância da antiga sede, que ficava no Centro.
Apesar de toda infraestrutura, a localidade que foi escolhida pelo poder público municipal para abrigar a nova biblioteca, não foi bem vista pela população.
O escritor Rodrigo Santos, de 43 anos, e um dos criadores do ‘Uma Noite na Taverna’, foi um dos que reclamaram da dificuldade de acesso ao prédio onde foi colocada a biblioteca.
“Eu acho a localização ruim. Um governo que aluga salas em shopping, colocar a biblioteca pública tão escondida. Isso sem contar a dificuldade de acesso: tira do Lavourão, que era central e cruzado por linhas de ônibus de toda a cidade, e coloca ali no galpão”, informou o autor de “Máscaras Sobre Rostos Descarnados”, “Brechó de Almas”, “Mágoa” e “Macumba”.
E emenda: “Eu tenho uma ideia, tentei até entrar em contato com o secretário. A biblioteca deveria comprar dois exemplares de todo livro que for lançado por autores gonçalense e se criar uma estante, com destaque, para autores da cidade. Isso mexeria com a autoestima dos cidadãos. Imagina, molecadinha de escola chegando lá e vendo uma estante ‘escritores gonçalenses’? Além de que isso valorizaria o trabalho dos autores. E não é caro e pode, inclusive, ter apoio de iniciativa privada. Mas cadê? Não há interesse, a verdade é essa”, declarou o escritor, que prometeu doar alguns exemplares dos livros que publicou para a biblioteca.