Sequestrador do ônibus sofria bullying na escola
Willian era visto como reservado e nervoso

Por Daniela Scaffo e Myllena Vianna
"Ele era extremamente tímido, muito calado, costumava ficar quase todos os dias dentro de sala no horário do recreio, chamava muito atenção no início", essa é a fala de Maria do Nascimento, ex-professora de Willian Augusto da Silva, quando tinha 13 anos e cursava o 5º ano do Ensino Fundamental, em 2012. Eram pelas salas de aula da Escola Municipal Prefeito Nicanor Ferreira, no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo que o comportamento do então adolescente, intrigava colegas e docentes da unidade escolar.
Maria do Nascimento explica que durante o ano letivo de 2012, conseguiu que o comportamento de Willian tivesse um progresso, e realizou um trabalho interessante com ele .Ela observou sua mudança, mas todo trabalho educacional precisa ter continuidade e no ano seguinte, não sabe o que se passou.
"Ele só falava com os colegas quando era para responder alguma coisa. Fora isso, ele não conversava, não era de puxar assunto. Um outro ponto que eu trabalhei muito com ele era o fato dele ser muito nervoso. Ao mesmo tempo que ele era tímido, introvertido, ele não sabia discutir, brigar, bater boca. Quando os meninos implicavam, falavam alguma coisa, provocavam ele, ele levantava e ia na direção da pessoa para agredir. Eu trabalhei muito isso nele, que não podia fazer assim", afirmou.
Ela lembra que o rapaz não era de desrespeitar os colegas e era muito calado, mas se tornava agressivo quando implicavam com ele, tendo muitas vezes que separar brigas ou algumas confusões geradas por brincadeiras maldosas de outros estudantes.
"Eu lembro que ele não era de implicar com ninguém, desrespeitar ninguém. Ele entrava e saia da escola sem incomodar ninguém, desde que ninguém mexesse com ele", contou.
A professora afirma que ao acompanhar o caso, não imaginava que o sequestro tinha sido planejado pelo seu ex-aluno e comentou a tristeza de saber que Willian não teve assistência durante todos esses anos.
"Depois de confirmar a identidade da pessoa, eu tive um baque tão grande que eu estou começando a me recuperar agora. Fiquei muito mal, muito triste, em perceber que nós, professores, somos importantes demais diante dessas situação. A gente consegue diagnosticar vários problemas dos nossos alunos. A gente até encaminha as vezes para o orientador para que ele chame os pais, mas essas famílias as vezes não têm condições de dar início a um tratamento", disse.
Ela alerta ainda sobre o comportamento de outras crianças que atualmente estão matriculadas em unidades públicas com as mesmas características de Willian, e que também não possuem assistência ou tratamento por parte da gestão pública, podendo ocasionar casos graves como o sequestro do ônibus 2520 (Jardim Alcântara x Estácio) e que ficou marcado na sociedade.
"Meu maior medo hoje, é que nós temos em nossas escolas muitos alunos com as características do Willian e o que é pior, hoje nós temos muitos professores dentro das escolas passando pela mesma questão da ansiedade tomando medicamentos, e nós estamos abandonados pelo poder público", concluiu.