Profissionais se posicionam sobre afirmação de Bolsonaro em acabar com obrigatoriedade das autoescolas
Presidente sugeriu fim das aulas e curso para a emissão da CNH

Por Thalita Queiroz*
Na última quinta, 25, o presidente Jair Bolsonaro, fez um declaração polêmica em uma transmissão ao vivo, através do seu Facebook. “Eu, com 10 anos de idade, aprendi a dirigir trator na fazenda em Eldorado Paulista. E acho que nem devia ter exame de nada. Parte escrita apenas e ir para prática logo. Não tem que cursar autoescola, ter aula de um monte de coisa que já sabe o que vai acontecer. Então, deveria ter uma prova prática e uma prova escrita ali. Seria o suficiente para tirar a carteira de habilitação. Mas vamos deixar isso para um segundo momento”.
A declaração repercutiu entre os profissionais da área e principalmente dentro das autoescolas que acabam sendo afetadas diretamente, caso a decisão seja aprovada.
Paulo Roberto Ramos, de 42 anos, é responsável por uma unidade de autoescola em São Gonçalo e reflete que o posicionamento do presidente não condiz com a realidade que o Brasil enfrenta hoje.
“Nos Estados Unidos vemos que o ensino das leis de trânsito inicia desde muito cedo, é algo normal para eles começarem a entender o funcionamento do trânsito na escola. Aqui no Brasil não temos educação de trânsito”, diz ele que está há 8 anos trabalhando dentro de autoescola.
Outro profissional que se preocupa com o posicionamento de Bolsonaro é o instrutor de trânsito, Eduardo Reis, de 34 anos. Para ele a situação, se for aprovada, será uma situação trágica. “Independente de ser uma ação política é um ato populista em função que traz consequências trágicas. No meu ponto de vista como leigo, o trânsito é um assunto perigoso e importante e eu acho um erro grave você tratar a educação no trânsito como algo facultativo. Do ponto de vista técnico, a gente precisa partir do pressuposto que que cada pessoa e indivíduo leva um tempo pra aprender algo, para ter uma perspectiva diferente e isso vai interferir no processo de aprendizado.” diz ele.
O instrutor diz que às vezes a pessoa conclui todas as aulas obrigatórias mas mesmo assim não são suficientes para que o aluno aprenda e sinta segurança. Esse é o caso da aluna dele, Carolina Nunes. Aos 35 anos ela sonha em aprender a dirigir, mas após fazer as 20 horas obrigatórias para chegar à prova prática, ela não se vê preparada. “Eu fico me tremendo toda nesse volante, é muito difícil você ter adquirir a experiência em pouco tempo, não tem como eu simplesmente chegar e fazer a prova, tem que praticar também”, diz a aluna que está em sua última aula prática antes da prova realizada pelo Detran. Eduardo Reis afirma que a burocracia é realmente algo que pesa muito nessa questão. Ele diz compreender que algumas coisas precisam mudar mas que retirar a obrigatoriedade das aulas, além causar um aumento, ainda maior, no desemprego do país que já está enorme, não será possível medir se a pessoa está preparada para dirigir no trânsito. “Hoje a gente tem um cenário de trânsito caótico partindo do pressuposto que as pessoas não querem aprender, elas querem um documento”, afirma o instrutor, que conclui: “Precisamos entender que trânsito é coisa séria. O presidente disse que aprende com 10 anos de idade mas é algo baseado em uma experiência dele, no local rural. Como que eu posso hoje colocar uma pessoa para dirigir com 10 anos, sem a menor consciência de regra de circulação?”, questiona ele. O presidente, ao final da live, fez também um apelo para que os parlamentares aceitem a proposta do governo de acabar com a obrigatoriedade de exames médicos em clínicas conveniadas ao Detran. “No projeto nosso você pode ter esse atestado com teu irmão, com teu pai, com o vizinho, com qualquer médico”, disse Bolsonaro.
Em junho deste ano, o presidente entregou pessoalmente ao Congresso Nacional um projeto de lei que traz mudanças no Código Brasileiro de Trânsito (CBT), como por exemplo, o fim da obrigatoriedade do uso das cadeirinhas infantis. Ainda segundo ele a proposta de acabar com as aulas práticas e teóricas ficará para um “segundo momento”.
Estagiária supervisionada por Cyntia Fonseca*