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Escolas de São Gonçalo e Niterói sofrem com abandono e depredações

Unidades escolares fechadas aumentam índice de evasão escolar

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 23 de julho de 2019 - 12:36
Moradores do Porto do Rosa sonham com retorno da unidade escolar
Moradores do Porto do Rosa sonham com retorno da unidade escolar -

“Eu quero voltar a estudar e seria um benefício muito grande ter essa unidade em funcionamento. Precisamos de educação em nossa comunidade, para que as crianças diminuam o tempo ocioso na rua, e uma área de lazer para que pratiquem esportes. E que os adultos também tenham a possibilidade de retornar às salas de aula”: essa declaração é da dona de casa, Sueli de Almeida, de 63 anos, ao olhar para o Ciep 045 Municipalizado Porto do Rosa, em São Gonçalo. Localizada ao lado de sua casa, a escola era uma grande ferramenta de conhecimento para toda população da região. Mas atualmente, Sueli precisa ir até o Centro da cidade para concluir seus estudos.

A unidade escolar chegou a ser municipalizada em 2006, mas foi devolvida ao Estado dez anos depois. A falta de investimentos faz com que a comunidade sofra com a falta de ensino.

Hoje, após quatro anos de fechamento definitivo, o Ciep é sinônimo de abandono do poder público, mas nunca foi esquecido pelos moradores que já estudaram no local ou tiveram filhos matriculados ali. Na época, todos os alunos foram remanejados para a Escola Municipal Paulo Reglus Neves Freire, que possui capacidade para mais de 1 mil estudantes, já que a Prefeitura Municipal de São Gonçalo afirmou que o número de alunos era muito baixo.

A aposentada Cristina de Souza, de 56 anos, afirma que a escola funcionando novamente traria muitos benefícios e lembra com carinho dos funcionários e do tempo em que seus filhos estudavam na escola.

“É triste demais ver isso acontecer, e bem perto de nós. A escola funcionava até às 17h e as crianças eram muito bem tratadas. Havia médicos, psicólogos e projetos de esporte e lazer O ensino era ótimo. Não tínhamos do que reclamar", falou.

Cristina acrescenta ainda que, quando o local parou de funcionar, os jovens e seus responsáveis tiveram dificuldade de conseguir vagas em outras unidades. “Lembro que os pais tiveram muitas dificuldades para conseguir vagas em outras instituições. Essa falta de comprometimento do poder público gerou um transtorno muito grande para a comunidade”, afirmou.

O problema de abandono no Ciep 045 não é isolado. Não é difícil ver escolas pelo município passando pela mesma situação, cujas histórias seguem embaixo dos escombros. Como é o caso da Escola Municipal Tarcísio Bueno, no Paraíso e no Ciep 425 Professora Marlucy Salles de Almeida, no bairro de Tenente Jardim, ambos em São Gonçalo.

Das cores à escuridão na Escola Tarcísio Bueno

Se o grande poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade estivesse vivo, não iria gostar nenhum pouco de ter seu nome associado à uma biblioteca com sinais de destruição na Escola Estadual Tarcísio Bueno. Além do poeta, outra referência no mundo da arte pode ser observada através de uma pintura nas paredes dos corredores, Romero Britto, cujo colorido dá um contraste ao local.


A unidade de ensino foi interditada pela Secretaria Estadual de Educação após o teto da biblioteca desabar em agosto de 2015. Os alunos foram remanejados para o prédio do Ciep, que fica a cerca de 300 metros do antigo colégio. Atualmente, até o pátio do colégio vem sendo utilizado como estacionamento irregular.


“Minha esposa estudou por muito tempo nessa escola, era excelente. A cada dia que passa, fica mais depredada, muitas pessoas má intencionadas tentaram invadir. É muito triste ver que uma escola tão boa acabou desta forma e as autoridades não fazem absolutamente nada para solucionar esse problema”, afirmou um morador que não quis se identificar.

Em Tenente Jardim, área ociosa se transformou em pasto de animais

Outro Ciep que está passando pela mesma situação é o Professora Marlucy Salles de Almeida, em Tenente Jardim. O SÃO GONÇALO também esteve no local, e foi possível observar que foi transformado em um grande pasto que atualmente abriga até cavalos, com o mato alto se alastrando pela área. Moradores e pais de alunos matriculados na instituição afirmam que o poder público não deu satisfação sobre o que faria com o espaço. Na época, manifestações foram realizadas para tentar solucionar o problema, mas nada foi feito. Ainda de acordo com eles, há, inclusive, presença de pulgas no local, que desde então não foi mais utilizado.

A unidade funcionava em todos os turnos e também havia o Projeto EJA, para jovens e adultos. Os alunos foram realocados para escolas distantes de suas casas, e nos últimos quatro anos fazem uma caminhada longa até chegarem aos seus destinos.

“A escola era ótima, excelentes professores davam aulas. Meus filhos saíam muito satisfeitos com o ensino. Quando fechou, não disseram o que fariam com o prédio e até hoje não temos informação. A escola já está fechada há anos. Na época, meus filhos foram remanejados para o Colégio Tiradentes, que fica a 30 minutos da minha casa. Meus filhos vão a pé todos os dias para estudar”, disse o auxiliar de serviços gerais e pai de ex-alunos, Cléber da Silva.

O pai de outro aluno também deu seu depoimento: “Meu maior desejo era que essa escola voltasse a funcionar. Essa unidade beneficiava não só as crianças, mas também jovens e adultos que tinham o desejo se voltar a estudar. Na escola, havia um projeto de esporte abrangia também outras crianças da região, o que diminuía o tempo delas na rua. Antes de ser fechada definitivamente, começaram a cortar o abastecimento de água e abandonar a escola aos poucos”, afirmou Ailson da Silva, de 48 anos.

Fechamento de unidades escolares influencia evasão escolar, garante sindicato

Uma das diretoras do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) de São Gonçalo, Maria do Nascimento,afirma que, com esses fechamentos, muitos alunos desistiram de estudar por conta da distância de instituições de ensino para os quais foram realocados. “O fechamento dessas unidades causou grandes transtornos e desistências. Quando o aluno pertence à uma determinada comunidade, muitas vezes ele não pode frequentar em outro lugar, por questões de segurança. Nós tivemos muitos casos assim, de escolas que fecharam por existirem outras próximas, mas os alunos não poderiam frequentar as aulas. Muitos pararam de estudar e foram para instituições muito mais distantes de casa, o que acarreta na evasão da mesma forma. Quando o aluno estuda muito longe de casa, é preciso pegar muitas conduções, e às vezes há outros problemas para conseguirem chegar ao local”, explicou Maria.

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