Enem digital até 2026: especialistas da Educação comentam decisão do MEC

'Erro das escolas tem sido dar foco à tecnologia e não ao educador', diz escritor niteroiense

Enviado Direto da Redação


Por Rafaela Batista*


A tecnologia já ganhou espaço nas empresas, nas ruas, nas famílias e, claro, nas salas de aula. Prova disso é que o Ministério da Educação (MEC) anunciou, no início deste mês, que a partir de 2020, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), será digital para 15 capitais do país, para os primeiros 50 mil inscritos. E mais: a partir de 2026, o exame deixará totalmente de ser impresso.  



Para Saullo Diniz, 26, professor e diretor do curso pré-universitário Start, essa foi uma proposta acertada e importante para os estudantes brasileiros. Segundo ele, o fato de o adolescente ficar muito tempo dentro de uma sala de aula, no modelo tradicional de ensino, não significa que irá aprender mais.   



“As pessoas acham que muitas horas de aula farão com que o aluno aprenda mais, mas estão enganados. Quando começamos o trabalho aqui na Start, eu me aprofundei muito em neuropedagogia para entender como funciona a aprendizagem e o funcionamento do cérebro do adolescente, para criarmos um método eficiente. Com isso, trabalhamos com duas horas de aula. O nosso trabalho é sempre tentar entrar no universo do aluno”, explica o professor. 



Ainda segundo Saullo, é fundamental que a educação se aproprie da tecnologia, e procure tirar os benefícios que ela oferece, mas lembra que o ideal seria o governo focar na educação básica e não apenas em novos métodos de aplicação do Enem.  



“O Enem digital é muito importante, mas não mais do que a educação básica. Têm coisas muito mais importantes que não estão sendo discutidas, como o Fundeb, que é o fundo de educação básica do Brasil. Essa base sim precisa modernizar, tornar-se tecnológica”, conclui Saullo. 



Protagonismo tecnológico



Para o escritor e especialista em Educação, niteroiense Fábio Toledo, o Enem digital também é um bom começo para a educação começar a integrar-se totalmente à tecnologia. Mas, para ele, a inserção tecnológica vai muito além do que uma prova de vestibular digital.  



O escritor explica que as escolas precisam preparar as crianças para esse  novo meio tecnológico, e não apenas instalar uma lousa digital, imaginando que tudo começará a fluir.  



“As instituições de ensino precisam primeiramente preparar as crianças para a escola da vida. E não basta simplesmente ensinar as crianças a criar robôs. A inserção tecnológica, bem como a programação e a criação de animações, jogos, protótipos eletrônicos e mecânicos, inclusive impressões 3D, são ferramentas que devem ser utilizadas a serviço da educação e do desenvolvimento pessoal dos educandos com o objetivo de facilitar o processo de aprendizagem e melhorar o rendimento escolar. Também irá melhorar o desempenho futuro acadêmico e no mercado de trabalho”, esclareceu.  



Para o especialista, a cultura educacional ‘Maker’, além de ser moderna, desperta a curiosidade dos alunos, que é ‘aprender fazendo’.  



“Trata-se do objetivo, de um processo de desenvolvimento de maturidade tecnológica a ser alcançado o mais rápido possível pelas instituições de ensino que querem sair na frente face às demandas do século 21. Gostaria, inclusive, de fazer um importante alerta: o maior erro das escolas tem sido dar foco à tecnologia e não ao educador’”, acrescentou Fábio. 



“O desafio não está associado a adoção da tecnologia em si, mas a forma como ela é aplicada e ao nível de facilitação do processo de construção do saber que ela proporciona. Tudo está intimamente ligado à capacitação dos educadores, ao engajamento e desenvolvimento gradual de sua inteligência tecnológica. É preciso primeiro despertar e desenvolver o protagonismo tecnológico dos educadores”, concluiu.



Enem digital X Educação digital


Quando o Enem digital foi divulgado, muitos estudantes, como a Vitória Maria, de 20 anos, ficaram se perguntando como fariam em relação ao novo método, afinal, nem todos têm a oportunidade de ter um computador em casa ou mesmo acesso à internet. 



Para Vitória, a decisão do MEC em aplicar o Enem de forma digital foi injusta para estes estudantes. No entanto, ela acredita que a tecnologia pode ajudá-los desde que se inseridos numa ‘educação digital’ desde já. 



“Se pensarmos no cenário atual da nossa educação, não é todo o corpo estudantil que tem acesso a uma internet de qualidade, ou meios digitais de qualidade. Tenho amigos que estudam em escolas públicas e eles não têm nem noção do que é uma plataforma digital.  Acredito que os meios digitais podem, sim, ampliar os nossos recursos, mas se não vierem acompanhados de uma educação também voltada para isso, esses recursos irão se perder diante de uma proporção tamanha que a internet oferece”, explicou a estudante, acrescentando: 



“Eu creio que essa proposta também venha com uma ‘pegada ecológica’, mas acho que precisa haver equilíbrio. Porque não adianta querer oferecer um avanço, ou benefício em relação à natureza, se ainda há contrapontos na educação nos dias de hoje”, finalizou.



Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca*

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