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Morador do Pita cria 'Projeto Primeira Chance'

Projeto atende 63 alunos que vivem nas comunidades da região

relogio min de leitura | Redação 30 de junho de 2019 - 09:28
Douglas Oliveira, morador do Pita, mostra fotografias das turmas de crianças e jovens beneficiados pelas atividades do projeto desde sua criação no ano de 2015
Douglas Oliveira, morador do Pita, mostra fotografias das turmas de crianças e jovens beneficiados pelas atividades do projeto desde sua criação no ano de 2015 -

Por Myllena Vianna 

O Projeto Primeira Chance, criado em 2015, por Douglas Oliveira, no Morro do 40, no Pita em São Gonçalo tem contribuído significativamente na cultura e educação das crianças que vivem na comunidade da região. Atualmente, o projeto atende 63 alunos, que são beneficiados com aulas de teatro, balé, violino, futebol, além de outras atividades que são promovidas em sua sede.

O “Primeira Chance” funciona cinco dias na semana e em dois turnos: na parte da manhã e no período da tarde, para que os alunos consigam conciliar a escola com as atividades oferecidas.

Atualmente o projeto só tem capacidade para receber crianças de 7 a 13 anos. Aquelas que já alcançaram a idade máxima de participar das aulas passam a ser monitores dos cursos que são oferecidos, continuando também como alunos.

O fundador do “Primeira Chance” conta que uma obra está sendo planejada para que o projeto seja expandido. A sede vai aumentar e terá capacidade para receber o dobro das crianças que atualmente eles atendem. Além disso, para buscar as crianças para assistirem as aulas, o “tio Douglas”, como é conhecido na localidade, anda mais de 4 km por dia e passa por 3 comunidades a pé para resgatar esses jovens que precisam de mais atenção da sociedade.

“Nós temos a pretensão de crescer, temos uma obra bem grande para esse ano, de um grupo de arquitetos que se propuseram a fazer a planta. Ainda nesta semana, vamos realizar uma vaquinha virtual para arrecadar fundos para essa construção. Futuramente, temos o pensamento de colocar uma casinha do nosso projeto em cada comunidade para que as crianças não precisem andar tanto. É muito distante, não tem asfalto, pedra, esgoto à céu aberto, então faremos isso para melhorar”, explicou.

O nome é para estimular desenvolvimento dos jovens

Douglas começou o projeto após perder os pais por conta de tráfico de drogas, o que o impulsionou a fazer o bem para os jovens que precisam de mais atenção em áreas carentes do município de São Gonçalo.

“Perdi os meus pais muito cedo, e após o falecimento de um primo, que era muito próximo a mim, decidi me organizar e criar um projeto em que fosse possível diminuir o número de mortes através da educação”, contou.

O nome do projeto vem da ideia de que os jovens precisam ter uma primeira chance para não precisarem ter uma segunda.

“É normal na comunidade a gente ouvir as pessoas falarem que alguém que se envolve em coisas erradas precisa de uma segunda chance. A primeira chance é para não ser preciso que tenha a segunda chance. É necessário preparar essa criança para que ela faça parte de uma nova geração em São Gonçalo”, afirmou.

No ano de fundação de seu projeto, Douglas trabalhava como faxineiro em um colégio de classe média. Ele começou a observar o comportamento delas no ambiente escolar e percebeu que deveria levar o que elas aprendiam na instituição para a comunidade, para que crianças carentes também tivessem acesso a atividades que melhoram o nível intelectual das pessoas.

“Eu comecei a me perguntar o porquê de essas crianças da escola e da comunidade serem tão diferentes. Eu tinha certeza que a possibilidade delas terem uma morte que o meu primo e a minha mãe tiveram seria muito pequena. Era bem nítido de saber que a distinção era ocasionada pela educação oferecida lá. Sempre quis ajudar o próximo, mas não sabia como. Até que surgiu a ideia de criar uma forma de que a comunidade conseguisse ter acesso. Conversei com a Paola, minha esposa. Ela é confeiteira, então nesse espaço que é utilizado para as aulas, seria construída uma cozinha para realização dos trabalhos. Ela não só aceitou como abraçou o projeto”, disse.

Douglas explicou também sobre a relação de sua filha, de 10 anos, com as outras crianças atendidas pelo projeto.

“Ela agiu muito naturalmente, é aluna desde que começou, ajuda e participa e tem orgulho de falar para todos na rua que o pai dela é o “tio Douglas” e a mãe “tia Paola” do projeto Primeira Chance”, revelou.

Filho de peixe, peixinho é?

Nos 4 anos de existência, o projeto já passou por algumas dificuldades, principalmente quando Douglas saiu de seu emprego na escola. Ele contou um pouco da adversidade que viveu quando tinha apenas o auxílio desemprego como sustento.

“Nesses quatro anos de projeto eu sempre consegui manter as crianças e os lanches. Houve uma época em que eu tinha fartura para as crianças, mas não havia alimento na minha casa. Há pouco tempo eu me encontrei participando de uma reportagem da Rede Globo, conheci a emissora. Assisti o programa e eu estava me perguntando qual seria a carne que eu ia comprar para minha família comer”, contou.

Com uma história de superação, Douglas já teve sua história emocionante contada por O SÃO GONÇALO. Em agosto de 2001, aos 11 anos de idade, por ter se envolvido com praticas erradas, sua mãe foi assassinada na porta de sua casa e virou manchete dos jornais da época. O pai do então menino, praticava furtos e roubos na região e já havia sido morto 11 dias antes de seu nascimento. Criado pela avó, a conhecida frase “Filho de peixe, peixinho é”, fez parte de sua vida desde muito cedo.

“Minha história sempre chamou muita atenção aqui na comunidade. Sempre foi bastante difícil, eu acabei carregando esse fardo dos meus pais. Sempre fui muito cobrado, as pessoas não tinham a esperança de que minha vida traria algo de bom para outras pessoas. Qualquer situação que acontecia era propícia para me encaixarem nessa estatística de que o caminho que meus pais seguiram, eu seguiria também. Com tudo isso, eu também cheguei a acreditar que apesar do esforço para fazer diferente, não valeria a pena. Depois que minha mãe faleceu, todos faziam questão de ironizar a morte dela e não tinham mais receio de me julgar”, revelou.

Sem o pai e a mãe presentes, quando era adolescente sofreu muitas dificuldades, pois seu avô passou metade da vida internado por conta de uma doença e a avó era muito sobrecarregada para se dedicar às duas situações simultaneamente.

“Enquanto todos acreditavam que eu teria o mesmo fim, eu nunca esqueci as palavras da minha vizinha. Ela afirmava que eu seria um homem de Deus e que faria a diferença na vida das pessoas ao meu redor, além de outras pessoas também afirmarem isso. Eu guardo essas palavras muito dentro de mim e comecei a gostar das pessoas falando bem de mim e que a minha história seria transformada”, contou, acrescentando: “São muitas lembranças que eu carrego e muitas histórias. Todos os dias venço um pouco e quero fazer da minha trajetória uma mudança para as próximas gerações. Acredito que é uma missão que foi nos dada, a gente não se acovarda em aceitar.”, concluiu.

Para realizar contribuir com o Primeira Chance, basta fazer um depósito na conta 66021-7, agência 6148, banco Itaú. Para outras doações, basta entrar em contato através do telefone (21) 99308-8539 (falar com Douglas).

Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca*

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