Quebra de regulamento pode comprometer desfiles de Carnaval em 2020 no Rio
Desfile de 2019 e não rebaixamento da Imperatriz Leopoldinense estão sob investigação da Justiça

O velho dito popular de que ‘vale o escrito’ nunca passou tão longe do Carnaval do Rio de Janeiro. Pelo menos para as escolas de samba do Grupo Especial, que pelo terceiro ano consecutivo, protagonizaram outra ‘virada de mesa’, com quebra de regulamento, que põe em dúvida a credibilidade do espetáculo e pode comprometer a qualidade da festa em 2020, prevista para o fim de fevereiro.
Diante da surpreendente decisão de não rebaixar a Imperatriz Leopoldinense, penúltima colocada em 2019, tomada pela maioria dos dirigentes, na noite de segunda-feira (03), em plenária, o Ministério Público vai intervir para tentar reverter a decisão.
O MP entende que o mesmo direito de permanência na chamada ‘elite’ do Carnaval carioca também deve ser dado ao Império Serrano, que foi o último colocado no Carnaval desse ano. Além de impedir a ‘virada de mesa’ o promotor Rodrigo Terra, também vai aplicar uma multa de R$ 750 mil à direção da Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial (Liesa) por ter descumprido o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado no ano passado, após decisões que favoreceram a Grande Rio e a própria Império, em 2018, e a Unidos da Tijuca e a Paraíso do Tuiuti, em 2017.
A decisão também gerou uma ‘crise interna’ na Liesa, levando o atual presidente, Jorge Castanheira, a pedir demissão da direção da entidade, responsável pela modernização do Carnaval e engrandecimento da festa, colocando-a como um dos mais populares do país, com direito a transmissões internacionais.
Regulamento - Pelo regulamento, a última e a penúltima colocadas no desfile das escolas de samba do Grupo Especial deveriam ser rebaixadas à Série A - caso da Imperatriz e do Império. Mas a ‘virada de mesa’ só beneficiou a escola de Ramos. Os presidentes das treze escolas que participaram da plenária, na sede da Liesa, no Centro do Rio, não quiseram dar entrevista à imprensa. Castanheira, constrangido, explicou o ocorrido.
“Oito escolas votaram a favor da permanência da Imperatriz. A minha sugestão era de que se fizesse alguma coisa no futuro, no regulamento de 2020. Não foi aceito. Eu declarei, em plenário, pedi que estou me afastando da Liga porque não concordo com essa situação de maneira alguma”, completou Castanheira. Enquanto a justiça vai decidir o Carnaval de 2019, os rumos da festa em 2020 ainda são uma incógnita.
Problemas - Se a justiça mantiver a Imperatriz e a Império no Grupo Especial, haverá problemas na Série A, já que a última colocada entre as agremiações filiadas à essa entidade, a Alegria da Zona Sul, também pode reivindicar a permanência nos desfiles de sexta-feira e sábado. Se isso ocorrer, todas as agremiações dos grupos posteriores que caíram e desfilam na Estrada Intendente Magalhães, em Campinho, no Rio, também reivindicarão o mesmo direito.
Decisão desencadeia crise e ‘racha’ na Liesa
Surpresa para a opinião pública e a imprensa, a decisão em não rebaixar a Imperatriz já estava sendo articulada nos bastidores do mundo do samba depois do Carnaval. Após a queda, o próprio presidente da escola de Ramos, Luizinho Drumond, garantiu que iria cumprir o regulamento e desfilar na Série A em 2020.
Além de não deixar o barracão ocupado há anos por sua escola na Cidade do Samba , na Gamboa, ele não foi a nenhuma das plenária da Lierj esse ano. Era um indício de que ficaria na elite. A decisão também mostrou que os dirigentes da Liesa, antes afinados em um mesmo discurso, já não falam a mesma língua.
O grupo leal ao presidente Jorge Castanheira, formado por Mangueira, Beija-Flor, Portela, Viradouro e Vila Isabel, que tem diretores na direção da entidade, foi contra a permanência da Imperatriz.
Esses dirigentes foram superados pelos votos de: São Clemente, Paraíso do Tuiuti, Estácio de Sá (Campeã da Série A), Grande Rio, União da Ilha, Salgueiro, Mocidade e Unidos da Tijuca. Causaram surpresa os votos dados pelos presidentes da Tijuca, Fernando Horta, e da Paraíso do Tuiuti, Renato Thor, que até então, eram fiéis colaboradores do grupo político de Castanheira e de Aílton Guimarães Jorge, o ‘Capitão Guimarães’, que é ligado à Vila Isabel e ainda tem grande poder de influência nas decisões envolvendo o Carnaval.
Surpreendeu também os diretores da Liesa, o voto do presidente da Mocidade Independente, Rogério Andrade, que estava sumido há meses, e acabou votando a favor da permanência da Imperatriz. Comenta-se nos bastidores do mundo do samba, que Rogério, Luizinho e Fernando Horta, formaram um grupo de oposição ao grupo liderado por Castanheira e Ailton Guimarães Jorge, insatisfeitos com as últimas decisões tomadas pela direção da entidade.
Não vale o escrito - O ‘inchaço’ começou em 2017, ano da primeira das três ‘viradas de mesa’ seguidas. Acidentes em alegorias da Tuiuti e da Unidos da Tijuca deixaram uma mulher morta - a radialista Liza Carioca - e pelo menos 30 feridos. A Liga decidiu, então, que nenhuma escola seria rebaixada, mas manteve o acesso da Série A. Em 2018, duas das 13 escolas deveriam cair - mas novamente a ‘mesa virou’. A Grande Rio veio com uma alegoria a menos e perdeu pontos, ficando na ‘zona de rebaixamento’, mas foi salva pelas coirmãs. A desculpa dada foi a dificuldade para financiar o desfile diante do corte de subvenção municipal.