Moradores de São Gonçalo participam de cerimônias referentes ao 'Dia da Vitória' da 2ª Guerra Mundial

Gêmeos criadores da revista em quadrinhos "Smoking Snakes" foram convidados para um dos eventos

Enviado Direto da Redação

Por Rennan Rebello


5 de maio - Às vésperas da celebração


Três dias antes do ‘Dia da Vitória’, os irmãos gêmeos e pesquisadores da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na tropa dos Aliados, Daniel e Danilo Mota, participaram do Desfile do Regimento Imortal organizado pela Casa da Feb, associações da comunidade russa e Consulado Geral da Federação Russa no Rio de Janeiro - a Rússia foi um dos países aliados; na época pertencendo a URSS - no Aterro do Flamengo, na Zona Sul carioca, no Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, popularmente conhecido como Monumento dos Pracinhas, inaugurado no ano de 1959 em tributo aos combatentes brasileiros que entraram em confronto contra as tropas do Eixo.


“A gente foi convidado pelo grupo ‘Verde Oliva’ que é voltado para a prática do airsoft (atividades que simulam operações militares) e para reencenar períodos históricos da Segunda Guerra Mundial. O evento teve o objetivo de homenagear os mortos nas batalhas e contou com a presença de brasileiros e russos, familiares de veteranos, entre outras pessoas”, revelou Danilo, que cursa História na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Campos dos Goytacazes, município de origem de seu avô João Batista Mota, que embora não tenha ido a guerra; se alistou como voluntário.


Na ocasião, os irmãos Mota marcaram presença na festividade, usando réplicas de roupas e acessórios utilizados pelos soldados brasileiros, entre os anos de 1944 e 1945, nos confrontos na Europa. “As roupas que usamos são réplicas produzidas pelo Centro Histórico Overlord Militaria, do historiador César Campiani, a gente tem adquirido estas réplicas com eles. Além disso, possuimos alguns ítens originais, como capacete, cantil e bolsa de lona”, disse Danilo.


Hobby virou trabalho - Em janeiro desse ano, OSG contou a história dos gêmeos, que em conjunto com o professor de Artes Visuais, Antonio Jr, criaram a revista de histórias em quadrinhos “Smoking Snakes: Você sabe de onde eu venho?”, a fim de relatar o período da 2ª Guerra Mundial com referências aos ex-combatentes de S.Gonçalo. Após o sucesso desta empreitada, Danilo e Daniel fundaram recentemente um grupo de estudos intitulado como ‘Em Guerra’, que tem a finalidade de pesquisar e produzir conteúdos audiovisuais e editoriais.


“O que temos em produção no momento é um documentário que terá entrevistas com veteranos a fim de mostrar a parte ‘humana’ da guerra através de suas falas. Inclusive, iremos inscrever esta produção no festival de cinema de filmes militares, o Militum. Além disso, temos a pretensão de escrever livros. O nosso trabalho em si, não será apenas sobre a 2ª Guerra, mas também abordaremos outros conflitos, tendo como recorte o século XX”, comentou Daniel, que estuda História da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), no bairro do Patronato.


Para somar forças neste projeto, os irmãos ganharam reforços na ‘tropa’: Beatriz Silva, 20, estudante de Letras/Literatura na UFF e a namorada de Daniel; Juliana Souza, 22, que faz licenciatura em Teatro no Instituto Federal Fluminense (IFF-Campos) e namorada de Danilo, além de Hayra Souza, graduanda de Letras/Inglês na FFP/UERJ e irmã de Beatriz. “A ideia de montar este grupo de estudos surgiu quando o ‘time’ já estava funcionando, pois as meninas sempre nos ajudaram e já saiam conosco para fazer registros. Por isso, resolvemos oficializar”, contou Daniel.


Na equipe, cada um tem uma função em prol do ‘Em Guerra’. Na produção e pesquisa de conteúdos estão Daniel e Danilo; já a edição de vídeos e materiais gráficos ficam por conta de Hayra; enquanto a fotografia é de responsabilidade de Juliana e a filmagem e divulgação nas redes sociais tem a gestão de Beatriz. Informações sobre este coletivo estão no perfil @emguerraproducoes, no Instagram.


8 de maio - O Grande Dia


Os ex-combatentes de guerra Walfrid de Moraes e Nelson Botelho, que preside a Associação dos Ex-Combatentes, em São Gonçalo, foram condecorados com a ‘Medalha da Vitória’ concedida pelo Ministério da Defesa, em solenidade ocorrida no Monumento aos Pracinhas. “Eu Fiquei muito emocionado com este evento e com esta homenagem. Nesta época, fui motorista e pilotei até avião, inclusive, as nossas fardas e equipamentos eram do exército dos Estados Unidos. Como cidadão, fiz a minha obrigação e me sinto com dever cumprido. Passamos por momentos difíceis, como em Fernando de Noronha (Pernambuco), quando derrubamos o submarino alemão que estava na costa brasileira e iria nos atacar”, narrou Botelho.


Já Moraes, que assim como Botelho e Bessa, também esteve no ‘Desfile do Regimento Imortal’ junto com os irmãos Mota, se mostrou agradecido com a condecoração e lamentou o pouco reconhecimento desta data por parte da população. “Agradeço muito ao Daniel e Danilo, que são pessoas qualificadas neste assunto e é por causa deles que pude ir ao evento e a cerimônia, pois já houve vários desfiles de sete de setembro e eu nunca tomei parte. Infelizmente, o ‘Dia da Vitória’ não tem o reconhecimento devido pois as pessoas esqueceram da gente. Outro nome que gostaria de mencionar é o do Sylvio de Mattos (ex-presidente da Associação dos Ex-Combatentes de São Gonçalo), já falecido, ele também esteve na guerra e me ajudou muito após meu retorno da Itália”, relatou o ex-combatente que confidenciou que caso fosse possível, gostaria de retornar ao ‘país da Bota’.


“Estou com 97 anos e é difícil planejar algo mas se Deus permitir, quero seguir frequentando esses eventos (de veteranos) e até tenho vontade de ir a Itália para visitar os lugares por onde passei. Nós brasileiros éramos preferidos da população italiana, já os americanos não. Gostaria de relembrar histórias como a de um casal de crianças Ubaldo e Reza, que ficavam perto da ponte de Campiano. Eles eram irmãos e me chamavam para ir em sua casa, que era próxima de uma igreja católica e a uma plantação de cereais. O pai deles me recebia muito bem e dizia tu ‘brasiliano’ vai comer uma macarronada. Será que eles ainda estão vivos?”, questionou Moraes, que durante sua narrativa, também falou outras frases em italiano.


Na cerimônia, o veterano gonçalense Carlos Henirque Bessa, radicado no Rio, que atuou como médico pela FEB na 2ª Guerra também relembrou sua trajetória. “Nasci em Neves (S.Gonçalo), há quase 100 anos. Depois morei atrás da Igreja de São Lourenço (Niterói), antes de estudar medicina. Logo depois de formado, embarquei para a guerra, foi um período muito duro de preparação antes de atuar no Batalhão de Saúde na Itália; trabalhei próximo ao front. A comemoração deste ano foi marcante e teve até a presença do nosso presidente (Jair Bolsonaro) para conceder a Medalha da Vitória aos veteranos, que eu também tenho com muito orgulho mas a condecoração que eu mais prezo é a pequenina de bronze, a ‘Medalha de Campanha’, que só é destinada a quem esteve no front de batalha na Itália, finalizou Bessa.

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