Morador de Niterói, Alberto Pereira usa técnicas de lambe-lambe em suas obras contra preconceitos

Artista irá expor seu trabalho no Templo da Gávea, na Zona Sul do Rio

Enviado Direto da Redação

Por Samara Oliveira e Ari Lopes

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil é o país com a maior população negra fora do continente africano. Com base nessa realidade é que o artista plástico e comunicador visual Alberto Pereira Nogueira, 30, morador de Niterói, usa seu trabalho de intervenção urbana, na forma de cartazes, o famoso lambe-lambe, na desconstrução de preconceitos, principalmente os que sofrem a população negra.

‘Jesus Pretinho’ é uma das obras do autor, que mostra essa intenção. O quadro/cartaz retrata uma mulher branca, que seria Maria, a mãe de Jesus, com um bebê negro no colo, o ‘Jesus Pretinho’. Esse foi um dos trabalhos do artista que se tornou mais popular e viralizou, saindo das paredes e muros das ruas para o interior das casas. Ao utilizar essa arte de rua como intervenção urbana, Alberto conta que busca fazer uma releitura dos fatos impostos e a partir disso, levar um novo olhar para os lugares e as pessoas.

“A gente é sempre colocado como profano. Em todos os contextos que existimos, ‘inexistimos’. Isso na diáspora (deslocamento forçado de um povo em consequência de preconceito, perseguição política, religiosa ou étnica), no pós-abolição, na representação da mídia, na não presença em espaços de privilégio. É sempre sobre existir e inexistir, sobre estar na margem”, afirmou.

O artista que já soma 10,3 mil seguidores no Instagram já expôs suas obras em outros países. No final de 2018, ele, junto com mais cinco artistas brasileiros, participou da Bienal de Arte do Cairo, no Egito, além de expor trabalhos em Beirute, no Líbano.

“Consegui ir por meio de um financiamento coletivo. Foi muito importante e lembro todos os dias, pois ainda estou preparando as recompensas do financiamento para enviar. Também já colei trabalhos do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo. Falta alcançar o Nordeste”, disse.

Para fortalecer esse trabalho e chamar atenção para a arte urbana, Alberto idealizou o projeto ‘Lambes Brasil’. Em 2018, a iniciativa teve apoio de mais quatro artistas da área que conseguiram realizar o primeiro evento internacional. Trabalhos de mais de 250 artistas de 17 países foram reunidos em dois grandes murais, um em Sorocaba e outro em Buenos Aires.

Vale ressaltar que a ação não contou com nenhum patrocínio, mesmo que os artistas tenham buscado por isso.

Obra com temática religiosa

Depois do sucesso de ‘Jesus Pretinho’, um trabalho que seguindo a linha do artista faz uma releitura da tradicional imagem de Jesus, vista nos espaços religiosos, Alberto apresenta seu novo trabalho ‘Anjo Preto Até Deus Duvida’, que conta com o apoio da galeria Estopim que auxilia artistas independentes, quinta-feira (28), das 18h às 22h, no Templo Gávea, na Rua Duque Estrada, 41. Entrada gratuita e livre.

“O tema do trabalho é sobre a representação, ou não representação, da pele negra como algo sagrado. Então quando faço o meu próprio anjo preto, por não ver anjos pretos na igreja, de tradição eurocêntrica, assumo nossa cor como algo divino e ressignifico isso. Traço esse paralelo com o que entende-se por religião e imposição, por isso a ironia de que até esse Deus duvida de anjo preto. Tudo que faço é sobre ressignificar, mostrar a realidade e o preconceito. Cada exposição é uma conquista, sendo pequena ou grande. Essa exposição é sobre isso tudo”, afirmou.

A exposição fica em cartaz até o final de março. 

'Quero levar a arte de rua para as galerias'

“Em 2010 colei meu primeiro lambe e achei que era passatempo. Depois estagiei, trabalhei no Festival de Cinema do Rio, e no jornal O Globo por 5 anos. Em paralelo a O Globo, pra aprender sobre venda e apresentação de projetos fui vendedor de energético e barras de proteínas. Depois de um corte de mais de 300 funcionários pedi demissão da empresa. Vendi plano pré-pago de saúde, fui motorista de aplicativo e com tudo isso na bagagem entendi que aquele passatempo chamado arte me curava e me potencializava a curar a angústia que é existir nessa sociedade desigual. Entendi que como cidadão preto nessa sociedade racista brasileira, preciso correr muito pro meu futuro na arte e pelo futuro das próximas gerações. Quero educação pra geral. Quero poder de compra pra geral. Quero saúde pra geral. Quero andar de carro sem ser olhado como se eu não pudesse dirigir aquele carro. Quero entrar num prédio sem ser olhado pelo morador do mesmo prédio ao entrar pela porta social. Quero andar no mercado, na loja, no shopping e ser reconhecido como cliente. Quero levar a arte de rua, colagem e o lambe-lambe para dentro das galerias. Quero igualdade”, disse Alberto Pereira.

Veja também