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São Gonçalo recebe mais duas famílias venezuelanas

Imigrantes chegam à cidade em busca de uma ‘nova vida’

relogio min de leitura | Redação 30 de dezembro de 2018 - 16:02
Dona Lina e a filha Marcia Gomes receberam outra família venezuelana: Surgeis, Adrian e Geronima
Dona Lina e a filha Marcia Gomes receberam outra família venezuelana: Surgeis, Adrian e Geronima -

Por Rennan Rebello 

A crise econômica, social e política que atravessa a Venezuela fez com que houvesse uma intensa imigração para países vizinhos, como o Brasil, por Roraima. Mas após um período de conflito entre venezuelanos e a população local e a dificuldade em alocar os imigrantes naquele estado, o governo brasileiro adotou a política de interiorização dos refugiados em seu território. São Gonçalo recebeu mais venezuelanos recentemente, e desta vez, duas famílias que estavam vivendo, em Boa Vista. Uma delas foi acolhida temporariamente na Igreja Matriz, no Zé Garoto, antes de ser encaminhada ao Coroado. Já outro núcleo familiar se hospedou na casa de uma guarda municipal que reside coincidentemente no bairro de mesmo nome da capital roraimense, Boa Vista. Em território gonçalense, os novos moradores poderão reconstruir suas vidas neste ano novo que se inicia, trazendo a rica cultura venezuelana ao cotidiano da cidade.

Quando vi meu filho Adrian, de 7 anos, chorando por causa da fome, decidi deixar a Venezuela”. A frase é da professora e ex-militar, Surgeis Morales, de 37 anos, em entrevista ao O SÃO GONÇALO, no dia da chegada do grupo de venezuelanos, no último dia 22, em um jantar de boas-vindas na Igreja Matriz.

Surgeis, além de seu filho Adrian Enrique Morales, também trouxe sua mãe Geronima Zapata, de 70 anos. Todos estão morando de maneira provisória com a guarda municipal Marcia Gomes, 37, em uma casa no Boa Vista.

“Quando o padre André anunciou na missa a vinda deles para São Gonçalo, senti Deus tocar no meu coração e resolvi abrir as portas de minha casa para eles. Estou muito feliz com a convivência”, relatou Marcia.

A família é oriunda da cidade de Maturín, do estado de Monagas, que fica ao sul do país bolivariano, aproximadamente a 667 quilômetros da fronteira brasileira, de Pacaraima (RR), de onde seguiram para Boa Vista e permaneceram em um terreno baldio com outros compatriotas.

“Foi uma experiência muito difícil, ficamos acampados em muitas barracas, e o proprietário do espaço nos ameaçou de despejo no dia 30 de dezembro. Cheguei a trabalhar como manicure para arrumar meios de nos sustentar. Ainda tenho três irmãos lá em Roraima, e outros cinco que ficaram na Venezuela”, comentou Surgeis, que já tem um currículo pronto e busca se estabelecer no mercado de trabalho local e participou de sua primeira ceia de Natal no Brasil, na casa de Marcia, onde pode experimentar comidas típicas brasileiras, como a rabanada.

Sobre uma volta à Venezuela em um futuro próximo, Surgeis não descarta mas acha difícil. “É claro que sentimos falta de nossa terra, dos outros parentes e da nossa cultura, porém estamos construindo uma nova vida e não sei se regressaremos, no entanto sempre há uma esperança”, opinou.

Também oriundos do sul venezuelano, a outra família veio de El Tigre, município de Anzoátegui, cerca de 641 quilômetros de distância do Brasil, e os também novos moradores da Região Metropolitana do Rio, também estão em processo de reconstrução de uma vida com dignidade.

“O abastecimento de comida praticamente não existe mais por lá. Além disso, a cada dia havia um preço novo para se comprar o que necessitamos devido à inflação. Nosso planejamento para imigrarmos ao Brasil foi demorado. Juntamos todas as nossas economias para que eu viesse primeiro, arrumasse trabalho na construção civil e depois enviasse dinheiro para que todos pudessem vir me encontrar em Boa Vista. Graças a Deus, deu tudo certo, cheguei no 15 de janeiro deste ano, e eles me encontraram no dia 2 de fevereiro”, revelou Daniel Rafael Urdaneta, 38, que veio acompanhado de sua esposa, Diensay Villarroel, 41, e seus enteados Enmanuel, 19, e Santiago, 12.

Daniel que está em processo de ir morar em um prédio no bairro do Coroado, com a família, passou os primeiros dias, em São Gonçalo, na Igreja Matriz, da qual agora é empregado de carteira assinada e vai prestar serviço como pedreiro à instituição religiosa.

 “A recepção que tivemos aqui é algo fora do comum, muito diferente do que foi em Roraima. Isso me emociona bastante, ainda mais por tudo que passamos. Por isso, quero agradecer a Jesus Cristo, ao padre Agnaldo, Giulia e Débora que trabalham no Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, que nos ajudaram muito, ao exército brasileiro, ao padre André e a todos da Igreja Matriz”, disse emocionado.

‘Elo’ da região com o venezuelanos

No ‘contra-fluxo’, a psicóloga capixaba que se radicou em Niterói, Giulia Camporez, 30, largou seu emprego na coordenadoria de Políticas Públicas de Juventudes na Prefeitura de São Gonçalo para se voluntariar no Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) a fim de ajudar as famílias venezuelanas que atravessam a fronteira diariamente, e recentemente ela foi efetivada e seguirá no projeto que auxilia o processo de interiorização dos imigrantes. “São dois pontos deste processo, um é referente a ‘medição para trabalho’, onde a gente disponibiliza currículos, em português, que fica no banco de dados para fazermos a mediação com empresas. E a outra forma é o ‘Caminhos de Solidariedade’. um projeto da Cáritas Brasileira, onde qualquer pessoa pode cadastrar o perfil de pessoas que possa hospedar”, explicou a psicóloga. Giulia, foi o ‘elo’ com o Padre André da Igreja Matriz, que se mobilizou em prol do recebimento destas famílias no município. “Atender refugiados é algo histórico da igreja católica, nosso objetivo é dar meios para que essas pessoas possam trabalhar e viver com dignidade. Nós também temos preocupação com a nossa comunidade, inclusive já fizemos eventos em prol de famílias de nossa região que estão passando por um momento de dificuldade”, finalizou o líder religioso. Para quem puder ofertar vagas de emprego aos venezuelanos basta acessar o portal: sjmrbrasil.org e para hospedar alguma família, é preciso entrar no site: www.caminhosdesolidariedade.org.br.

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