Outubro Rosa alerta para importância da detecção precoce do câncer de mama
Prevenir é o melhor remédio

Por Elena Wesley
“Não estou gostando do que estou vendo”. O coração parecia ter parado por alguns segundos ao ouvir a breve avaliação do médico. O pequeno caroço percebido no banho já estava visível pelo sutiã. E a ultrassonografia identificou mais de um nódulo, um deles do tamanho de um limão pequeno. O caso da produtora de eventos Rejane Dantas, que enfrentou e venceu o câncer de mama em 2012, exemplifica o quanto a doença é o tipo que mais mata mulheres e o segundo mais comum entre a população feminina brasileira.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima quase 60 mil registros no ano passado. Em 2013, o país contabilizou 14.388 mortes. Na abertura de mais um Outubro Rosa - mobilização que busca informar sobre a prevenção da doença -, relatos como o de Rejane se fazem ainda mais urgentes.
A primeira suspeita surgiu ainda em 1999. Enquanto amamentava, sentia nódulos se movimentarem. A ausência de dor, no entanto, fez o médico que consultou descartar um quadro mais sério. Os sintomas sumiam e retornavam ao longo dos anos, porém a rotina atarefada adiava uma nova consulta. O estopim ocorreria em 2011, justamente num período em que tentava recuperar os bens perdidos na tragédia do Morro do Bumba. Para surpresa da produtora, o atendimento foi rápido. Encaminhada do Hospital da Mulher ao Inca, onde a mãe tratava um câncer na cabeça, Rejane iniciou a quimioterapia na tentativa de reduzir o nódulo.
“Quando descobri o câncer, morava ‘de favor’. Conciliava as sessões com visitas à Prefeitura para reivindicar meu apartamento. Após seis meses de tratamento, eu estava muito debilitada, havia perdido o cabelo e, ainda assim, precisaria fazer a mastectomia integral. Operei em agosto de 2012. Foram tempos difíceis, nos quais a minha fé e a paixão pela dança de salão não me deixaram fraquejar”, conta. A experiência lhe tornou uma pessoa comprometida em conscientizar sobre a doença. Até mesmo as festas de aniversário ganharam o Outubro Rosa como tema. O característico sorriso no rosto ganhou intensidade há 10 meses, com a reconstrução da mama.
“Aprendi que a alegria de fazer o que se gosta tem o poder de curar. Me descobri linda e forte. Só o que havia mudado era a quantidade de cabelo e de seios, o que não fazia de mim outra pessoa. A reconstrução veio coroar tal mudança de vida. A doença afetou o corpo, mas me ajudou a curar os males da alma. Apelo às mulheres para que não ignorem os sinais do corpo. Mesmo que não haja dor, procurem ajuda médica”, recomenda.
Diagnóstico antecipado garante sobrevida
Dados do Inca apontam que a taxa de sobrevida após 5 anos após o diagnóstico é de 88% quando a doença é descoberta ainda no primeiro estágio. A prevenção começa pelos bons hábitos, já que obesidade, ingestão de bebidas alcoólicas e sedentarismo favorecem o surgimento da doença. O Inca também calcula que, em 66% dos casos, é a própria mulher quem detecta os primeiros sinais do câncer de mama.
Os principais sintomas são a presença de um caroço (citado por 89% das mulheres), dor na mama (20%), alterações na pele da mama (7%), alterações no mamilo (2%), saída de secreção do mamilo (5%) e alteração no formato da mama (3%). Em 30% dos casos, o câncer foi identificado por uma mamografia ou outro exame de imagem e, em 3% dos casos, um profissional de saúde detectou a suspeita.
No entanto, Maria de Fátima Gaui, professora de Oncologia Clínica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que, embora seja importante, ainda não há dados que indiquem a redução dos índices de mortalidade por influência do autoexame.
“Há tumores pequenos muito agressivos, e outros grandes em tamanho e menores em risco. A gravidade depende também da quantidade de lifonodos no tumor e do subtipo do câncer. Em tese, a maior probabilidade de recuperação está atrelada a quanto menor o tumor, porque vale mais perceber um caroço de azeitona do que uma bola de ping pong. Todavia, o autoexame não é o método de rastreamento mais eficaz. Em muitos casos, quando a mulher percebe o nódulo pelo autoexame, ele já está muito avançado. Por isso, é fundamental se submeter à mamografia periodicamente”, explica.
O Ministério da Saúde recomenda que as mulheres entre os 50 e 69 anos façam a mamografia a cada dois anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia sugere que mulheres a partir dos 40 anos o façam anualmente.
Gaui salienta que, em alguns casos particulares, a mulher pode antecipar o exame, como terapia de reposição hormonal, caroços antes da menstruação, ou no caso da mãe ter sido diagnosticada com câncer de mama antes dos 45 anos.
“A mamografia não é feita com jovens, devido à densidade da mama. As anormalidades podem ser analisadas por ultrassonografia. Já a paciente cuja mãe teve câncer de mama deve fazer o exame quando tiver 10 anos a menos que a idade da mãe quando diagnosticada”, reforça.
Atendimento rápido ainda é uma utopia
Uma paciente no Estado do Rio de Janeiro leva cerca de 12 meses para fazer uma mamografia. É o que estima a advogada Fabiana Amaral, que falará sobre os direitos da mulher com câncer de mama no próximo dia 11, às 18h, na OAB-São Gonçalo.
A Lei Federal 12.732/12 estabelece prazo de 60 dias para início do tratamento oncológico.
“A demanda judicial do portador de câncer aumenta drasticamente. A demora de atendimento na rede pública, escassez de medicamentos e equipamentos atrasam o quadro de quem já corre contra o tempo. O paciente que não conseguir tratamento dentro do prazo deve denunciar o caso à ouvidoria do SUS pelo telefone 136.Em último caso, pode acionar a Justiça, através da qual têm prioridade na tramitação de processos”, explica Fabiana, que também vai abordar os benefícios garantidos ao paciente com câncer na palestra gratuita.
Atendimento
Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) de 2011 informa que o SUS leva, em média, 76 dias para iniciar o tratamento. O prazo é ainda maior para a radioterapia, que chega a 113 dias. Nos Estados Unidos, quase 100% dos tratamentos são iniciados em até 30 dias.
As gonçalenses podem procurar o Espaço Rosa, no Zé Garoto. A unidade oferece ultrassonografia, biópsia, mamografia e próteses de alpiste para uso diário.
Mobilização pela prevenção
Nem sempre o ativismo precisa surgir por conta de uma experiência como paciente. Prova disso é da especialista em Patologia Mamária, Maria Auxiliadora Soares que, ao perceber a falta de informação e a dificuldade de tratamento para as clientes, decidiu mobilizar São Gonçalo contra o câncer de mama.
Desde 2015, a físico-médica promove uma caminhada de prevenção à doença.
Neste ano, o evento será realizado no próximo dia 21, às 10h, na Praça Zé Garoto. O percurso será finalizado na Praça Luiz Palmier, no Centro, onde haverá uma ação social com aferição de pressão, exame de glicemia, entre outros serviços.
“Por conta da falta de informação sobre a doença, muitos pacientes já chegavam no consultório com quadro avançado. O atendimento demorado pode piorar ainda mais o caso. Para a caminhada, conseguimos articular algumas parcerias com clínicas privadas, que darão descontos de 50% aos pacientes com encaminhamento médico. Em média, a mamografia custa de R$80 a R$100. Tentamos aliar a prevenção à facilitação dos que precisam de assistência médica”, afirma Dora, que espera mobilizar mais de 500 pessoas no evento.