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‘Vaquinha’ por um sonho

Coral de Niterói pede doações na internet para representar o Brasil em evento na Letônia

relogio min de leitura | Redação 15 de maio de 2017 - 11:30
O grupo vocal Boca que Usa foi fundado há 20 anos em Niterói e é formado por integrantes de diferentes idades e profissões
O grupo vocal Boca que Usa foi fundado há 20 anos em Niterói e é formado por integrantes de diferentes idades e profissões -

Por Matheus Merlim

Representar o Brasil em uma competição internacional não é para qualquer um, pois exige toda uma responsabilidade para fazer bonito. Sobretudo quando se é o primeiro coro nacional convidado a participar do principal torneio de canto coral do mundo, o “Grand Prix of Nations”, na Letônia, em julho. Essa é a conquista do grupo vocal Boca Que Usa, fundado há 20 anos, em Niterói. Mas para que os 20 músicos consigam chegar até uma das três Repúblicas Bálticas, eles vão contar com a solidariedade.

Para conseguir levantar o dinheiro necessário para a viagem de todos do grupo, eles tiveram a ideia de criar uma “vaquinha” online. O valor estipulado pelos músicos foi de R$50 mil para cobrir gastos iniciais, como passagens. A campanha está no ar desde 30 de março e tem prazo de encerramento para o dia 29 de junho, poucos dias antes do embarque rumo à Europa.

“Por sermos um grupo totalmente independente, a gente sempre custeou nossas viagens. Mas agora a competição caiu em alta temporada na Europa, e a passagem simplesmente aumentou muito. Queremos que todos do grupo tenham a oportunidade de ir, para conseguirmos dar nosso melhor lá. A Letônia é o berço do canto coral no mundo, a tradição é muito forte e será muito importante esse conhecimento”, explicou um dos fundadores do Boca Que Usa, o psiquiatra e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Fabri, de 56 anos.

O “Grand Prix of Nations” é um torneio que reúne apenas coros com alta pontuação em concursos anteriores. O grupo de Niterói foi selecionado após ganhar dois diplomas de ouro, ficando em 1º lugar, em um concurso de Barcelona em 2014, nas categorias sacro e erudito. Entre os países que disputarão o troféu mundial, estão: Armênia, Bélgica, Bulgária, Canadá, China, Croácia, República Tcheca, Dinamarca, Estônia, Ilhas Faroe, Finlândia, Alemanha, Grécia, Grã-Bretanha, Hungria, Israel, Itália, Letônia, Rússia, Holanda, Polônia, Portugal, Romênia, África do Sul, Espanha, Suíça e Estados Unidos.

“Já participamos de diversos campeonatos fora do Brasil, inclusive somos mais conhecidos em outros países da América Latina e do Norte do que propriamente aqui. Aliás, foi depois de ganhar um concurso na Argentina, que fomos alçados para outros cantos do mundo. Em 2015, vencemos o Canta Al Mar, em Barcelona”, acrescentou Roberto, afirmando que no “Grand Prix of Nations”, o grupo concorrerá nas categorias sacro e erudita, com cinco canções em cada uma.

Segundo o professor, a principal singularidade do Boca Que Usa é o uso de regência compartilhada, ou seja, não há um só regente do coral, existe um rodízio entre os integrantes em relação às músicas e estilos. No entanto, para competir, eles seguem as normas do regulamento e elegem um integrante, anteriormente, para assumir a função.

Quem puder e quiser contribuir com qualquer valor, basta acessar o link do financiamento coletivo: www.vakinha.com.br/vaquinha/boca-que-usal. Para saber mais sobre a história do grupo e acompanhar o resultado das competições, é só ficar de olho na página deles no Facebook: www.facebook.com/bocaqueusa/

Falta de incentivo e reconhecimento

O grupo vocal Boca Que Usa começou com apenas cinco componentes, em 1997, em Niterói. A princípio seria apenas uma união de músicos - que já tinham experiências com canto coral anteriormente - para uma competição específica. Mas a harmonia deu tão certo que hoje já somam 20 componentes, de diferentes idades e profissões.

“A diversidade de personalidades, vozes e idades é muito grande. É uma mistura saudável e que tem rendido uma boa qualidade sonora, além dos resultados claros na competição. Para quem começou como quinteto, fizemos uma história bonita até aqui”, contou Roberto.

O nome “Boca Que Usa” tem origem em uma expressão italiana, mas calhou certinho na dinâmica do coral de Niterói. O grupo se encontra semanalmente às segundas-feiras, na residência de um dos integrantes, em Icaraí, na Zona Sul de Niterói, para realizar o tradicional encontro para ensaiar. Até hoje, o principal obstáculo ainda é a falta de incentivo.

“O canto coral já foi extremamente tradicional no Estado do Rio. Era muito praticado nas escolas, por ter um papel educador e disciplinador. Mas, no Brasil, acredito que o período militar tenha ajudado a extinguir a prática, assim como outras atividades de grupo. A cultura ainda é muito forte em São Paulo e no Sul. Apesar disso, Niterói consegue resistir. Falta reconhecimento, falta estrutura, mas o amor pela arte fala mais alto”, explicou Roberto.

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