Governo do Estado deixa São Gonçalo sem hospital e RJ-100 cheia de buracos

Por Cyntia Fonseca
Mais de 1 milhão de habitantes e motivos incontáveis para desacreditar. Além de insegurança, retração na economia e crise nos setores essenciais como saúde e educação, a população de São Gonçalo precisa lidar com antigas promessas ainda não cumpridas pelo Governo do Estado. Entre mais de 30 obras inacabadas em todo estado, duas promessas antigas estão em São Gonçalo: o Hospital da Mãe, no Colubandê, e a RJ-100, antiga Estrada Velha de Maricá.
Anunciado em outubro de 2013, o Hospital da Mãe trouxe a luz da esperança a centenas de moradores do bairro Colubandê e do entorno. Uma maternidade de referência em São Gonçalo, com atendimento estendido também a outros municípios e às margens da RJ 104: tudo que a população precisava. Sim, precisava. Pois todo entusiasmo ficou apenas no passado, já que a obra orçada em mais de R$ 37 milhões permanece até hoje inacabada. Com apenas 27% do edifício concluído, a maternidade que prevê a realização de 800 partos mensais e mais de 10 mil consultas, por enquanto é um “esqueleto” tomado pelo matagal e vítima frequente de pichadores. “Nossa, esse hospital melhoraria muita coisa. Seria bom para o público, para os comerciantes como eu, para todo mundo. E não só aqui, mas para gente dos bairros vizinhos, ou mesmo de Niterói e Itaboraí. É uma obra muito grande”, comentou o comerciante Reginaldo Bras, 41. Para a agente de saúde Renata Passos, 40, moradora do Galo Branco, já passou da hora de São Gonçalo ter uma maternidade administrada pelo Estado.
“A gente tem o Hospital da Mulher, as UPAs, mas a cidade é muito grande, a população só vem aumentando e não dá vazão. São Gonçalo precisa de um local de referência como existe o Hospital Azevedo Lima, em Niterói, onde as mulheres possam ter uma segurança, um conforto na hora de acompanhar a gestação, fazer o pré-natal”, explicou. Com uma filha de 14 anos, Renata revelou que, na época, recorreu a um hospital particular para realizar o parto, mas questiona: “E quem não tem condições? É um direito nosso”, completou.
A resposta para o abandono das obras é sempre a mesma: crise financeira. Em nota, a Empresa de Obras Públicas (Emop) informou que “o Governo do Estado espera que a assinatura do acordo de recuperação fiscal do Estado gere a entrada de novos recursos e promova o reequilíbrio fiscal, possibilitando assim, a médio prazo, recomeçar os projetos que hoje estão parados”.
RJ 100 - Iniciadas em março de 2014, as obras para revitalização e duplicação das pistas da RJ-100, que liga Barreto, em Niterói, à Rio do Ouro, só ficaram na promessa. Com apenas 30% concluídas, elas foram interrompidas também pela falta de recursos financeiros. A recuperação total da via estava orçada inicialmente em mais de R$ 16 milhões mas apenas 12% foi liberado para a empreiteira responsável. Sem nenhuma movimentação por parte do governo desde então, o Departamento de Estradas e Rodagens (DER-RJ) vêm realizando apenas obras paliativas com operações tapa-buraco e instalação de um semáforo próximo ao trevo de Maria Paula. “Por enquanto não há previsão para obras, devido a crise financeira”, diz a nota. Desde 2014, motoristas que precisam transitar diariamente pela rodovia colecionam prejuízos. Em alguns trechos, o trânsito precisa parar pois as crateras no asfalto tornam o fluxo contínuo inviável. Nas curvas, mais riscos. Ao tentar desviar de buracos ou mesmo do desnível da pista, motoristas se expõem a situações de acidentes iminentes.
Morador do Rio de Ouro, o comerciante Aldo Ribeiro, 59, é vítima constante do abandono da via. “O prejuízo nos carros é toda hora. O pneu de aro 32, vira 28, porque é tanto buraco que acaba empenando”, revelou.
Barcas e metrô ficaram no ‘papel’
Enquanto há obras abandonadas, outras nem mesmo chegaram a sair do papel. É o caso da construção de uma estação de barcas em São Gonçalo, outra promessa antiga. Inicialmente previsto para funcionar em uma área do Gradim e depois na Praia das Pedrinhas, o transporte que faria a linha São Gonçalo-Praça XV, só ficou nas palavras do ex-governador Sérgio Cabral, atualmente preso por corrupção, entre outros crimes. Pescador e morador da Praia das Pedrinhas, Alcides da Costa, 44, fala em hipóteses, já sem esperança. “Só podemos falar em ‘se’, ‘no caso de’, porque barcas aqui é uma promessa antiga. Melhoraria, e muito, a vida dos moradores, se saísse, se fizessem. Mas isso já foi dito, ‘redito’, mas até agora nada”, desabafou. Líder do movimento pela reivindicação da estação aquaviária, o vereador Armando Marins (PSDB), afirma que não irá desistir de tornar o projeto uma realidade. Para discutir a respeito, haverá uma nova audiência pública em maio. “Recurso financeiro não é problema, o que falta é mesmo um pouco de boa vontade do Executivo. Na época, houve concessão para o projeto, mas reformaram a estação Araribóia, construíram a estação de Charitas, e em São Gonçalo, nada”, contou, acrescentando que tal obra contribuiria também em outros setores como mobilidade e comércio.
Em situação semelhante, a Linha 3 do metrô que ligaria Itaboraí a Niterói, cortando São Gonçalo pela antiga linha férrea, também só ficou nas palavras. Desde 2013, moradores foram deslocados, casas demolidas, comerciantes receberam promessas, mas nada de fato aconteceu. “Sou morador daqui há 40 anos e desde quando prometeram obras dessa linha 3 só foram promessas mesmo. Muita gente saiu, ganhou apartamento, mas muita gente também ficou na mesma”, contou Manoel Ferreira de Souza, 58, do Bar da Estação, no Jardim Catarina. “Justificativas” - A Secretaria Estadual de Transportes informou que “uma nova concessionária do sistema aquaviário deverá apresentar, no prazo de um ano a contar da assinatura do contrato, estudos de viabilidade para a implantação de linha conectando a Praça XV a São Gonçalo, cabendo ao poder concedente discutir e validar tecnicamente a proposta apresentada. Em relação à Linha 3, o projeto está sendo avaliado, junto com demais linhas prioritárias para o Estado, no âmbito do Plano Diretor Metroviário, que deverá ser concluído no segundo semestre deste ano”.