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Depressão: vamos conversar?

relogio min de leitura | Redação 29 de janeiro de 2017 - 16:49
A professora Eliane de Oliveira, de 53 anos, tinha crises depressivas desde a década de 90 mas somente foi diagnosticada há quatro anos, desde quando iniciou o tratamento
A professora Eliane de Oliveira, de 53 anos, tinha crises depressivas desde a década de 90 mas somente foi diagnosticada há quatro anos, desde quando iniciou o tratamento -

Por Matheus Merlim

“Era uma mistura de sentimentos, um buraco de sofrimento e aflição. Eu acordava, olhava pela janela e pensava: tomara que chegue à noite para dormir”. Somente quem passa pela depressão, como a professora de Língua Portuguesa, Eliane de Oliveira, de 53 anos, consegue relatar a dor que a doença causa na saúde física e mental. A fim de reforçar a ideia de que existem formas de prevenção e tratamento desse transtorno, a Organização Mundial da Saúde (OMS) dedicou o ano de 2017 para alertar sobre as graves consequências que a doença pode gerar. Afinal, sete em cada grupo de100 pessoas sofrem da doença no mundo; no Brasil, são cinco proporcionalmente ao mesmo contingente.

Com o lema “Let’s Talk” (“Vamos conversar”, em português), a campanha tem por objetivo promover a conversa aberta sobre a depressão, entendendo que esse é o primeiro passo para compreender melhor o assunto e reduzir o estigma associado a ele. O Ministério da Saúde estima, com base na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013, que cerca de 14 milhões de brasileiros apresentam diagnóstico de transtornos e sofrimentos mentais.

Conforme a PNS, 7,6% das pessoas com mais de 18 anos receberam diagnóstico de depressão, por profissional de saúde mental, o que representa um total de 11 milhões de pessoas. As maiores concentrações de pacientes com depressão estão nas regiões Sul e Sudeste, respectivamente com 12,6% e 8,4%. Em escala global, a OMS estima que 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com esse transtorno.

A importância do tratamento e acompanhamento adequados

De acordo com o psicólogo Diogo Bonioli, do Instituto de Saúde Mental e do Comportamento (ISMC) de São Gonçalo, quando se trata de depressão é preciso diferenciá-la de tristeza e do luto. Para o especialista, tristeza e luto são vivências normais do ser humano, com uma durabilidade intensa, mas passageira e por motivo conhecido. Já a depressão é um estado melancólico do humor que causa estranheza por uma sensação que parece tristeza ou luto, mas sem ter um razão consciente. “Este estado se manifesta inicialmente pelo desinteresse, falta de motivação e apatia, desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas, além de diminuição da capacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis, queda da libido, dificuldade de concentração e memória, irritabilidade, pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade e fracasso.

Estes quadros podem progredir para o desejo de morrer, insônia e desenvolvimento de sintomas físicos”, explicou Bonioli. Apesar dos inúmeros sintomas que podem alertar para a depressão, geralmente, não há uma causa específica para o agravamento do quadro. É o que aconteceu com a professora Eliane de Oliveira, que tomou como pesadelo sua maior paixão: a sala de aula. Mesmo com históricos de crises depressivas desde os anos 90, só foi diagnosticada com a doença em 2012, quando iniciou o tratamento que continua até hoje. “Não houve uma única razão para a primeira crise.

Acho que desde a infância, meu corpo já vinha dando sinais. Sem má intenção, minha família acabou criando um horizonte, que eu me sentia na obrigação de ser a melhor no que eu fazia. Ou seja, eu achava que tinha que dar a melhor aula e trabalhar em muitas escolas. Eu nunca estive satisfeita comigo mesma. Até que o estopim foi um desentendimento com um aluno em sala de aula, porque ele não estava prestando atenção”, relembrou Eliane. Apesar do sofrimento, Eliane credita sua vitória na recuperação da doença às suas irmãs, que se revezavam para cuidar dela. Hoje, ela está readaptada no trabalho. Mãe de um menino de 12 anos, ela ainda mantém a rotina de terapias psicológicas, tratamento psiquiátrico e medicamentoso. “As pessoas têm muito preconceito com a doença e por falta de informação acabam passando pelo o que eu passei. É extremamente importante que nós falemos sobre a depressão e que, principalmente, deixemos em evidência que tem cura sim. Claro, respeitando os profissionais da saúde mental e tomando os remédios, que são necessários”, argumentou a professora.

Psicólogos instituem uma campanha de conscientização

Entendendo a importância de se conversar sobre a saúde mental, psicólogos do país inteiro se uniram para lutar por uma só causa: o “Janeiro Branco”. Assim como o famoso “Outubro Rosa” tem por objetivo alertar para prevenção e tratamento do câncer de mama, o primeiro mês do ano é um convite para reforçar a ideia de que é preciso manter sua saúde mental sempre saudável. Sobretudo, por trazer como carro-chefe o lema: “Quem Cuida da Mente, Cuida da Vida”.

De acordo com Diogo Bonioli, a depressão é uma doença silenciosa e com feridas que, frequentemente, só estão impressas no interior do sujeito. Por isso, alerta que a população precisa saber que as dores da depressão são reais, embora nem sempre fisicamente visíveis, e a partir disso, compreender que a depressão não é “frescura”, “falta do que fazer”, “falta de fé” ou “falta de força”.

“Em breve, a depressão será a doença que mais incapacita o ser humano moderno, pois afeta a forma do paciente se ver, de avaliar o mundo e a esperança do futuro. Quando sei que o paciente sofre de depressão, a primeira coisa que solicito é a presença da família durante o tratamento. O paciente com depressão não tem forças para reagir à doença, isso é próprio da doença. Sendo assim, a família é convocada para auxiliar nesta falta de reação do paciente, levando-o ao psiquiatra e ao psicoterapeuta”, explicou.

Apesar do estado de inércia que a doença coloca a pessoa, segundo o especialista, é muito importante frisar que depressão tem cura. E o tratamento dela é necessariamente realizado em nível químico e psicológico, isto é, envolve o médico e o psicólogo. 

“A medicação é importante no momento que a depressão incapacita ao paciente de realizar funções básicas do cotidiano, como comer, tomar banho ou dormir. E a psicoterapia trata das questões que originaram os sintomas e retiraram do paciente o sentido da sua própria vida. Por isso é importante evidenciar que o psicólogo não pode receitar remédios, porque não existem remédios para o que ele trata”, ressaltou Bonioli. 

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