Jovem pedala pela América Latina com biblioteca itinerante

Enviado Direto da Redação

Por Juliana Bittencourt


Com um chapéu de palha na cabeça e os olhos de quem almeja desvendar o mundo, o morador de Pendotiba, Lucas Garcia, de 28 anos, decide fazer algo ousado: Pedalar pela América Latina fazendo com que a literatura ultrapasse fronteiras.


Formado em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o jovem é o idealizador do projeto Cicloteca, uma biblioteca móvel inspirada no escritor Mario de Andrade, que durante a década de 30, quando era chefe do Departamento de Cultura, criou o projeto itinerante que rodava pelas praças de São Paulo fazendo empréstimos de livros a população. Com um triciclo amarelo e uma carroceria improvisada, surge em março de 2014 a Cicloteca, que posteriormente, em junho do mesmo ano, seria aprovada no edital interno da UFF, contando com uma melhor estrutura a fim de "ocupar as ruas da cidade de Niterói e contribuir para o incentivo de uma cidade para as pessoas" 


Desde os primeiros 'passos' de Teca - como é carinhosamente apelidada sua bicicleta -, Lucas tinha planejado sua viagem pela América Latina que foi adiada após ingressar no Mestrado em Cultura e Territorialidade da UFF. No entanto, em setembro de 2016, o rapaz iniciou sua jornada e deixou em Niterói tudo aquilo que o prendia à cidade, inclusive sua identidade. Sob o pseudônimo de Quincas Avelino - homenagem ao pai adotivo de sua avó paterna, uma grande contadora de histórias - o jovem começa seu percurso dando a volta pela Baixada Fluminense, contorna a Baía de Guanabara passa por Tanguá, Itaboraí, Magé e vai adiante com destino a Buenos Aires. "Escutar o mundo ao invés de ouvir o que os poderosos falam dele" é a grande experiência que Quincas quer levar consigo.


O rapaz viaja de cidade a cidade, sem um tostão no bolso e ao chegar em um novo lugar, busca através da gentileza dos moradores um prato de comida e um 'teto' para dormir, muito embora não tenha problema em pernoitar na rua.  Nessa vida andarilha, já improvisou moradas inusitadas, Quincas já dormiu em um presépio, na cidade de Itariri (SP) e  inclusive na redação do Jornal Folha de Babitonga, em São Francisco do Sul (SC).  Afirma que  "Viver a literatura de fato na rua é viver de improviso."


Durante a viagem, Quincas leva consigo fotos doadas por moradores que oferecem sua hospitalidade ao jovem, dessa forma passam a acompanhá-lo em todos os lugares do seu trajeto. É um forma de fazer com que ultrapassem fronteiras com ele e façam parte dessa experiência cosmopolita.  

Para Quincas, a viagem tem a função de desconstruir e construir fronteiras e torná-lo, através da literatura, um cidadão do mundo. Mais do que distribuir livros pela América Latina, o jovem quer formar laços inter-culturais, rompendo com ideais capitalistas e sem qualquer busca pela fama. Sua principal busca é um lugar literário para povo. "A literatura é o grande combustível que move a curiosidade do mundo.", disse.  


A ideia da doação é o que move a Cicloteca. Quando chega em uma nova cidade, Quincas busca estabelecer contato com bibliotecas ou pessoas que estejam interessadas em doar alguns livros. Para ele isso proporciona experiências muito positivas como da vez em que chegou em Ilha Grande sem nenhum livro, conseguiu encher a 'Teca' de doações e voltou para a estrada sem nada.


O andarilho busca fazer o exercício diário da leitura e da escrita. Através da plataforma https://medium.com/@quincasavelino, ele publica textos dotados de uma intensa sensibilidade sobre histórias, fatos e reflexões de sua viagem.


Dentre os clássicos que Quincas carrega consigo, nunca deixa para trás as obras de Manoel de Barros. Quando se depara com um companheiro andarilho ou/e em situação de rua, não deixa de ler para ele trechos do autor. Sua escolha tem haver com a desconstrução da escrita acadêmica utilizada pelo autor.


O jovem aventureiro ainda não saiu do Brasil, no momento (27) a Cicloteca marca presença na cidade de São Francisco do Sul. Quando ultrapassar sua primeira fronteira, Quincas quer entrar no Uruguai com o pé direito, enquanto isso passeia pelas cidades brasileiras enchendo sua bagagem com histórias, lições e experiências únicas.

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