‘Enxergando’ com o ouvido

Enviado Direto da Redação
Celso começou a fazer aulas de música ainda criança e ganhou uma sanfona, mas se apaixonou pela bateria quando adulto

Celso começou a fazer aulas de música ainda criança e ganhou uma sanfona, mas se apaixonou pela bateria quando adulto

Foto: Alex Ramos

Na batida da “batera”, o músico e deficiente visual Celso Pontes, de 68 anos, tira de suas baquetas a esperança de um mundo melhor. É no ritmo da vida que ele ajuda, gratuitamente, dezenas de jovens que veem na música um meio para progredir. O caminho artístico não é fácil, mas a universalidade da música consegue, segundo ele, transformar pessoas, lugares e vidas.

Portador de Retinose pigmentar (RP), de um grupo de doenças hereditárias que causam a degeneração da retina, região do fundo do olho humano, Celso perdeu a visão por completo aos 26 anos. Mas a música surgiu na sua vida quando ele ainda era criança. Na fazenda em que vivia em Aperibé, no Sul do Estado, foi com o tio, a quem ele chama de maestro Crispim, que ele aprendeu os primeiros sons. De presente, ele ganhou uma sanfona, mas ao logo do tempo, o instrumento deu lugar à bateria, que é hoje a paixão de Celso.

Formado pela Escola de Música Vila Lobos, foi na Velha Guarda que ele despontou para o trabalho na noite. Em 1982, ele se mudou para a França, retornando ao Brasil, em 2004. Mas foi em 2006, que ele viu que poderia fazer mais pelo próximo. Professor de um projeto Social de Manguinhos, ele ajudou a ingressar muitos jovens na música. No mesmo período, ele passou a dar aulas de iniciação musical para os jovens em sua casa, em Rio do Ouro, onde continua ainda nos dias de hoje. A deficiência nunca foi um problema para o professor. “Nós, músicos deficientes visuais, temos ouvido absoluto. As notas estão todas na minha cabeça e posso dizer que enxergo com meus ouvidos. O estudo da música requer muita disciplina”, disse. Celso conta que em todo o tempo dando aulas de maneira gratuita, nunca recebeu um aluno com deficiência. “Adoraria ensinar alunos com autismo ou qualquer outra deficiência. Gostaria de dar a eles a chance que recebi. Quando ingressei na escola de música, já não enxergava e recebi muito apoio. Então, por que não ajudar como eu fui ajudado?”, afirmou. Sucesso – Aos 10 anos, o baterista Raphael Souza, 25, começou a estudar bateria com Celso. De família de músicos, ele foi incentivado pelos parentes e foi um dos primeiros alunos. Hoje, Raphael toca com a banda Devir, que ficou em 5º lugar no programa Super Star, da Rede Globo.

“Desde pequeno era apaixonado por música. Quando conheci o Celso, ele ainda estava em transição entre Brasil e França. Toda vez que ele retornava, eu vinha aqui aprender. Ele é muito generoso e foi um prazer ser aluno dele. O Celso nunca cobrou nada para ensinar. Meu desejo é fazer como ele”, revelou Raphael, que toca também com a cantora francesa Valerie Lee.

Contato – As aulas de Celso acontecem, com hora marcada, duas vezes por semana e tem uma hora de duração. Quem desejar conhecer o projeto, pode ligar para 98770-0921.

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