Jovem lutador de São Gonçalo vende doces para competir no jiu-jitsu
Aos 19 anos, Andrey acumula títulos e busca apoio para viajar a São Paulo e disputar o ADCC em novembro

Morador da Covanca, em São Gonçalo, o jovem lutador de jiu-jitsu Andrey Silva de Alencar, de 19 anos, já coleciona medalhas e participações em competições importantes da modalidade no país. Há quatro anos competindo, o atleta acumula mais de 20 títulos, sendo campeão do ranking de 2025 do Mineirinho e conquistando o segundo lugar no AJP Guarapari, seu primeiro pódio fora do Rio de Janeiro.
Para continuar competindo, Andrey precisa encontrar maneiras de financiar a própria trajetória como atleta. Com a mãe, que prepara trufas e cones trufados, ele vende os doces pelas ruas para arrecadar dinheiro e combina as vendas com rifas quando precisa viajar para outros estados. O esforço já o levou a competições em São Paulo e no Espírito Santo, mas ainda não é suficiente para o próximo desafio. Em novembro, ele pretende viajar sozinho para São Paulo para disputar o ADCC e busca apoio para conseguir competir em duas categorias.
Leia também:
Tio de Guilherme Boulos morre após ser atropelado durante briga de trânsito
Mendonça dá 24h para remoção de posts sobre Lula e bandeira do Brasil
Para Andrey, o torneio representa uma oportunidade de enfrentar um desafio diferente dos torneios tradicionais de jiu-jitsu. O ADCC é uma competição de grappling realizada sem kimono, reunindo atletas de diferentes estilos de luta agarrada. Andrey pretende disputar tanto na sua categoria, como faixa roxa, quanto na divisão avançada, onde enfrentará atletas das faixas marrom e preta. Para ele, um bom resultado em São Paulo pode representar mais do que uma medalha.
"É um dos maiores eventos de luta agarrada do mundo", afirma Andrey. "Sendo um dos maiores eventos do mundo, eu pegando o pódio nele, possivelmente pode abrir muito mais portas para patrocínio."
A relação de Andrey com o jiu-jitsu começou na infância, aos cinco anos, quando ele foi levado para treinar por um conhecido do pai e recebeu de uma academia o primeiro kimono que usou.
A dificuldade financeira, porém, acompanhou a trajetória desde cedo. De acordo com Andrey, as mensalidades das academias que frequentava variavam entre R$ 100 e R$ 150 e podiam aumentar com o passar do tempo. Sem condições de manter os pagamentos, ele precisou deixar equipes e procurar alternativas para continuar treinando.
Foi assim que, em 2022, encontrou o Instituto Vencedores em Cristo. No polo da Arena Venda da Cruz, em São Gonçalo, encontrou um projeto social gratuito e passou a treinar sob orientação do professor Marcos Barros.
Foi também em 2022 que Andrey disputou a primeira competição.

A primeira competição
A estreia aconteceu no Campeonato Brasileiro, realizado em Deodoro, no Rio de Janeiro. O professor queria incentivar os atletas do projeto a competirem e para viabilizar esse objetivo criou uma rifa. Para que desse certo, ele estipulou que quem conseguisse vender entre 10 e 15 números ganharia uma vaga para disputar o campeonato.
“Eu fiz o possível, me virei nos 50, tirei até um pouco de dinheiro do meu bolso, não muito, acho que foi 50, 60 reais, para conseguir comprar os números que faltavam para bater a meta.” disse Andrey.
Naquele momento, ele ainda não tinha dimensão do tamanho da competição. Acostumado com torneios em São Gonçalo e Niterói, encontrou em Deodoro uma estrutura maior e atletas de diferentes lugares.
Antes de competir, ouviu o seguinte de seu professor:
“Andrey, se você quer ser isso aí, se você quer ser atleta, você vai ter que passar por esse sufoco. Passar rifa, vender doce, se virar nos 50, para a gente conseguir bater as metas e conseguir ir para grandes competições.”
Depois de cerca de três lutas, veio o terceiro lugar na competição.
A primeira medalha teve um significado maior do que o resultado. Andrey se emocionou ao perceber que havia alcançado algo que antes acompanhava apenas pela internet, vendo outros atletas com medalhas e troféus.
“Falei, agora estamos na primeira, mas logo mais vai vir mais” relembrou Andrey.
Hoje, ele conquistou aproximadamente 25 medalhas e também guarda o troféu de campeão do ranking de 2025 do Mineirinho.

Os doces se tornaram parte da sua carreira
A necessidade de encontrar dinheiro para competir não desapareceu depois da primeira medalha. Pelo contrário. Com o passar dos anos, Andrey encontrou nas vendas uma maneira de transformar o próprio esforço em viagens e inscrições.
A mãe é quem prepara os doces. Ele fica responsável pela venda.
Trufas e cones trufados passaram a fazer parte da rotina do atleta. Para competições dentro do Estado do Rio, as vendas ajudam a levantar o dinheiro necessário. Quando o campeonato é fora do estado, ele combina os doces com rifas para tentar alcançar valores maiores.
Andrey não tinha experiência com vendas quando começou. Conversou com colegas que já trabalhavam com isso e aprendeu a calcular custos e margem de lucro. A parte mais difícil, porém, não estava na matemática.
“A parte mais difícil, foi falar com os clientes. Eu não tenho tanta vergonha de conversar com outras pessoas que eu não conheço, mas a parte mais difícil foi criar um texto para começar a vender” afirmou Andrey.
Na rua, ele precisava lidar com pessoas de diferentes idades e adaptar a forma de abordar cada uma. Uma conversa com um adolescente não poderia ser igual à abordagem feita com uma pessoa mais velha.
A experiência acabou ajudando o lutador a desenvolver uma habilidade que hoje considera importante também fora das vendas. Ele passou a ter mais facilidade para conversar com desconhecidos e a encontrar diferentes maneiras de apresentar os doces.
Foi com esse trabalho que Andrey conseguiu financiar algumas das principais competições de sua trajetória.

De São Gonçalo para o Brasil
As vendas e rifas ajudaram o atleta a viajar duas vezes para São Paulo para disputar o Campeonato Brasileiro. Também possibilitaram a viagem para Guarapari, no Espírito Santo, onde conquistou o segundo lugar no AJP Guarapari.
O pódio fora do Rio de Janeiro se tornou uma das lembranças mais marcantes da carreira.
Mais do que o segundo lugar, Andrey considera importante ter conseguido apresentar o desempenho que esperava de si mesmo em uma competição longe de casa.
"Quando eu peguei esse segundo lugar lá, eu subi no pódio chorando", lembra.
As experiências em São Paulo foram diferentes. Nas duas participações no Campeonato Brasileiro, Andrey encontrou chaves com cerca de 120 atletas. Em uma competição desse tamanho, uma derrota pode significar a eliminação logo no início.
Foi o que aconteceu nas duas tentativas. Ele não chegou ao pódio, mas não pretende desistir.
"Vou continuar tentando até chegar perto dessa medalha aí", afirma.

Custos para continuar competindo
A conta para disputar uma competição fora do estado vai muito além do valor da inscrição.
Segundo Andrey, uma viagem para São Paulo pode custar aproximadamente R$ 1.300 a R$ 1.500, considerando despesas com competição, transporte e alimentação. O atleta permanece cerca de dois ou três dias fora de casa e precisa levantar o dinheiro antes de cada viagem.
Para quem financia parte da própria carreira com a venda de doces, cada competição representa uma nova corrida contra o tempo.
ADCC, em novembro
Andrey pretende deixar São Gonçalo no dia 6 de novembro e seguir para São Paulo. No dia seguinte, fará a pesagem e os preparativos para a competição, marcada para o dia 8. Desta vez, ele fará a viagem sozinho.
O desafio também será diferente do que o atleta está acostumado a enfrentar nos torneios tradicionais de jiu-jitsu. Sem o kimono, a competição reúne atletas de diferentes modalidades de luta agarrada, o que amplia o perfil dos adversários que podem aparecer no caminho.
"Vai juntar a galera da luta livre, a galera do jiu-jitsu sem kimono, até do próprio wrestling", explica Andrey. "Por isso que fala que é um evento de luta agarrada, não no-gi, que é o que vem do jiu-jitsu."
Além da diferença no formato, Andrey pretende aumentar ainda mais o desafio. A ideia é disputar duas categorias. Na primeira, enfrentará atletas de faixa roxa, graduação que se encontra. Na divisão avançada, poderá encarar competidores das faixas marrom e preta.
A escolha, no entanto, depende do dinheiro disponível. Cada inscrição custa R$ 280 e, para disputar as duas categorias, o investimento passa de R$ 500.
"Se a gente conseguir um apoio, alguma coisa assim, a gente consegue lutar nas duas categorias e, se possível, se Deus quiser, conseguir as duas medalhas de ouro", afirma.
Caso o valor não seja alcançado, Andrey terá de escolher entre competir na própria categoria ou aceitar o desafio da divisão avançada.
O objetivo, independentemente da categoria, continua sendo o mesmo.
"Sempre [mirar o ouro]. Todo evento", diz. "Independente que o objetivo não seja concluído, a gente vai dar o nosso melhor todo tempo."

Uma medalha que pode abrir portas
O significado de um pódio no ADCC pode ir além de um resultado esportivo. Andrey já conta com o apoio da Selecom e da Gold, academia de musculação. Ainda assim, busca novos parceiros para conseguir disputar competições fora do Rio de Janeiro.
“Eu tendo uma medalha de peso como essa, facilita um pouco mais em relação a patrocínios, apoios e tudo mais”, afirma.
Para quem pensa em ajudar, Andrey faz questão de mostrar como os recursos são utilizados. Ele publica nas redes sociais os treinos, as competições e os resultados, além de registrar o trabalho com a venda dos doces.
“Vocês não estão ajudando uma pessoa que vai pegar o seu dinheiro e não vai te mostrar com o que está gastando… Eu estou ali mostrando para você. Eu sou atleta. Inclusive, eu vendo meus doces com as minhas medalhas, para a galera saber realmente que eu sou atleta.”
Aos 19 anos, ele segue dividindo a rotina entre os treinos, as competições e a venda dos doces. “Se você quiser ajudar, você vai saber que você está ajudando um atleta, uma pessoa que está buscando realmente ser profissional no que está fazendo, está buscando um sonho.”
Serviço:
Você pode acompanhar o jovem lutador, Andrey, através do seu Instagram:
Caso queira contribuir financeira com o atleta, sua chave PIX é a seguinte:
a8493c6b-7a9c-4bb2-999e-55416718fa76