Psicologia em Diáspora: espaço em São Gonçalo é pioneiro no atendimento focado na saúde mental racializada e intercultural
A proposta nasce para romper com os modelos tradicionais da psicologia

Depois da faculdade, a expectativa é entrar no mercado e seguir um plano de carreira. Foi o que Tainara Cardoso Nascimento fez. Formada em Psicologia pela UFF, conseguiu uma vaga em uma unidade hospitalar e estava finalmente exercendo a profissão que escolheu.
Parecia que tinha dado tudo certo. Até perceber que não. Enquanto atendia, era constantemente confundida com a auxiliar de limpeza ou com a cozinheira. A cena, que se repetia, acendeu um alerta sobre como corpos negros são lidos quando ocupam espaços de poder.
"As pessoas chegam aqui e a primeira leitura que fazem de uma pessoa como eu não é que eu sou psicóloga, muito menos que estou no processo de doutoramento. Já pude ouvir: 'Você nem tem cara de psicólogo'. O que é ter cara de psicólogo?", questiona.
Foi a partir desse incômodo e da necessidade de construir um cuidado que acolhesse a dor sem diminuir ou invisibilizar, que ela decidiu abrir o próprio consultório.
Hoje aos 32 anos, nascida e criada no Complexo da Chumbada, em São Gonçalo, Tainara é mestre, doutoranda e está à frente da Psicologia em Diáspora, a primeira clínica racializada de São Gonçalo, no Alcântara. O espaço funciona em parceria com a psicóloga e instrutora, Ana Carolina Cruz.
A proposta nasce para romper com os modelos tradicionais da psicologia. A ideia é o que Tainara chama de "clínica aterrada", um atendimento com os pés fincados na realidade social, histórica e no território de onde o paciente vem.
"A gente sabe que o ponto de partida não é a mesma coisa. Para quem vem de favela, para quem é pobre, para quem é preto, tem gente que sai do zero, mas tem gente que sai do menos cem. Isso tem efeitos. Uma pergunta que eu sempre faço aos pacientes é: o que a sua cor tem a ver com a sua dor?", afirma.

Na prática, esse olhar muda o manejo. Sintomas que chegam ao consultório como quadros de ansiedade severa ou isolamento, muitas vezes, são respostas diretas à violência do racismo estrutural. Sem essa escuta, o risco é que o sofrimento seja rapidamente diagnosticado e medicado, sem que a história daquela pessoa seja realmente ouvida.
Além da questão racial, o conceito de Psicologia em Diáspora inclui a Psicologia Intercultural, voltada para quem vive o processo migratório. A clínica atende inclusive pacientes negros que moram fora do país, e enfrentam o desgaste do preconceito longe de casa.
O espaço atende a todas as idades. Em oito anos, Tainara já acompanhou cerca de 350 pacientes, com foco grande em crianças e adolescentes. E o atendimento com eles é diferente.
"A principal metodologia com a criança é brincar. O brincar é uma tecnologia muito importante pro cuidado. A criança não vai ter a elaboração de um adulto para dizer o que está sentindo. Se isso não é escutado com cuidado, facilmente a criança é medicalizada ou rotulada como tímida ou 'problema', sem que se entenda o ambiente de violência ou discriminação onde ela vive", explica.
Entre o público jovem e adulto, quem mais procura são mulheres negras e pessoas que querem um lugar onde não precisem ficar justificando ou provando o racismo que sofreram.

Apesar de atender pacientes de Niterói, Maricá, Itaboraí, e até de outros estados no online, manter a clínica em Alcântara é uma escolha.
"É muito comum que as pessoas, quando têm algum tipo de ascensão social, decidam sair daqui e ir para Niterói ou Zona Sul do Rio. Na nossa teoria, ascensão social é ter para onde voltar. Por isso, nunca decidimos sair de São Gonçalo. É uma decisão política permanecer aqui e mostrar que a cidade também produz vida, memória e cuidado."
Para os próximos anos, a meta é expandir e transformar a Psicologia em Diáspora em um polo de formação e supervisão clínica, para que outros profissionais possam replicar em mais territórios. A clínica é particular e fica localizada na Estrada Raul Veiga n° 500 sala 518, Alcântara, São Gonçalo.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca