O desafio de cursar uma universidade

Por Marcela Freitas, Cyntia Fonseca e Laryssa Moura
Pesquisa realizada pelo "Quero Bolsa", site que reúne mais de 500 instituições de ensino superior em todo o Brasil, mostrou que 65% dos alunos desistem de cursar uma faculdade por motivos financeiros. A quem consiga, no entanto, superar os desafios econômicos. Este é o caso do estudante de Odontologia da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), Isaias Soares da Silva Carneiro, de 19 anos, que trabalha nas ruas de São Gonçalo e Niterói vendendo empadão e torta de banana para complementar os custos de material didático da sua graduação.
A ideia da venda partiu de sua mãe, a também universitária Laudimea Soares da Silva, de 52, estudante de Serviço Social. Vendo que não estava conseguindo custear as passagens dela e do filho até as universidades em Niterói e nem o material didático, Laudimeia começou a produzir os quitutes, trazendo um alento ao jovem que temia ter que abandonar os estudos.
“Um dia estava estudando para a prova e, dentro de um livro, havia um caderno de receitas. Senti que deveria abrir o livro e vi a receita de empadão. Perguntei ao Isaias se ele venderia caso eu produzisse. Ele topou na hora. Então peguei o cartão emprestado da minha filha, comprei o material e, junto com o meu marido, começamos a produzir. No começo, ele vendia apenas na sala de aula, mas depois passou a vender em outros locais. E é graças a este trabalho que estamos conseguindo pagar as passagens e o material”, contou.
As mensalidades da faculdade de Isaias são custeadas através do Fundo de Financiamento Estudantil do Ensino Superior (Fies) e as de sua mãe por um programa de bolsa de estudos na universidade. Ela, que retomou os estudos em 2003, sonha com o diploma universitário.
Já Isaias, que está no 4º período, disse que a profissão surgiu como uma resposta para seus questionamentos.
“Pensava em fazer Medicina, mas temia tentar por muito tempo e não conseguir. Conquistei uma bolsa de 100% do Prouni para estudar Fisioterapia. Mas um dia pedi a Deus que me mostrasse o caminho certo e para onde eu olhava via placas de Odontologia, curso que também estava em meus planos. Foi aí que tomei a decisão mais acertada da minha vida”, contou.
Aluno exemplar, Isaias diz que nunca teve vergonha de vender. Ele inclusive, precisa levantar a quantia de R$ 5,5 mil para comprar os materiais para o próximo semestre. E está correndo contra o tempo para vender os quitutes de sua mãe, já que a família vive apenas da renda do pai Reginaldo Cunha Carneiro, 54, ex-carpinteiro do Comperj que está em auxílio-doença por um problema na coluna causado por um acidente de trabalho.
“Não tenho tempo para ter vergonha. No próximo semestre, meu curso será integral, e o material é caro. Não sei como farei para pagar. Estou aproveitando as férias para vender bastante empadão”, disse com largo sorriso.
Isaias sonha grande e, no futuro, espera poder custear também a faculdade de Medicina.
“Os cursos na área médica são caros. Depois de formado e trabalhando, eu posso ter a chance de resgatar esse sonho, sem deixar a Odontologia que também me realiza como profissional”, contou.
Quem quiser provar os quitutes produzidos pela mãe de Isaias, pode ligar para 2736-5213, 9 9519-9357 ou 9 6763-6625. O empadão salgado custa R$ 6; e a empada doce, R$ 3.
Advogada também superou dificuldades para se formar
Barreiras impostas por dificuldades financeiras também foi um problema enfrentado - e superado - pela advogada Francyele Pinto Faria, de 31 anos. De origem humilde, a moradora do bairro Porto da Pedra, em São Gonçalo, não viu outra maneira de mudar o próprio destino e de sua família a não ser ingressando no ensino superior. "Escolhi o Direito por ser um curso que faz a pessoa refletir como ser humano, como cidadão. Ter conhecimento legal do que pode ser feito para contribuir para a sociedade e poder lutar pelos direito dos que vivem à margem dela. Sei que através do meu trabalho traria esperança a vidas", conta Francyele, que concluiu o curso em cinco anos, na Universidade Salgado de Oliveira (Universo), no Campus São Gonçalo.
É claro que nem tudo "foram flores" durante o curso. Desempregada do terceiro ao quinto período e tendo que arcar com despesas para mensalidade, material didático e condução, de forma semelhante à Isaias, ela contou com apoio e trabalho da mãe, que produzia quentinhas, para se manter na universidade. "Antes eu trabalhava numa loja de material de construção. Mas do terceiro ao quinto semestre, fiquei desempregada, com isso comecei a vender quentinhas. Somente no fim do quinto período consegui trabalho em um escritório de advocacia em Alcântara", resume a advogada.
Como forma de gratidão aos familiares e amigos que a apioaram principalmente durante os momentos mais críticos do curso, Francyele se desdobra como pode entre atendimentos, audiências e diligências.
"Houve uma má interpretação certa vez quando me perguntaram se tinha como conciliar o Direito como trabalho social. Respondi que sim, pois costumo participar de alguns projetos sociais e em alguns casos, no escritório, atuo de maneira gratuita, dando o mesmo atendimento e atenção como se a pessoa estivesse pagando meus honorários, mas cada caso é um caso. Há uma avaliação. Trabalho com horário marcado, todo atendimento deve ser agendado pelo telefone, pois não acho justo a pessoa chegar no escritório e não me encontrar", completa.
E para aqueles que pensam em desistir no meio do caminho ou não conseguem nem começar, um recado: "Para vencer na vida é preciso ter meta. Quem retroage os seus sonhos, geralmente, se torna uma pessoa frustrada. E, às vezes, faltava tão pouco para ter seu projeto ou sonho alcançado, e com isso se torna uma pessoa agressiva ou vítima de tudo e todos, mas esquece que só está onde ela mesma se colocou", aconselha Francyele.
Casos como o de Isaías e Francyele não são isolados. Estudo recentemente divulgado pelo site Quero Bolsa revela que 65% dos alunos desistem de cursar o Ensino Superior por motivos financeiros. Destes, 34% podem pagar menos de 70% do valor integral das mensalidades.
De acordo com Pedro Paulo Balerine, gerente de Inteligência de Mercado do Quero Bolsa, entre os outros motivos estão disponibilidade de tempo, mudança de endereço ou falta de adaptação ao curso.
"Entre os cursos mais caros e com maior taxa de evasão podemos encontrar Medicina, Odontologia e as engenharias. Os cursos de ensino à distância, assim como os presenciais tecnólogos e licenciaturas, também figuram com índices elevados de evasão", esclarece, acrescentando que os dados levam em conta a atual crise econômica como fator de influência para a desistência dos graduandos.