‘Herança’ da Chikungunya

Por Matheus Merlim
A maioria dos estudos divulgados até agora sobre as três doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti (Dengue, Zika e Febre Chikungunya) ficaram restritos apenas aos sintomas e a cura delas. O que não se esperava é que, passado o período de manifestação dos casos, pacientes que foram infectados com os vírus fossem sentir alguma consequência crônica. Atualmente, muitas pessoas relatam quadros de artrite crônica, com dores contínuas nas articulações após terem contraído as doenças.
A professora Maria da Glória Merlim, de 64 anos, é um exemplo. Há cerca de três meses, ela foi afetada pela Febre Chikungunya, que tem como principal característica atingir as articulações, causando dores e inchaços. Mesmo aparentemente curada do vírus, ela continua sentindo dores nas extremidades do corpo, como tornozelos, falange dos dedos e no joelho.
“De vez em quando amanheço com muitas dores. Não é como incômodo muscular, dói internamente. Se eu ficar deitada, sem mexer as articulações, a dor diminui. Mas normalmente é insuportável”, relata a professora, moradora do Coelho, em São Gonçalo. De acordo com o infectologista Edimilson Migowski, presidente do Instituto Vital Brazil, há um estudo que aponta que entre 5 e 6% dos pacientes que tiveram a Febre Chikungunya desenvolvem problemas crônicos nas articulações. “O vírus Chikungunya tem uma particularidade, entre as outras doenças, que é de atingir mais a articulação. Cerca de 5% dos pacientes podem desenvolver a chamada erosão da cartilagem, que é um problema crônico. É como se houvesse o envelhecimento das articulações”, explica. Ainda segundo Migowski, esse quadro consequente do vírus transmitido pelo Aedes Aegypti pode aparecer em pessoas de diferentes idades, não necessariamente em idosos. “Se pudéssemos apontar a consequência mais grave de cada doença, poderíamos dizer que a do Zika vírus é a microcefalia; da Dengue, a letalidade; e da Febre Chikungunya, os problemas nas articulações, que podem durar meses ou anos”, descreve.