Estudos para nova santa
Padre de Niterói coordena processo de beatificação de Odetinha, que morreu há 76 anos

Por Marcela Freitas
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, (IBGE) em 2010, 45,8% da população do Rio de janeiro se declarava católico. Apesar do grande número de fiéis, o estado não tem nenhum santo carioca. Mas essa questão parece estar bem próxima de ser resolvida. Em janeiro deste ano, o Vaticano aprovou para estudo a beatificação de Odette Vital de Oliveira, a Odetinha, que morreu aos 9 anos, vítima de febre paratifoide – agravada por meningite. A menina que nasceu em Madureira, na Zona Norte do Rio, é aclamada pelo povo como santa e pode se considerada beata em breve, e este é um importante passo para sua canonização. Todo o processo de pesquisa sobre a vida e virtudes de Odetinha foi fruto do trabalho do padre gonçalense de coração, João Cláudio Loureiro do Nascimento, que há 11 anos é pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Niterói.
Nascido em Niterói, padre João Cláudio, de 41 anos, foi criado no bairro do Rocha, em São Gonçalo, onde morou até ingressar no seminário aos 17 anos. Gonçalense de coração, como ele mesmo se descreve, o padre foi nomeado presidente da comissão histórica do processo de beatificação de Odetinha.
O convite partiu de dom Roberto Lopes, delegado para a Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio. “Estudei toda a minha teologia no Rio e lá conheci dom Roberto. Confesso que antes do convite não havia ouvido falar de Odetinha, apesar do forte apelo popular que girava em torno dela. Acredito que, até por isso, tenha sido escolhido já que era uma pessoa ‘ neutra’ e também de outra arquidiocese”, contou.
Mestrando em Teologia e Direito Canônico e finalizando o curso de História, Padre João Cláudio conta que começou o trabalho em 22 de dezembro de 2011. Em 2014, todo o relatório sobre Odetinha foi enviado ao Vaticano, e este ano foi aceito para estudo. “A fase diocesana no Rio de Janeiro foi aprovada e já começou a tramitar no Vaticano. Não temos como estimar o tempo que levará para o estudo do processo, já que o Vaticano é muito rigoroso e criterioso. Mas por se tratar de uma criança, acredito que não vá demorar muito. Odetinha tinha apenas 9 anos quando morreu”, pontuou.
O padre explicou ainda que existe uma escala para a santidade de Odetinha. “A beatificação analisa a vida e as virtudes dela, além de um milagre que foi feito por Deus através de sua intercessão. Beata é a candidata à santidade que tem suas virtudes heroicas, reconhecidas pela Igreja. Pessoa que passou por profunda conversão ao Evangelho e fez da sua vida um exemplo de virtudes. Após a beatificação, a Igreja permite um culto a sua pessoa. Ela pode ser colocada nos altares da igreja e pode ter um dia para sua celebração”, detalhou. Ainda de acordo com o religioso, existem outras etapas. “Para canonização, precisa ter um segundo milagre, reconhecido e aprovado.
O Papa pode, no entanto, dispensá-lo. O Vaticano é rigoroso, e os médicos que avaliam são ateus ou de outras religiões. Isso é fundamental para que não haja influência religiosa.”, afirmou. O padre, que garante ter se tornado uma pessoa mais caridosa ao conhecer a fundo a história de Odetinha, lançará no final deste ano um livro sobre a “carioquinha celeste”, como é chamada carinhosamente. “Vou reescrever e atualizar o livro do padre Afonso Maria Germe, que é da década de 30. Em nossa pesquisa, descobrimos novas histórias, como a do pai e irmãos dela que não se tinha relato. Estamos em busca de editora, mas acredito que até o final deste ano consigamos publicá-lo”, disse.
Padre há 17 anos, João Cláudio já atuou na Igreja São João Batista, no centro de Niterói; Nossa Senhora de Fátima, em Manilha, Itaboraí; Nossa Senhora da Conceição, em Santa Isabel, São Gonçalo; Nossa Senhora da Conceição, na Ilha da Conceição; São João Batista de La Salle, Itaipu e está há 11 anos na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, no bairro de mesmo nome em Niterói. Com o fim do trabalho sobre Odetinha, o padre já começa a preparar um novo estudo sobre a vida e virtudes do padre José Melchiore, de Guaratiba, no Rio.
Outros - O Brasil tem seis santos brasileiros. São eles: São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho (mártires do Rio Grande do Sul); Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus (Madre Paulina nasceu na Itália); Santo Antônio de Sant’Ana Galvão (Frei Galvão, nascido no Brasil); São José de Anchieta (nascido em Portugal). Todos se tornaram brasileiros em sua nacionalidade.
Menina milagreira só viveu nove anos
Odete Vidal Cardoso nasceu no dia 15 de setembro de 1930 no bairro de Madureira, fiilha de Alice Jesus Vidal e Augusto Ferreira Cardoso, que morreu de tuberculose. Após o falecimento de seu pai, teve em Francisco Rodrigues Oliveira como pai e responsável. Empresário de carnes, ele garantiu um elevado padrão de vida à família.
Aos 9 anos, a vida da menina foi interrompida pela doença. Foram 49 dias de sofrimento na cama, interrompidos pela morte, em 25 de novembro de 1939. No leito de morte dizia” Eu vos ofereço, ó meu Jesus, todos os meus sofrimentos pelas missões e pelas crianças pobres”.
Apesar da origem rica, Odetinha sempre foi muito caridosa e costumava doar seus pertences aos pobres e, servia junto com sua mãe, feijoada aos sábados aos moradores de rua.
Enterrada no Cemitério São João Batista, hoje o túmulo de Odetinha encontra-se na Basílica da Imaculada Conceição, em Botafogo. Mas de 50 mil pessoas já visitaram o túmulo de Odetinha para agradecer pelas graças ou pedir sua intercessão.
Mais um futuro santo à vista
Além de Odetinha, o Rio de Janeiro pode ter um santo. O médico, surfista, seminarista Guido Schaffeer. Guido ofereceu sua medicina aos pobres assistidos pelas Irmãs Missionárias da Caridade e, muito especialmente após a leitura do livro “O Irmão de Assis”, decidiu largar tudo para seguir o chamado ao sacerdócio.
Morreu aos 34 anos, no dia 1 de maio de 2009. Sua fama de santidade logo se espalhou e, em 17 de janeiro de 2015, a Arquidiocese do Rio de Janeiro abriu solenemente seu processo de beatificação.
Outro candidato - Todos os dias de finados, o Cemitério do Maruí, no Barreto, em Niterói, recebe um grande número de pessoas em busca de graças. As visitas são destinadas ao túmulo do menino Paulo César de Souza Medina, o Paulinho Milagreiro, que morreu afogado aos 8 anos, na Lagoa de Piratininga.
Desde sua morte, em 1972 , muitos milagres foram atribuídos a Paulinho. Durante o feriado de finados, os devotos depositam brinquedos, na maioria carrinhos, no túmulo do garoto, na esperança de terem seus pedidos atendidos. Os pais de Paulinho recolhem os brinquedos e doam a instituições de caridade.
Oração em louvor à Odetinha
“Ó querido Jesus, que escolhestes as criancinhas, curando-as e as abençoando, demonstrando particular predileção por elas, revelando, assim, o Reino de Deus aos menos favorecidos, aos simples e aos humildes. Olhai com carinho nosso pedido, (...) pela intercessão da Serva de Deus Odete Vidal de Oliveira (Odetinha), e se for para Vossa maior glória, que ela seja elevada às honras dos altares. Amém.
O padre João Cláudio contou que já ouviu falar da fama de Paulinho. Segundo ele, para que seja feito um estudo sobre a vida, milagres e virtudes é preciso primeiro do clamor popular e, um segundo passo, é a criação de uma associação, por um grupo de fiéis devotos, que possa dar suporte aos estudos técnico e financeiro.