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A arte através do olhar de quem tem tato e coração

relogio min de leitura | Redação 10 de abril de 2016 - 21:01
A exposição “Unindo a Visão”, com esculturas em três dimensões (3D) usando argila, é composta por obras feitas, em sua maioria, por deficientes visuais
A exposição “Unindo a Visão”, com esculturas em três dimensões (3D) usando argila, é composta por obras feitas, em sua maioria, por deficientes visuais -

Por Cyntia Fonseca e Matheus Merlim

A falta de um dos sentidos não é, nem nunca foi, um obstáculo para a arte. Até porque os movimentos culturais transcendem qualquer impedimento físico. Prova disso é um grupo de deficientes visuais de São Gonçalo que desenvolveu a exposição “Unindo a Visão”, com esculturas em três dimensões (3D) usando argila. Os trabalhos estão disponíveis para visitação no Centro de Apoio ao Deficiente Visual de São Gonçalo (Cadevisg), no Porto Velho, onde eles aprenderam a trabalhar com a cerâmica.

Para a professora da oficina e vice-presidente da instituição, Nilza Martins, de 58 anos, que também é deficiente visual, o mais importante é tentar resgatar as lembranças dos alunos, pois a maioria perdeu a visão com o tempo. “A gente deixou a ideia livre para eles criarem. Meu trabalho como professora é somente dar o primeiro impulso. Um dos alunos queria esculpir uma estrela do mar em argila, mas não lembrava como era o formato de uma. É nisso que trabalhamos, no resgate máximo da memória deles. Para ajudá-lo, fiz três formatos de estrela e pedi que ele escolhesse qual remetia a imagem que tinha na cabeça. Ele escolheu exatamente a estrela do mar”, declara. A exposição foi inaugurada no dia 1º de abril com a Galeria de Arte João Carlos Lemos, que recebe o nome do fundador da Cadevisg. O curador da mostra é o professor Robson Martins, de 64 anos. Para compor a atividade, ele trouxe obras de outros artistas gonçalenses. A data de inauguração, inclusive, foi de propósito. “As pessoas podem até pensar que parece mentira ter uma exposição feita somente por cegos. Mas nós conseguimos”, brincou. As visitas são abertas, de segunda à sexta, das 8h às 17h. A Cadevisg fica na Travessa Antônio Bessa, 14, no Porto Velho, em São Gonçalo. As obras apresentadas foram trabalhadas em três dimensões, com alto-relevo, baixo-relevo e imagens vazadas.

Oficina - As aulas de trabalho com cerâmica são realizadas às quintas, em dois horários. Os deficientes visuais que participam da oficina são mediados pelo Centro de Referência da Assistência Social (Cras).

Sem limitações para a vontade de criar

Exemplo de superação e talento, Wenderson Sales Rangel, de 22 anos, está concluindo os estudos do ensino médio e tem um sonho como tantos outros “aspirantes à adultos”: tornar sua arte conhecida na região, quem sabe nacionalmente?

Morador de Itaboraí, Wenderson foi diagnosticado com distrofia muscular de Duchenne (doença degenerativa que causa o atrofiamento dos músculos) aos cinco anos e aos oito parou de andar. Aos 12, duas paradas cardiorrespiratórias o levaram à necessidade de utilizar um aparelho respiratório 24h por dia. Com apoio da família e de uma professora continuou os estudos durante todo o tempo em que esteve internado - três anos e meio - até que conseguiu, através da Justiça, continuar o tratamento em casa, com uma equipe de enfermagem que se reveza. 

Mas, contrariando qualquer possibilidade, Wenderson, utilizando apenas o indicador da mão direita, faz verdadeiras obras de arte no computador. Traços precisos dão forma à paisagens, figuras humanas realistas e logotipos. São mais de 50 desenhos gráficos, vários deles que já se tornaram estampas de camisas ou banners para exposições.

“Ele desenha desde pequeno, sempre foi talentoso. Não aceita de jeito nenhum que vai ficar sem andar”, conta, emocionada, Maria de Fátima Seixas, 58, mãe de Wenderson.

Wenderson tem planos de iniciar uma faculdade e está em dúvida entre Design Gráfico ou Medicina.

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