Reportagem: a importância da representatividade negra na vida de crianças das próximas gerações
Veja como a ex-bbb Natália Deodato e o super-herói Pantera Negra mudam as formas como os pequenos se veem

‘’Com nove anos iniciou uma manchinha bem pequenininha no olho, descobri depois de um ano e meio que era realmente vitiligo. Eu tinha vergonha, tampava, até eu conseguir entender o que é e me respeitar dessa forma. Gosto de ter a liderança e o poder." Foi com essas palavras que a ex- bbb Natalia Deodato se apresentou ao público que acompanhava o reality show Big Brother Brasil, em 2022. Foi também dessa forma que milhares de pessoas, entre elas adultos, idosas e crianças, deram um passo para aceitação daquilo que era o principal empecilho para se olharem no espelho e gostarem da imagem refletida. Uma dessas pessoas, tem nome, a idade de 10 anos, a pontinha do nariz colorida por um pigmento branco e um sorriso que carrega toda delicadeza e força imagináveis: Rhiana Nunes Moraes da Silva.
Aos oito anos, a gonçalense que vive com sua mãe, irmão e pai, notou uma manchinha crescendo no pé direito. A mãe de Rhiana, Rosana Nunes rapidamente se prontificou a procurar atendimento médico para a filha, que foi diagnosticada com vitiligo. A doença, por sua vez, é caracterizada pela despigmentação da pele devido a destruição das células responsáveis pela produção de melanina, essas são as que dão o pigmento à pele. Com a ciência de que estava desenvolvendo o vitiligo, a pequena ficou nervosa e ativou o principal fator responsável pelo aparecimento das manchas: o estresse. O indivíduo pode ter uma predisposição genética e viver sem apresentar os sintomas, o principal desencadeador da doença é o emocional.
Com o crescimento e aparecimento de novas manchas, Rhiana foi adoecendo mentalmente, já não usava mais roupas que lhe permitissem expor do joelho para os pés, não usava mais blusas de alça, e em determinado momento, pediu à mãe que comprasse uma luva para esconder as manchas das mãos. Na escola, a falta de informação e estigma relacionado à doença fez com que a menina de apenas oito anos, virasse alvo de bullying. ‘’Chamaram ela de vaca malhada. Depois, teve um momento que ela ia cair e ela se segurou numa criança para se apoiar. A mãe da criança segurou Rhiana pelo braço e falou para ela (Rhiana) não encostar na filha dela. Achando que passava." A menina, chegou a ser reprovada um ano na escola por falta, porque não queria mais frequentar as aulas por vergonha da exposição.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia, publicado em 2003, o vitiligo acomete 1% da população, e costuma se manifestar em pessoas entre 10 a 30 anos, sendo mais comum o aparecimento em mulheres. Por mais que seja disseminada a informação de que o vitiligo é uma condição transmissível, a mesma não é verdadeira.
Com a situação de desamparo e falta de representação na escola e em diversos outros espaços de visibilidade, a menina desenvolveu o que comumente a maior parte das pessoas com vitiligo apresentam: a vergonha de si mesmo. As roupas longas e o uso de luvas para esconder as manchas tornam-se artifícios. A falta de representação aliada ao estigma da doença fez com que Rhiana apresentasse uma piora no quadro emocional, a menina desenvolveu depressão, e chegou a tentar duas vezes contra a própria vida.
contou Rosana.
Contudo, no dia em que foi exibido o primeiro programa da edição do Big Brother Brasil de 2022, a menina que estava em casa assistindo televisão enquanto sua mãe dormia, esbanjou emoção depois de um longo período em que foi dominada pela apatia.
relatou Rosana à equipe do OSG, com os olhos marejados.

A menina, continuou acompanhando a mineira no reality, e de forma natural, foi impactada pela representatividade transmitida através das telas. Aos poucos, Rhiana, dona de um jeito doce e um olhar cheio de ingenuidade, mesmo carregando dores que talvez outras pessoas nunca sintam, foi mudando seu jeito de se vestir. Voltou a usar shorts, vestidos e passou a ter orgulho daquilo que antes era o maior motivo das suas dores.
Dedicada e estudiosa, Rhiana afirmou gostar de estudar matemática e compartilhou que quando maior, quer ser policial. Hoje, a gonçalense de 10 anos é uma fonte de inspiração para outras crianças que passaram pelo o que ela passou, e faz questão de aconselhar de forma sábia aquilo que aprendeu e guarda dentro de si: ‘’Não precisa se importar, é uma coisa normal. Isso só muda um pouquinho a nossa pele mas tá tudo bem ser diferente.’’
Representatividade muda vidas
Além da representatividade pelo vitiligo, a identificação com a raça e cabelo da Natália Deodato foi significativa no processo de aceitação da pequena. Segundo a psicóloga e co-fundadora do primeiro curso de Psicologia Antirracista do Rio, Roberta Massot, a importância da representatividade é a garantia de existência das pessoas que são cotidianamente invisibilizadas.
‘’Uma das coisas que muda para as crianças e nós adultos também, é perceber que podemos alcançar alguns espaços sendo quem realmente somos. Por isso a grande importância da representatividade, se ver em personagens sejam eles reais ou não, é ter a certeza da sua própria existência, importância. A partir do momento que a pessoa não se vê, é como se ela não existisse ou não importasse." pontuou a especialista.
Mesmo totalizando num percentual de 54% de indivíduos pretos e pardos no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a construção de uma narrativa distante da que foi contada é ainda uma estrada longa a ser percorrida pelos negros. A representatividade é um mecanismo que vem sendo construído gradualmente. Como exemplo, segundo um estudo realizado pela ONG Avante, em 2016, no mercado de brinquedos, apenas 3% dos bonecos e bonecas vendidas em lojas do país são negras.
Paula Monique, mãe de Geovane Augusto, fez questão de comprar uma Barbie com cabelo black quando seu filho de apenas seis anos, notou na prateleira de uma das lojas em que foram juntos. ‘’Fomos nas Lojas Americanas e encontramos uma Barbie Negra de Black Power, ele ficou encantado, eu também, lógico que levei para casa. São coisas pequenas que fazem ele ver que ele faz parte dessa sociedade, se sentir representado em todos os lugares.’’

A mãe introduz a representatividade na rotina com o pequeno, através de ensinamentos didáticos, seja contando histórias, lendo livros, ou assistindo filmes. Um desses, inclusive, fez com que o pequeno se apaixonasse pelo herói Pantera Negra, figura representativa e determinante para o desenvolvimento e autoestima do pequeno Geovane.
‘‘Ele me questionou por que não existiam super-heróis negros. Nesse dia conversamos bastante e resolvi assistir com ele o filme do Pantera Negra. Ele se demostrou muito surpreso, com a história de um super-herói negro, rei de uma terra com muita tecnologia, que tinha uma história bem diferente do que ele costumava ver nos filmes de super-heróis. A forma como ele ficou impressionado com o Chadwick Boseman no papel do Pantera Negra me motivou a buscar mais filmes e livros que mostrassem a representatividade negra", explicou a mãe.
Antes disso, Geovane já chegou a se queixar da própria aparência. ‘’Um dia, ele chegou em casa dizendo que não queria ser “preto”, que achava feio. Nesse dia conversamos sobre o orgulho que devemos ter de ser negros, descendentes de homens e mulheres negras, que mesmo enfrentando o racismo todos os dias, somos capazes de se destacar em todos os campos, seja na Ciência, no Futebol, na musica etc. Li com ele o livro “Ei ,você! Um livro sobre crescer com orgulho de ser negro” que mostra o quanto importante somos, que não devemos ter vergonha do nosso tom de pele. Ele quis até levar para a escola para mostrar aos amiguinhos, fez bastante sucesso essa leitura.’’

Segundo a psicóloga, Natálias Deodato, Panteras Negra, Majus Coutinho, Glórias Maria e outras identidades negras em visibilidade são primordiais para a construção da autoestima dos pequenos, que têm apresentado mais empoderamento do que as gerações anteriores. ‘’Um dos maiores impactos que eu percebo é a alta autoestima. Tenho visto como as crianças e adolescentes desta geração estão mais empoderadas. Aceitando a cor de pele retinta, o cabelo crespo, valorizando e amando os traços negróides. Tenho 38 anos e na minha época quase não se via preto em desenhos, filmes ou novelas. Quando os tinha, os mesmos estavam fazendo papel de escravos ou algum trabalho de subserviência. Hoje temos vários filmes com personagens pretos sendo os protagonistas e isso por si só já faz toda a diferença.’’
No mais, assim como alerta Rosana Nunes, de que depressão em crianças não é brincadeira, a psicóloga Roberta Massot também sugere que os pais procurem criar espaços confortáveis para que os filhos possam apontar seus medos, inseguranças e desejos. Além da procura por atendimento psicológico e psiquiátrico quando este for necessário. Nesta luta, acolher e ouvir os pequenos é um dos caminhos para criação de narrativas saudáveis e cheias de vigor, como as deles: Rhiana Nunes e Geovane Augusto.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca