Especialistas ressaltam a importância de cuidados com a saúde mental em pacientes com câncer
Psicóloga e oncologista comentam sobre atitudes positivas em relação ao corpo e à mente durante o combate à doença

Embora os tratamentos para o câncer tenham tido grandes avanços e a cura seja possível em grande parte das vezes, receber um diagnóstico da neoplasia é sempre impactante. É normal que, além de dúvidas, os pacientes sintam medo e angústia e, em alguns casos, desenvolvam até mesmo ansiedade ou depressão.
Celebrado no último dia 8 de abril, o Dia Mundial de Combate ao câncer é um alerta para as necessidade dos cuidados com a saúde mental do paciente oncológico. A psicóloga Natália Gil, da Oncoclínicas Rio de Janeiro, afirma, porém, que o mais importante para os pacientes em tratamento oncológico é respeitar os processos individuais.
“Dizer que o sucesso do tratamento depende do bom humor e do pensamento positivo do paciente pode ser uma demanda muito pesada. Sucesso é conseguir entender que a vida fica diferente e construir, a partir das ferramentas emocionais e sociais que temos, esse novo trilhar”, explica. Para isso, a oncologista Herika Costa, do Hospital Marcos Moraes, diz que a preocupação com o bem-estar psicológico deve envolver todos os profissionais de saúde e começar no momento da notícia.
“É preciso acolher este paciente, explicar o quadro, percebendo até onde ele pode e quer saber, e ir alinhando as perspectivas, de acordo com cada caso. A preocupação com a saúde mental precisa estar sempre presente”.
Após uma primeira abordagem delicada, o cuidado com a saúde mental deve ser uma preocupação constante. Herika recomenda que os pacientes que já fazem acompanhamento psicológico continuem com suas sessões normalmente. Para quem nunca fez, é um bom momento de começar, já que a terapia pode ajudar a enfrentar os altos e baixos emocionais que fazem parte da caminhada do paciente oncológico.
Além do divã, o dia a dia do paciente deve incluir atividades que deem prazer, como ler um bom livro, se permitir passar horas vendo uma série durante um momento de lazer, encontrar os amigos, caminhar ao ar livre ou fazer uma atividade física que goste, sem precisar ser intensa.
“Muitas pessoas se dedicam ao trabalho e ao cuidado com a família sem ter nenhuma válvula de escape. É preciso que, durante o tratamento, elas tenham tempo para si mesmas. Fazer yoga e atividades físicas regularmente são atitudes importantes”, comenta Herika.
Quem se pergunta sobre a melhor fase para iniciar um acompanhamento psicológico precisa prestar atenção aos processos. Cada paciente responde de forma diferente à ansiedade, aos medos e angústias que surgem junto com o diagnóstico. No momento inicial, o acompanhamento psicológico pode ser importante para ajudar pacientes e familiares a lidarem melhor com as transformações da rotina decorrentes do início do tratamento, aprendendo a lidar com as emoções que inevitavelmente começam a surgir. No pós-tratamento, novos sentimentos podem aflorar, relacionados ao retorno de uma vida que se transformou ou ao medo da reincidência da doença. “O momento ideal é, portanto, quando o paciente sente necessidade de organizar todas as vivências emocionais”, resume Natália Gil.
Alimentação saudável e atividade física estão entre as práticas recomendadas, assim como o convívio social, que não deve ser esquecido. Mas, aceitar os limites do corpo e o turbilhão emocional, também faz parte da busca de equilíbrio. É preciso, poreém, sempre levar em consideração as recomendações médicas de qual tipo de exercício é indicado e qual o paciente não deve fazer. “A prática que eu acho mais difícil de ser incorporada é se permitir receber cuidado. Receber ajuda, respeitar os limites do corpo, poder falar dos próprios sentimentos. Tudo isso ajuda na saúde mental”, comenta Natália.
Outro ponto que precisa ser abordado após o diagnóstico é a solidão, já que muitos pacientes se fecham quando recebem a notícia. Pensam que não podem dividir suas angústias ou levar a mesma vida de antes. Mas isso não é a realidade. A especialista do Hospital Marcos Moraes diz que encontrar amigos e familiares traz muito bem-estar emocional. “Estar com as pessoas de quem se gosta é fundamental. Muita gente pensa que, por estar em tratamento, tem que ficar em casa. Não é assim. O paciente pode ir à uma festa, respeitando seus limites. Às vezes, há alguma restrição alimentar e o paciente pode se sentir impedido de ir a um jantar, mas é preciso lembrar que ele ainda pode comer muita coisa”, finaliza Herika Costa.
Fundada em 2010, a Oncoclínicas conta com 129 unidades, entre clínicas de especialidades, diagnóstico e prevenção do câncer, centros ambulatoriais de tratamento infusional e radioterapia, laboratórios de genômica, anatomia patológica e centros de alta complexidade (cancer centers), estrategicamente localizados em 35 cidades brasileiras.
Inaugurado em 2020 na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Hospital Marcos Moraes (HMM) é um hospital geral, especializado no tratamento de câncer e capaz de realizar, em um mesmo lugar, desde o diagnóstico até tratamentos como quimioterapia, radioterapia e imunoterapia.