Sinal de alerta em São Gonçalo

Por Marcela Freitas
O grande número de gestantes com sífilis em São Gonçalo tem preocupado as autoridades de saúde do município. Um levantamento realizado de julho de 2014 a abril de 2015 mostrou que cerca de 90 bebês nasceram no Hospital Municipal Luiz Palmier, no Zé Garoto, com a chamada sífilis congênita (transmitida da mãe para filho) para cada 1 mil nascidos. O índice é seis vezes superior ao registrado no estado do Rio, que é de 15 casos para cada 1 mil.
Somente na última semana, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde,19 mulheres e seus bebês estavam internadas na unidade para tratamento da doença.
Segundo a coordenadora do berçário, a pediatra Cláudia Sarcinelli Afonso, esse grande número de casos pode estar ligado a quatro fatores fundamentais: falta de informação sobre as formas de contaminação, não realização de pré-natal, gestação cada vez mais precoce e múltiplos parceiros.
O sinal de alerta de São Gonçalo não é um caso isolado. A incidência dos casos da doença aumentou em todo o país, segundo o Ministério da Saúde.
Somente no Estado do Rio, de 2010 a 2014 o aumento foi de mais de 100% passando de 1.465 para 3.054. Em 2015, até o último levantamento, foram registrados 2.778 casos de sífilis congênita. Os resultados ainda não foram concluídos.
De acordo com Cláudia Afonso, a sífilis congênita pode causar má-formação do feto, nascimento prematuro, aborto e até a morte do bebê. Na maioria dos casos, a sífilis se manifesta logo após o nascimento, mas a doença pode se manifestar até os 2 anos de vida.
“Esta é uma maternidade de média complexidade. Recebemos aqui muitos pacientes que vêm de outros municípios em busca de ajuda. Antes do partos, é realizado um exame de sangue na gestante. Se constatado a presença da sífilis, essa mãe e o bebê ficam conosco por cerca 10 dias. Neste período, o bebê é tratado com medicação venosa, e a mãe fica responsável pelo cuidado com ele” explicou.
Ainda segundo a médica, por conta desta necessidade do tratamento nos bebês, os leitos ficam ocupados por um tempo cinco vezes superior ao normal, que é de cerca de 48 horas. Em decorrência do tratamento, outros partos deixam de ser realizados na maternidade.
“Por isso é muito importante que a mulher faça o pré-natal. Se a doença for descoberta na fase inicial da gestação, o bebê pode ficar livre dessa contaminação. Mas não basta apenas a mulher se tratar. É necessário que o parceiro também faça o tratamento. É simples e eficaz. São aplicadas, durante três semanas, duas doses de penicilina benzatina, medicamento conhecido pelo nome comercial de Benzetacil”, explicou.
Falta de medicamentos - No ano passado, a falta do medicamento citado (além da penicilina cristalina usada em bebês) na rede municipal de saúde prejudicou o tratamento de muitos pacientes adultos. Ambos são fornecidos de Ministério da Saúde, que informou que “o desabastecimento de todos os tipos de penicilina e seus derivados é global e deve-se à falta da matéria prima, produzida apenas na China e na Índia”.
Ainda segundo o Ministério, “neste mês foi fechada a compra de 2,7 milhões de frascos de Benzil penicilina benzatina para abastecer os estados, totalizando investimento de cerca de R$ 2,6 milhões. Os primeiros lotes chegam em março. Desse total, 2 milhões foram adquiridos através de convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde e o restante por meio de contrato com empresa vencedora de concorrência pública”.