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Americanas: cooperação com bancos pode solucionar crise

Especialista em Mercado Financeiro, professor Carlos Cova prega que haja serenidade

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 06 de fevereiro de 2023 - 18:58
Para especialistas, situação financeira negativa das Lojas Americanas pode se reverter
Para especialistas, situação financeira negativa das Lojas Americanas pode se reverter -

Nascida na cidade de Niterói, nos anos 1920, as Lojas Americanas vivem uma crise sem precedentes. Rombo de R$ 20 bilhões, ações de credores e uma recuperação judicial. Parece ser uma típica situação “sem saída”. No entanto, é possível desenhar uma solução para o imbróglio de uma maneira mais simples do que se espera: por meio do diálogo, inclusive com os bancos credores.

O professor Carlos Cova, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ e CEO do Grupo Agir Consultoria, com 30 anos de experiência nos mercados financeiros, falou sobre essa  questão. Na sua visão, a crise das Lojas Americanas deve ser tratada com mais serenidade, pois os fatos e os dados não correspondem com o drama que tem reverberado nas últimas semanas. Caso não seja conduzido com equilíbrio, todos os interessados perderão.

A saída, na análise do especialista, é apresentada na “Teoria dos Jogos”. Integram os modelos apresentados na teoria todas as situações que envolvam interações entre agentes racionais que se comportam estrategicamente. Dessa forma, faz-se necessário que haja cooperação entre os envolvidos.

“Há, neste caso, interagindo com suas estratégias próprias, os bancos credores, os fornecedores diversos, os controladores, os demais acionistas, os clientes, o governo, a CVM, a Justiça, e outros atores. Todos com suas expectativas, papéis, objetivos e estratégias distintas. Contudo, se cada um desses atores agir segundo os seus próprios interesses, todos perderão”, alertou.

De acordo com o modelo apresentado por Cova, quando cada jogador escolhe racionalmente aquela estratégia que seria a melhor resposta a dos demais, pode ocorrer um resultado insatisfatório. Ou seja, nem sempre a busca de um agente pelo que entende ser o melhor para si resulta no melhor para todos.

“A situação de recuperação judicial pode ser a grande saída para o problema. A construção de um jogo cooperativo pode deixar todos os envolvidos numa situação bastante favorável no futuro, desde que sejam capazes de firmar compromissos factíveis e cumprirem o estabelecido. Existem dificuldades? Sim. Mas os benefícios são muito mais relevantes para toda a sociedade”, prosseguiu.

O professor lembra que se trata de um negócio que gera 34 mil empregos diretos e cerca de 66 mil empregos indiretos, além de entregar para a sociedade R$ 2 bilhões em tributos. Por esta razão, salvar as Lojas Americanas deve ser um compromisso de todos os brasileiros.

“Muito se fala em fraude contábil da ordem de bilhões de reais. Como contador fico muito curioso como se poderia mascarar um passivo dessa monta. As demonstrações financeiras são públicas, logo um credor poderia identificar a ausência daquele passivo no balanço da Americanas, visto que na sua própria contabilidade, seria registrado um ativo (recebível). Seria necessário uma miopia coletiva para que isto pudesse acontecer. É razoável isto?”, refletiu

Centro do problema

Para Cova, os bancos estão levando a “ferro e fogo” um aspecto contratual das dívidas bancárias das Lojas Americanas, que são os covenants. Estes instrumentos constituem-se em garantias adicionais que os credores impõem aos devedores para que as operações dos últimos não prejudiquem os interesses dos primeiros. No caso em questão, o problema ocorreu com as operações de “risco sacado”, que é um instrumento pelo qual a empresa toma empréstimos com os bancos para comprar produtos de fornecedores.

“Os bancos antecipam os valores aos fornecedores e a empresa mais tarde quita estas obrigações pagando juros. Ocorre que, segundo a informação geral, essas operações foram lançadas como despesas com fornecedores, no passivo circulante. Quando são reclassificadas como empréstimos bancários, seja no circulante ou no não circulante, elas rompem os limites estabelecidos pelos covenants”, completou.

Números

Apesar das dívidas, o professor pontua que a empresa gerou R$ 28 Bilhões de receita nos últimos 12 meses. Além disso, segundo informações do balanço da empresa relativo ao 3º Trimestre de 2022, a empresa já reportava em seu Passivo Circulante (que vence em até 360 dias) dívidas com fornecedores no valor de R$ 5 Bilhões, empréstimos de curto prazo com bancos no valor de R$ 2,2 Bilhões, outros passivos de curto prazo no valor de R$ 2,1 Bilhões.

O total é de R$ 9,3 Bilhões. Em relação ao Passivo não Circulante (que vence depois de 360 dias) há empréstimos com bancos no valor de R$ 18,6 Bilhões e outros passivos no valor de R$ 2,2 Bilhões. Se somar tudo isto há R$ 30,1 Bilhões. Levando em conta o período de setembro de 2022. Segundo Carlos Cova, em se tratando de dívidas de curto prazo, existem apenas cerca de R$ 10 Bilhões.

“Caso seja realizado um grande processo de ajuste, separando com frieza o boato, o pânico e a ganância das reais possibilidades de composição, haverá êxito na empreitada. Como a maior parte da dívida é de longo prazo, se a Americanas continuar operando normalmente elas podem ser pagas tranquilamente”, destacou.

Soluções

O professor ainda pontua que o estoque das lojas possui valor zero, ou seja, o que há nas prateleiras pertence aos seus fornecedores e a maior parte das vendas depende de agilidade logística. Isto significa, em sua concepção, que uma injeção de Capital de Giro promovida por seus principais controladores pode sanear completamente a situação.

“Em outra frente, sugiro que na proposta de Recuperação judicial sejam solicitadas linhas de financiamento de Capital de Giro ao BNDES, que, considerando o seu papel ‘social’, de fato produziria uma forte reversão nas expectativas deletérias de grande parte do mercado. Se assim fizesse, o BNDES poderia assumir participações minoritárias por meio de opções de compra a um valor na faixa de R$ 10, digamos, em um momento futuro, incluindo-se estas opções de compra no pacote de garantias”, sugeriu Carlos Cova.

Sobre Carlos Cova

Carlos Cova é economista, mas também é administrador, advogado e contador. Nesta última atividade, recebeu diversos prêmios por seus trabalhos no campo da governança corporativa. Atuou como docente em diversas disciplinas de finanças e mercados.

Foi o criador e Coordenador de dois cursos de especialização na área de mercados financeiros na UFF, o MBA em Finanças e Mercados de Capitais e o MBA em Previdência Complementar. Publicou recentemente o livro ALEPH de Finanças e Riscos, onde sintetiza grande parte de seus ensinamentos. Atualmente, também é operador de opções na B3.

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