Maricá reúne a população de Matrizes Africanas para debater religião e direitos humanos
O evento acontece após padre proibir a tradicional lavagem das escadarias da Igreja Matriz Nossa Senhora do Amparo, o que foi visto como intolerância religiosa

Nesta quinta-feira (26), acontece a "Assembleia", evento da Sociedade Civil Organizada de Maricá, promovido pela Câmara Setorial de Cultura Afro-brasileira da cidade, no auditório do banco Mumbuca, na Rua Eugênio Modesto da Silva, 293, no bairro Parque Eldorado.
Segundo os organizadores, o encontro tem como principal motivação o debate de pautas relevantes para a sociedade, como os direitos humanos, a violação dos direitos, e também o recente acontecimento envolvendo a Festa Tradicional da Lavagem das Escadarias da Igreja Matriz Nossa Senhora do Amparo, que foi proibida de acontecer pelo Padre Max Celestino Sales de Almeida, pároco da Igreja, o que foi considerado pela população da cidade como um caso de intolerância religiosa.
Para o evento, foram enviados convites para várias lideranças locais, como prefeito Fabiano Horta, os secretário de Direitos Humanos, da Coordenadoria de Assuntos Religiosos, da Secretaria de Cultura, além do Secretário de Culturas de Niterói, Alexandre Santini, que vai assumir a Casa Rii Barbosa e participar do governo de Transição Lula, auxiliando a Ministra Margareth Menezes.
Relembre o caso
No dia 14 de janeiro deste ano, religiosos de matriz africana foram impedidos de lavar as escadarias da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, no Centro de Maricá. A proibição veio através do padre Max Celestino Sales de Almeida, Pároco da Igreja.
A tradição existe há 24 anos na cidade e está no calendário oficial de eventos do município, desde a promulgação da Lei nº 2512/14. Porém, desta vez, os fiéis puderam somente realizar um cortejo e lavar a calçada da Paróquia.

Por meio de um ofício, o padre alegou que a tradicional festa ‘Lavagem da Escadaria: Um Pedido de Paz ao Mundo’ não poderia ser realizada nas escadarias da Matriz por essa atividade "!não condizer com a fé cristã católica!".

O organizador do evento, Antônio Jonas Chagas, o Pai Liminha (Babalorixá Jonas de Jagun), que preside a Fonte para Orientação Religiosa das Matrizes Africanas (Forma), confirmou o fato e disse que o padre realmente deixou os portões fechados para que as pessoas não tivessem acesso à escadaria para participar do evento.
“Nenhum pároco tinha se posicionado oficialmente contra, mas isso só nos fortaleceu. O evento tomou proporções extraordinárias, agregando pessoas comuns que ali passavam e que comungaram conosco nossa fé, cantando dançando e batendo palmas. Enfim, o saldo foi positivo”, disse.
A Câmara Setorial de Cultura Afro Brasileira de Maricá, Artistas e Trabalhadores da Cultura de Maricá se manifestaram, em Nota de Repúdio, pelo impedimento da realização da 24ª edição do evento, um dois mais tradicionais da cidade.
O Conselho de Cultura de Maricá, representado Júlio Fernandes, considerou a atitude como um desrespeito à Lei municipal promulgada 2512/14, assinada pelo então prefeito Washington Quaquá e publicada no JOM - Jornal Oficial de Maricá, que garante o exercício do direito desta festividade, um desacato aos poderes públicos e especialmente ao Poder executivo e Legislativo Municipal.
O Conselho de Cultura de Maricá também sinaliza que os discursos de posse dos Ministros dos Direitos humanos, Sílvio Almeida, Ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco e da cultura Ministra da Cultura, Margareth Menezes, deixam claro que esse tipo de atitude discriminatória não seria mais permitida no país.
"É preciso reconhecer que esse país foi sedimentado sob hierarquias raciais, consequências do colonialismo escravocrata das políticas eugenistas e das narrativas pautadas na desigualdade racial aqui se desenvolveu o racismo brasileiro negando a nossa história e falseando uma memória em prol da farsa da democracia racial. O Racismo merece um direito de resposta eficaz e nós gostaríamos de convidar a todos negros e brancos para que possamos formular e executar juntos essa proposta.”, disse Anielle Franco, Ministra da Igualdade Racial.
O SÃO GONÇALO tentou repercutir o assunto com o padre Max Celestino Sales de Almeida, através da Cúria Metropolitana de Niterói.
Em nota, a Comunicação da Arquidiocese de Niterói respondeu que "conforme resposta à Coordenadoria de Assuntos Religiosos da Prefeitura de Maricá, no dia 11 de janeiro, a Igreja Católica sempre prezou pelo diálogo inter-religioso. E deseja, junto aos irmãos de todas as confissões cristãs e não cristãs, a paz ao mundo.
Com esse propósito, a Paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Maricá, no dia 1º de janeiro - Dia Mundial da Paz - unida a todas as paróquias do mundo e a todas as religiões pediu a Deus o dom da paz e reafirmou o seu compromisso de construir a paz tão necessária em nosso mundo de hoje".