Veterinário no Colubandê que resgata animais de rua relembra história de superação
Jorge Nery iniciou faculdade de veterinário aos 49 anos e hoje se dedica a ajudar animais de rua

Bichos e pessoas sempre foram duas paixões do baiano Jorge Nery, morador de São Gonçalo, e, ao longo de toda sua vida, uma de suas metas era fazer o que podia para ajudar animais e seres humanos em situação de necessidade que encontrasse pelo caminho. Hoje, aos 57 anos, ele faz isso através de sua clínica veterinária no Colubandê, um espaço que lutou para construir.
“Tem que ter alguém para fazer alguma coisa. Você não vai conseguir resolver tudo, salvar o mundo, mas eu acredito no seguinte: quanto maior o seu poder, maior a sua responsabilidade”, declara o veterinário, que iniciou na faculdade de “med-vet” aos 49 anos. Com o conhecimento que adquiriu, ele investe, atualmente, em ajudar animais de rua, que resgata junto de sua esposa, a bióloga da Fiocruz Aline Zanata.
“Nós temos 46 gatos e 35 cães em casa, todos animais de rua resgatados”, conta o médico. Ele explica que aproveita o fato de, hoje, ter uma casa bem grande e com bastante espaço para proteger animais em situação de vulnerabilidade que encontra perdido: “A gente tem um espaço muito bom e os animais ficam todos separados por parte. Os que são diagnosticados com alguns vírus, por exemplo, ficam num canto, outros em outra parte”.

Nem sempre, porém, ele teve condições de fazer tudo isso. Jorge relata que, em certos momentos de sua vida, teve dificuldades até para sustentar a si próprio, imagine para ajudar tantos bichos. “Foi uma trajetória muito difícil para chegar até aqui.”, revela o profissional, que nasceu na cidade de Nazaré, no interior da Bahia.
Filho de uma doméstica com um caseiro, Jorge enfrentou uma infância de muitos esforços e passou até por episódios de desnutrição. Viu sua família ser dizimada pela Doença de Chagas e trabalhou em diversas funções para pode conseguir levar o pão para sua mesa. “Vendi picolé nas areias de Salvador, fui servente de pedreiro, estoquista, porteiro”, relembra.
Aos 28 anos, veio morar no Rio em busca de melhores condições de vida. Aqui, foi contratado como açougueiro em um supermercado de Copacabana e acabou se deparando, também, com muitos desafios. Para enfrentá-los, ele contou com a ajuda de alguns amigos que fez pelo caminho, ele enfatiza: “Você precisa de alguém que te dê a mão. Você não chega a algum lugar se não tiver alguém para te ajudar. Eu encontrei muitos obstáculos, mas também encontrei muitas pessoas que me ajudaram no meu caminho”.
Uma dessas pessoas foi Luciana Resk, sua cliente no supermercado, que, cativada pelo carisma de Jorge, resolveu oferecer a ele uma oportunidade de estudar em um curso técnico de enfermagem. Foi lá que ele iniciou sua trajetória na área da medicina. Foi trabalhando como enfermeiro, inclusive, que ele chegou a São Gonçalo, onde trabalhou como funcionário do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê.
No meio do caminho, Jorge acabou saindo da área e ficando desempregado temporariamente, o que o levou a mais um dos “fundos dos poços”, como ele diz. “Só que parece que quando a gente chega no fundo, tem uma mola que empurra para mais longe”, ele brinca ao relembrar da época. Sua ‘mola’ veio através de uma chance de entrar em uma universidade através do FIES.

Com quase 50 anos, Jorge se viu voltando para as salas de aula e migrou da medicina comum para a medicina veterinária. O processo não foi nada fácil e ele se emociona ao lembrar das vezes em que passou cerca de 1 hora e meia andando para chegar ao local onde estudava, por não ter dinheiro para pagar a condução.
“Eu não tive nada a meu favor, não tive gente para me orientar, mas nunca perdi a fé. Confesso que desanimei, mas não perdi a fé. Quando abri o portal da faculdade, ao fim, e vi aqui o ‘aprovado’, passei uma semana chorando. Hoje, sou o único da minha família com o ensino superior”, ele celebra.
Ao sair da faculdade, Jorge se dedicou à especialização para abrir seu consultório. Agora, com seu espaço, ele ajuda os pets e os animais de outras pessoas que, como ele, também se dedicam a ajudar animais de rua. É o caso da artesã Laise Vieira, de 49 anos, que já tinha levado um de seus pets para ser atendido por Jorge e voltou a encontrá-lo para socorrer uma cadela abandonada.
“Me apareceu uma cachorra que abandonaram na minha rua. Um carro passou e jogaram ela aqui. Queria fazer alguma coisa e não sabia o que fazer”, ela conta. O animal estava tão maltratado que Laise confessa que não achou que ela fosse sobreviver. “Não achei que fosse dar certo, mas confiei no Jorge e agora a cachorra está bem, viva, saudável, pronta para a adoção”, relata a protetora.
São animais como esse que Jorge costumava levar para sua casa, hoje cheia de bichos. Apesar da alegria em poder ajudar, ele explica que a tarefa também não é nada fácil. “É maravilhoso, mas é uma despesa muito grande. A gente gasta de 5 a 6 mil reais todo mês só de ração, sem contar outros gastos e o pagamento da pessoa que trabalha lá ajudando a gente. E nós não recebemos ajuda de ninguém”, conta.
Apesar disso, ele segue firme no trabalho, acreditando que, ajudando os bichos, ele está, também, ajudando pessoas e tornando o mundo um lugar melhor da forma como pode. “Hoje eu penso muito em ajudar as pessoas. Não falo só em animais, mas pensar um pouco no seu semelhante. Não é porque você está bem, comendo, que você não vai olhar, vai ser alheio para quem está sem nada”.