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Mundo da Copa - Argentino 'gonçalense' divide torcida entre Argentina e Brasil

Apaixonado por esportes, Daniel Martinez nasceu em Tucumã e mora no Brasil há 21 anos

relogio min de leitura | Escrito por Felipe Galeno | 03 de dezembro de 2022 - 11:25
Argentino sente falta de uma política esportiva no Brasil, mas se diz apaixonado pelo país
Argentino sente falta de uma política esportiva no Brasil, mas se diz apaixonado pelo país -

Ninguém sabe precisar exatamente de onde vem a histórica rivalidade entre brasileiros e argentinos. Há quem diga que é herança da rixa entre seus colonizadores, Portugal e Espanha. Outros vão argumentar que foi a competição pela hegemonia política na América Latina recém independente do século XIX.

O que todos sabem - e a maioria concorda - é que é nos campos de futebol que essa animosidade entre as duas nações se aflora mesmo. Na verdade, não apenas nos campos, mas, principalmente, nas arquibancadas. E, por mais que alguns torcedores pareçam dispostos a brigar por Pelé ou Maradona em qualquer época do ano, é na Copa do Mundo que o clima fica ‘mais pesado’ entre fanáticos das duas principais potências do futebol latino.

Enquanto os lados opostos da torcida disputam, o aposentado Daniel Martinez, de 65 anos, concilia os dois extremos da clássica rixa em si próprio. Argentino que mora no Brasil há 21 anos, ele diz ter motivos para torcer pelos dois países e não vê razões para arrumar confusão por causa disso.

Estou torcendo pelo meu país, primeiramente, e, depois, pelo Brasil, que me acolheu. Na quarta-feira, estava torcendo com a camisa da Argentina, e no jogo do Brasil estava com a camisa verde e amarela. Não tenho problemas com isso. Martinez
 
Daniel se casou com a brasileira Ana Luiza e veio morar no Colubandê
Daniel se casou com a brasileira Ana Luiza e veio morar no Colubandê |  Foto: Layla Mussi
 

Daniel nasceu em Tucumã, província do noroeste argentino, e viveu lá por mais de quatro décadas até conhecer a brasileira Ana Luiza, por quem se apaixonou e acabou se casando. Desde então, ele acompanhou a psicóloga gonçalense e veio morar em terras tupiniquins. “Ela tinha uma filha aqui, eu já tinha meu filho crescido lá. A decisão foi muito dura, mas deixei tudo e vim para cá”, relembra.

Entre as coisas que acabou deixando para trás está a profissão. Em Tucumã, Daniel trabalhou, por anos, como professor de educação física. Especialista em rugby, ele deu aula de diversos esportes para crianças, jovens e adultos, e trabalhou tanto para a Prefeitura como para a Universidade Estatal da região. Ao mesmo tempo, também mantinha uma carreira como mecânico de automóveis em sua oficina.

Ao chegar no Brasil, acabou precisando se virar para conseguir se manter. "Consegui um trabalho de professor de tênis lá em Pendotiba, mas não compensava muito. Então, trabalhei em qualquer coisa. Trabalhei em estaleiro, trabalhei como peão, trabalhei na Região dos Lagos. Me virei para ter o que comer", compartilha o morador do bairro Colubandê. 

Por fim, acabou se envolvendo com a área naval e trabalhando com automação de navios até se aposentar. Isso não significa, porém, que tenha deixado o esporte de lado. Daniel continua um entusiasta da atividade física e assíduo espectador de partidas esportivas - e tem vários palpites para a Copa.

"Estou torcendo pelo meu país, primeiramente, e, depois, pelo Brasil, que me acolheu"
"Estou torcendo pelo meu país, primeiramente, e, depois, pelo Brasil, que me acolheu" |  Foto: Layla Mussi
 

"Creio que, na América Latina, quem tem possibilidade de ganhar essa Copa são Argentina e Brasil. E, entre os europeus, acho que França e Portugal têm chances. Sempre falo que Portugal pode ser uma grande surpresa", analisa o torcedor, com seu carregado 'portunhol'. 

Como todo bom fã de futebol, Daniel tem suas ponderações sobre o trabalho feito por suas duas seleções até agora. "Brasil está jogando muito bem. Mas não estou de acordo com o time que entrou para jogar contra Camarões. Acho que o Tite tinha que manter o mesmo time. O Alisson ainda não encostou na bola, para que tirar ‘para descansar’?", avalia. 

Já sobre a Argentina, o 'hermano' considera que o time não começou tão bem, mas já se encontrou. Sua única crítica é ao meio-campo Rodrigo de Paul. "No Atlético de Madrid, ele estava como substituto e não vinha jogando muito bem. Na seleção até estava jogando bem, mas agora não está mais. Mas, além dele, toda a Argentina tem jogado muito bem, especialmente com Álvarez e Fernandez, que deixam a equipe mais solta, mais rápida", julga o morador do Colubandê. 

Apesar das opiniões fortes e de gostar de conversar sobre o assunto, Daniel enfatiza que nunca brigou sobre esporte: "Eu posso até discutir com você sobre futebol, mas, se você começa a querer ter a razão, eu vou deixar. É o que aprendi. É um jogo, nada mais que um jogo. Não é a Copa que vai melhorar nem a Argentina nem o Brasil. É um entretenimento". 

Aliás, por mais que goste muito do esporte como entretenimento, Daniel prefere falar sobre o tópico sob outra lente: a de seu potencial social. O que mais chateia ele no Brasil não é a performance da Seleção ou a escalação de Tite, mas a forma como se conduzem as políticas esportivas para crianças e adolescentes por aqui. 

"O que vejo aqui em São Gonçalo é uma cidade tão grande, com tantas crianças, e não tem um complexo esportivo. Não há uma política esportiva nos bairros. Os bandidos são quem acabam se encarregando de fazer futebol em um terreno desocupado. Isso não é política esportiva", defende o argentino. 

Por conhecer de perto a forma como o esporte pode "mudar realidades e mentalidades", como diz com entusiasmo, ele se entristece de ver um país com um potencial tão grande perdendo atletas por falta de oportunidades.

O Brasil tem um dos principais times de vôlei do mundo, mas quem pratica vôlei no Brasil? Em Saquarema, há um centro de treinamento de luxo, mas que fica fechado, só abre para a elite esportiva do vôlei quando precisa treinar. Martinez
   

Na opinião dele, uma medida que poderia fazer a diferença por aqui seria a inserção maior de atividades culturais e esportivas à carga horária das escolas públicas da cidade e do país.

"Tínhamos [na Argentina] um plano que todas as crianças de todas as escolas trabalhavam aos sábados o dia todo, com música, com teatro, ginástica, basquete, futebol. E com isso, vimos o poder que o esporte tinha na vida dos mais jovens. Há uma mudança de mentalidade que pode vir através do esporte. O que pode tirar os jovens da rua e da miséria é o esporte e a cultura", conclui. 

Mesmo com as críticas, ele celebra sua identidade argentino-gonçalense: carrega com orgulho o azul-e-branco de sua bandeira na camiseta e elogia sua nova casa. "O Brasil tem seus problemas, como todo país tem, mas é um país maravilhoso", opina o simpático senhor.

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