Instagram Facebook Twitter Whatsapp
Dólar R$ 5,1277 | Euro R$ 6,0512
Search

Ultrapassando os muros

Atividades extraclasse promovem cidadania nas escolas

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 26 de janeiro de 2016 - 19:48

O pedagogo e filósofo Paulo Freire enxergava a educação como formadora de cidadania, defendendo que os profissionais investissem em politizar os estudantes e ultrapassar a sala de aula. Referência para os educadores até hoje, o legado de Paulo Freire permanece vivo nas escolas, que têm investido cada vez mais em debater temas pertinentes, como o engajamento social, a valorização da identidade, a tolerância religiosa, entre outros.

É o caso do Colégio Estadual Dom Antonio de Almeida Moraes Junior, em Santa Luzia. Desde dezembro, a opacidade do marfim e do verde que caracterizavam o ambiente externo da instituição deram lugar à beleza, pluralidade e criatividade da turma do então segundo ano do Ensino Médio, que transformou o muro em tela e produziu nele 40 autorretratos, destacando características físicas, sonhos pessoais, preferências musicais e hobbies.

A ideia de intervir no patrimônio surgiu da professora de Artes Raquel Caldas. “A turma estava bastante envolvida com ações para além da sala de aula, com apresentações de música e teatro, produção de eventos e confecção de esculturas. Em meio a isso, a escola enfrentava um problema com constantes pichações no muro. Vimos a necessidade de fazer algo pela escola e nada melhor que a arte para promover isso”, contou.

A sugestão foi rapidamente adotada pelos alunos, mas o conteúdo na pintura sofreu alterações em meio ao debate em sala. O grupo pretendia seguir o estilo do pintor Romero Brito, admirado pela maioria, até que o contato com as obras do caricaturista Mônico Reis atraiu os alunos.

“Pensamos em pintar uma favela, já que tem muito a ver com a realidade do Rio de Janeiro. Porém, concluímos que retratar a nós mesmos seria ainda melhor”, explicou a aluna Patrícia Coutinho, de 17 anos.

Cada estudante escolheu uma ‘selfie’ e, a partir dela, a turma fez um esboço em carbono para reproduzir as imagens no muro. Após três meses de ‘mãos à obra’, a semelhança nos traços chamou a atenção da vizinhança e dos familiares, além de despertar uma certa ‘inveja’ nos demais alunos.

“Quando contei para a minha mãe, ela achou o máximo e quis vir para ver pessoalmente”, revelou Brian Richard, de 17 anos.

Karollayne Sales, também de 17, acrescentou: “Os alunos que vão cursar o segundo ano em 2016 ficam dizendo que vão apagar as nossas pinturas para retratar a turma deles. Agora todo mundo quer fazer arte”.
Mais do que a ‘fama’ de novos artistas do pedaço, os estudantes enxergam na iniciativa uma forma de estimular outros alunos.

“Sabemos que muitos alunos viam a arte como uma coisa chata, mas depois da transformação no muro, eles passaram a pensar de forma diferente. Serviu para inspirá-los”, afirmou Maryana Moura, 16 anos.

Stefany Inácio, 17, também avaliou os efeitos da ação: “As pinturas ajudaram a escola. Será como um legado da nossa turma ao colégio, porque vai impulsionar outros alunos a se empenharem pela escola e pela nossa comunidade”.

Para a professora, proporcionar a oportunidade contribuiu para a formação dos alunos, não apenas como estudantes melhores, mas também como cidadãos.

“Promover o aluno como artista é dar a chance para que eles se mostrem, se expressem, tenham voz. E não foi apenas o gosto pela arte que despertou, mas também o melhor desempenho em outras disciplinas. Cada um exercia uma função, se ajudando mutuamente, ficando na escola depois do horário oficial, expostos ao sol. Vejo esse muro como um agradecimento da própria escola por tudo o que eles têm realizado aqui”, enfatizou Raquel, professora há nove anos, quatro deles na área de Artes.

A opinião é comprovada pela avaliação dos próprios alunos, como Weslly Pacheco, que pontuou as dificuldades enfrentadas pela turma.

“Tivemos diversos motivos para desistir: o tempo quente, as críticas de algumas pessoas. Mas acreditamos em nós mesmos e continuamos. Isso é algo que vamos levar para a vida toda”, declarou.

Ações multidisciplinares trabalham pluralidade dos alunos

Formada em Letras e psicopedagoga há quatro anos, Gisele Alves Gonçalves, 36, defende a atividade extraclasse como uma forma de estimular a criatividade dos estudantes. Com base em Jean Piaget, um dos mais importantes pesquisadores da educação e pedagogia, a especialista argumenta que “a criança é o estímulo do meio em que vive, ou seja, se ela vive em um contexto no qual lhe possibilitam estimular a criatividade, tem uma melhor propensão a desenvolver o processo criativo”.

 Psicopedagoga Gisele Alves Gonçalves defende as atividades extraclasse como forma de estimular a criatividade dos estudantes
Psicopedagoga Gisele Alves Gonçalves defende as atividades extraclasse como forma de estimular a criatividade dos estudantes (Foto: Luiz Nicolella)

“A filosofia dele vai contra a lógica de o professor dita, e o aluno copia. Somos diferentes uns dos outros, com necessidades e pensamentos diferentes, cada um com sua habilidade específica. Como educadores, temos a missão de desenvolver essas habilidades em cada aluno”, afirmou a especialista, que também atua em terapia cognitiva e comportamental e neurociências.

Para Gisele, as formas de promoção das atividades extraclasse são variadas, mas o ideal é que elas contem com profissionais de apoio especializado, a fim de que as ações sejam trabalhadas de forma multidisciplinar.

“Há várias maneiras e métodos possíveis para aplicação nas escolas em contraturno. A participação de psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, entre outros, faz a diferença no desenvolvimento intelectual, porque a atividade extraclasse vai além da perspectiva educacional. Ela trabalha o contexto social, a autonomia do ser, sua autoria de pensamento, as habilidades cognitivas, a disciplina, a cidadania”, explicou.

E foi isso o que Gisele concluiu em relação à iniciativa da professora Raquel no Colégio Dom Antonio. A psicopedagoga acredita que ações como essa vão na contramão do modelo de ensino vigente, “que trata o aluno em sua pluralidade e não sua singularidade”.

“Foi além de uma simples atividade extraclasse. Ali se trabalhou união, solidariedade, determinação, autoestima, companheirismo, amor e, logicamente, muito estímulo a aprendizagem. Foi pensar na educação e seu processo com a finalidade de formar o indivíduo, fazendo dele autor de seus pensamentos e possuidor de suas capacidades”, concluiu.

Serviço

Psico & Aprendizagem
Apoio Psicopedagógico, Consultoria e Formação Educacional
Rua Dr. Feliciano Sodré, 78, sala 1813, Centro - São Gonçalo
Telefones: 3038-1136 / 97318-0134

Matérias Relacionadas