Repetência: em busca de uma solução

Rafael melhorou seu desempenho após diagnóstico de que tinha dificuldades visuais
Foto: DivulgaçãoRepetência e reprovação são duas palavras temidas por qualquer aluno. Num dos países com maior índice de reprovação escolar - 13,1% segundo pesquisa do Todos Pela Educação, de 2014 - segue a polêmica: a aprovação automática é a solução para o problema de ensino no Brasil? E quando o aluno tem dificuldades de aprendizagem pelos mais variados motivos? Como deve ser o acompanhamento dos pais durante essa fase?
Instituída em 2008, a aprovação automática, principalmente na educação básica, tem gerado discussões. Especialistas na área da Educação, em sua maioria, convergem. A professora e pedagoga da UFF, Andrea Serpa, acredita que o problema vai muito além de simples estatísticas. “Do ponto de vista pedagógico, reduzir a questão do fracasso escolar à questão ‘aprova ou reprova’, desvia do ponto fundamental: aprende ou não aprende? As crianças não vão à escola para serem selecionadas como candidatos em um concurso público. Reprová-las é fazer esta seleção dizer que algumas crianças não servem, além de assumirmos que deveriam ter sido ensinadas por nós e não foram. E é sob esse ponto de vista que temos uma grande perda para o país, que apesar das estatísticas, segue produzindo um exército de analfabetos”, explica.
Por outro lado, no caso das escolas particulares e nas séries onde não há a aprovação automática, a reprovação também é considerada uma dor de cabeça, influenciando especialmente na auto estima do aluno. “O processo do ano letivo de tentativas frustradas de aprendizagem e pequenos resultados, desestimulam e traumatizam o aluno. A solução é acrescentar na avaliação, maior feedback aos alunos e pais, pois nem sempre o problema escolar é cognitivo, podendo ser emocional, biológico, ou mesmo falta de técnicas de estudo”, avalia o psicólogo Diogo Bonioli, do Instituto de Saúde Mental e do Comportamento (ISMC) de São Gonçalo.
Muito além do boletim vermelho
Diante da reprovação de um aluno, qual deve ser a atitude da família? Rafael Martins, que hoje tem 11 anos, começou a apresentar dificuldades na escola aos três. “Ele estava no Jardim I e eram muitas as queixas de comportamento e indisciplina. Quando procurei um psicólogo, sempre davam ênfase à falta de atenção. Muitas vezes, ele voltava até mais agitado das sessões”, conta a técnica em Estética, Cecília Martins, mãe do Rafael.
Após receber vários diagnósticos como dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Cecília resolveu buscar alternativas, até que o psicólogo Diogo Bonioli chegou a um diagnóstico diferente de todos os outros e cujo tratamento tem dado resultados.
“Depois dos exames de ortóptica, foi diagnosticado que o Rafael tem problema de convergência e amplitude do campo visual e estrabismo. Ou seja, o fato de ele ter sido reprovado não significa nenhum problema cognitivo ou mesmo falta de atenção. Ele não aprende pois não consegue enxergar e assim, não consegue apreender e compreender o mundo a sua volta”, resume o psicólogo.
Para Cecília, um dos motivos de não concordar com a aprovação automática é o fato de não ser investigado o que acontece com a criança, além das quatro paredes da instituição escolar. “Por que ele não passa? Até ser diagnosticado corretamente, o Rafael passou por três escolas e sempre foi visto como uma criança mal educada, mimada ou sem limites. Isso é bastante exaustivo para os pais”, desabafa Cecília, que hoje já colhe os frutos do novo tratamento oferecido ao filho.