Após dois anos, Justiça realiza primeira audiência do caso João Pedro
Foram ouvidas sete testemunhas e uma perita médica no Fórum de São Gonçalo

Quase dois anos e quatro meses depois do crime, sete testemunhas de acusação e uma perita médica do caso João Pedro Matos Pinto, adolescente morto baleado aos 14 anos durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, eram esperados para prestarem testemunho, nesta segunda-feira (5), no Fórum de São Gonçalo.
Cinco adolescentes que estavam na casa onde João Pedro foi atingido, em maio de 2020, e dois familiares da vítima estão entre as testemunhas. Antes do início da sessão, familiares e amigos de João Pedro clamaram por justiça na frente do fórum.
A perita Maria do Carmo Gargaglione, diretora da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do Ministério Público, foi quem iniciou a sequência de depoimentos, falando por aproximadamente 1h30. Logo após, o pai de João Pedro, Neilton da Costa Pinto, foi interrogado durante 30 minutos.
"Acredito que aqui tem muitos pais e vocês podem imaginar como estou me sentindo, ou o que estou passando", disse Neilton ao ser questionado pela juíza Juliana Grillo El-Jaick, que conduz a audiência.
Uma amiga da vítima, que estava na casa onde ocorreu o crime, também foi ouvida e voltou a afirmar que os policiais acionaram uma granada dentro do local. Ela também disse ter gritado por socorro, sem sucesso, antes dos policiais efetuarem os disparos. A jovem falou, ao ser perguntada, que havia um helicóptero sobrevoando a residência e que era possível ver quem estava dentro da casa, que ficou marcada com 72 tiros após a operação.
Relembre o caso
João Pedro estava com amigos em casa quando, segundo familiares e os presentes no momento, policiais civis e federais entraram na residência atirando. O adolescente foi atingido por um tiro de fuzil na barriga e socorrido de helicóptero para um hospital, onde acabou não resistindo ao ferimento e morrendo. O corpo dele só foi encontrado pela família no dia seguinte no Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo.
Na época, a Polícia Civil declarou que a operação buscava cumprir dois mandados de busca e apreensão contra líderes de uma facção criminosa e que, durante a ação, seguranças dos criminosos tentaram fugir pulando o muro de uma casa.
"Eles dispararam contra os policiais e arremessaram granadas na direção dos agentes. No local foram apreendidas granadas e uma pistola. O jovem foi ferido e socorrido de helicóptero. Médicos do Corpo de Bombeiros prestaram atendimento, mas ele não resistiu aos ferimentos", afirmou por meio de nota que coincidiu com a versão dada pela Polícia Federal.
Os policiais civis Mauro José Gonçalves, Maxwell Gomes Pereira e Fernando de Brito Meister foram denunciados pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) e respondem por homicídio duplamente qualificado e fraude processual. Eles podem ir a júri popular.
Enquanto esperavam pelos peritos da Delegacia de Homicídios de São Gonçalo, os três agentes alteraram o local do crime, com a intenção de criar evidências de suposto confronto com bandidos.
Na ocasião, o MPRJ indicou que os policiais plantaram explosivos no local, além de uma pistola. Eles também teriam posicionado uma escada junto ao muro dos fundos da casa em que João Pedro morava. Segundo a denúncia, o crime foi cometido por motivo torpe, porque os policiais pensaram que haveria criminosos na casa do adolescente.
O Estado do Rio de Janeiro foi condenado, em junho deste ano, a indenizar a família de João Pedro. A Justiça determinou que os pais do jovem sejam incluídos imediatamente na folha de pagamento mensal para receber 2/3 de um salário mínimo, a ser dividido igualmente entre a mãe e o pai, até a data em que João completaria 25 anos. Após este período, o governo deve pagar 1/3 de um salário mínimo até a data em que o jovem faria 65 anos.
Segunda audiência é marcada para novembro
A segunda audiência do processo do caso João Pedro Mattos Pinto está marcada para o dia 16 de novembro, às 13h30, no Fórum do Colubandê, em São Gonçalo, informou o Tribunal de Justiça do Rio.