Feira da Mulher Empreendedora recupera autoestima de mulheres gonçalenses
Criada em 2007, a feira surgiu como forma de ajudar mulheres vítimas de violência doméstica e depressão

Criada inicialmente para acolher e ajudar mulheres vítimas de violência doméstica a conseguirem uma renda extra e independência financeira, a Feira da Mulher Empreendedora de São Gonçalo (Femesg) é hoje um símbolo de luta e persistência da mulher gonçalense. A feira, que acontece na Praça Luiz Palmier, popularmente conhecida como 'Praça do Rodo', reúne artesãs de toda a cidade que expõem os mais variados produtos e diferentes tipos de artesanatos no local.
A feira surgiu em 2007 e mais de 300 expositoras já passaram por ela. A feira também já transitou por diversos espaços de São Gonçalo, como a Repartição da Rua Salvatori; no Anexo da prefeitura e na Rua da Feira. Porém, a feira não se resume apenas a comercialização de artesanatos, mas é também um espaço de empoderamento, resistência e aprendizado, que está sempre aberto a novas participantes que podem ver no artesanato e na companhia de outras artesãs um conforto após vencerem ciclos de violência doméstica ou depressão, como o caso da aposentada Maria Conceição Gomes Monteiro, de 81 anos, que ingressou na feira após a morte do marido.
"Eu fui casada 45 anos, cinco meses e um dia, e o meu esposo teve quatro AVCs. Então, eu cuidei dele acamado por nove anos e eu tinha cinco filhos. Então quando Deus chamou ele para ir embora, eu fiquei sem chão, parecia que eu ia pirar. Eu ficava dentro de casa presa, trancava as portas porque eu tinha medo de sair de casa", iniciou Maria, que começou a fazer artesanato com sete anos de idade. "Aí algumas vizinhas que me conheciam e sabiam da minha história batiam na minha casa e me levavam para aprender outros tipos de artesanato no CRAS de Santa Luzia. Lá, a supervisora viu o meu trabalho e disse para eu levar para vender lá, que alguém ia acabar comprando."
Ainda no CRAS, Maria foi questionada se queria trabalhar em uma feira. Após recusar na primeira vez, por achar que estaria em um espaço irregular, explicaram o funcionamento da Feira da Mulher Empreendedora e ela aceitou, entrando para o quadro de expositoras 10 anos atrás, em 2012. Para ela, hoje, a maior satisfação não vem da venda dos produtos, mas ver que as pessoas gostam do seu trabalho.
"Hoje eu estou aqui com minha mente saudável, continuo trabalhando, feliz da vida, adoro os meus trabalhos. Quando as pessoas elogiam, se eu pudesse nem vendia, eu dava, porque eu fico muito alegre com os elogios.", completou a artesã que ainda expõe seus produtos em outras duas feiras.
Xará de Maria, a artesã Maria da Conceição de Jesus, de 61 anos, começou no ramo há 20 anos após assistir programas de artesanatos na televisão e começar a praticar em casa.
"Comecei há 20 anos, assistindo programas de artesanato, me interessei e vi que poderia fazer aquilo. Primeiro comecei na pintura, depois no crochê e agora faço bonecas, pinto quadros e me apaixonei pelo artesanato. Amo artesanato.", disse.
Maria vê o artesanato e também a feira como formas de ajudá-la mentalmente e a melhorar sua interação social. "Me ajuda muito na mente, estou mais expansiva, mais comunicativa e essa feira daqui me abriu outras portas. As palestras nos ajudam a nos compreender, ver que dentro do nosso município existem setores que podem nos acolher em várias situações, que a mulher não tá sozinha, que a gente é capaz, eu acho isso muito importante. A gente também aprende coisas em outras áreas, como comercialização, como lidar com o cliente, a gente também ajuda outras pessoas por ensinar", completou a artesã, que ingressou na feira após passar diversas vezes pela praça, se interessar e perguntar se tinha vaga aberta.
Na segunda-feira (20), a Feira da Mulher Empreendedora abriu novas vagas para mulheres que queiram vender seus artesanatos no local. Por conta da alta demanda, a feira funciona em dois dias da semana (quarta e sexta-feira) desde o ano passado. A ampliação foi decidida para beneficiar expositoras que aguardavam na fila de espera para participar do projeto.
Questionada sobre a feira, a Prefeitura de São Gonçalo informou que "para fazer parte da feira, a mulher não necessita ser MEI. Ela precisa ser moradora de São Gonçalo e participar da capacitação do Sebrae. Antes de fazerem parte da feira, as artesãs passam por uma capacitação da Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres em parceria com o Sebrae, no espaço Lidera Mulher, no 3º piso do Partage Shopping. A cada seis meses as mulheres recebem capacitação e ao final das aulas elas são inseridas na feira. A capacitação tem o objetivo de ampliar os conhecimentos das participantes referentes ao empreendedorismo feminino, onde são abordados temas como formalização, administração e planejamento de negócios, técnicas de vendas e uso das mídias sociais. Ou seja, a expansão se dá à medida que as mulheres são capacitadas pelo Sebrae."
"Além da capacitação do Sebrae, a Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres oferece oficinas de artesanato no espaço do Lidera Mulher. São oficinas de bijuteria e artesanatos diversos. Durante essas oficinas são descobertas muitas mulheres com talentos. Muitas delas têm o desejo de empreender, mas não sabem como. As oficinas são um incentivo para aquelas que buscam técnicas de artesanato e muitas mulheres se sentem motivadas a trabalharem."