Cadê o pronto atendimento?
Diante da crise financeira, Secretaria Estadual de Saúde restringe atendimentos em UPAs

Levada pelo marido, a aposentada Marlene Ferreira não conseguiu atendimento na UPA de SG
Foto: Alex RamosCriadas com objetivo de desafogar a rede municipal de saúde e os hospitais estaduais, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) começaram a fazer o papel reverso, após oito anos de criação. Afetadas pela crise financeira, as UPAs estão atendendo apenas casos classificados como graves, e reencaminhando outros pacientes para unidades administradas pelas prefeituras.
O cenário foi instalado em função da greve dos médicos e enfermeiros, que estão com os salários atrasados desde o último mês e sem o pagamento da segunda parcela do 13º salário. Com a falta de recursos, os pacientes também acabaram sendo prejudicados.
Com febre, dor de cabeça, dor de garganta e manchas vermelhas pela pele, a estudante Lorena Silva de Oliveira, de 16 anos, precisou procurar atendimento médico, temendo estar com dengue. Mas não foi isso que encontrou na UPA de Santa Luzia.
“Minha filha começou a ficar assim ontem à noite. Cheguei aqui na UPA e disseram que estão atendendo apenas casos graves. Isso não é grave, então? Se o serviço foi feito para funcionar 24h para desafogar os hospitais, como só funciona para casos de extrema necessidade?”, indagou a mãe de Lorena, Lucimar Aparecida Namorato, de 52 anos.
O aposentado Nildo Joaquim da Silva, 79, e seu filho, o ladrilheiro Marcelo Andrade, 39, peregrinavam desde cedo atrás de um atendimento médico. Após passar pela UPA de Manilha e não receber atendimento, o idoso procurou também a UPA de Santa Luzia, sendo novamente reencaminhado.
“Passei por duas UPAs. Agora me disseram que só vou encontrar atendimento no Pronto-Socorro de São Gonçalo. Ele já é um idoso, está com muita dor no corpo e é um absurdo ser reencaminhado assim”, disse Marcelo.
Há cinco dias com febre chegando a 40 graus, a aposentada Marlene Ferreira, 74, foi levada pelo marido e pelo filho a UPA do Colubandê. “Estou com muita febre, tossindo, mas me disseram que não tem médicos para atender esse tipo de caso”, contou Marlene, enquanto tremia em função da febre.
Com o pé torcido, Wallace da Silva Gomes, 24, foi mais um dos encaminhados para o Pronto-Socorro São Gonçalo, depois de procurar uma UPA para ser atendido. “Torci meu pé ontem, durante o trabalho, e mal consigo encostar no chão. Vim procurar atendimento mas não consegui nada aqui. Me encaminharam para o PSSG. É uma vergonha para o governo uma situação dessas”, declarou Wallace.
De acordo com a assessoria de imprensa de Saúde do Estado, “a Superintendência de Gestão das Unidades Pré-Hospitalares da Secretaria de Estado de Saúde informa que algumas UPAs funcionam com atendimento restrito aos casos mais graves. Os pacientes classificados com quadros de menor gravidade (verde ou azul) são orientados a procurar outra unidade de saúde”.
Vigilantes cruzam os braços
O cenário de crise e greves não é diferente para os vigilantes das UPAs, que pararam de trabalhar desde a última sexta-feira. O motivo da interrupção do trabalho é atraso de pagamento do último salário e falta de depósito da primeira parcela do 13º. Além disso, muitos vigilantes não receberam o salário das férias e nem rescisão de contrato.
“Não temos previsão para retorno. A empresa dá como resposta que não recebeu repasses da Rio Lagos. Com isso, fomos prejudicados. Após terminar o recesso, entraremos com um pedido no Ministério Público para que paguem o salário com juros em função do atraso”, contou o presidente do sindicato dos vigilantes (Svnit), Cláudio José de Oliveira.
Pai de três filhos menores de idade, Daniel Jesus dos Santos, 26, é um dos prejudicados com a crise.
“Minhas contas estão todas atrasadas. Meu nome está restrito em função da falta de pagamento. Tenho três filhos para criar, assim como outros amigos também tem família. Como sobrevivemos sem salário?”, disse Daniel.