Família precisa alargar cova com as próprias mãos para enterrar parente em SG
Espaço deveria ter tamanho especial, pois enterro era de homem obeso. Prefeitura lamentou erro de funerária e informou que sindicância foi instaurada para apurar o caso
Após levar o susto de não saber se conseguiriam sepultar um familiar, já que o caixão não cabia dentro da cova, gonçalenses precisaram agir com as próprias mãos e reformar uma sepultura no Cemitério São Miguel, no bairro de mesmo nome, em São Gonçalo, onde o jovem jornalista Luan Stewart Santos da Silva, de 32 anos, foi enterrado na tarde deste último domingo (23). O jovem, que infartou em casa na tarde de sábado (22), era obeso e, segundo a funerária, precisava de um caixão especial para que fosse sepultado.
A funerária 'Orlando Serviços Funerários' também cobrou mais caro, segundo explicaram ao pai da vítima, para que esse caixão especial fosse fornecido. Contudo, apesar de alterarem o tamanho do caixão, o tamanho da sepultura ofertada para o enterro era padrão, e no momento em que o cortejo fúnebre saiu, a família descobriu que não caberia a urna. Através de nota ofical, a Prefeitura de SG lamentou o caso e informou que uma sindicância foi instaurada para apurar responsabilidades pelo erro.
O drama, que começou às 14h30, no entanto, estava longe do fim. Após encostar o caixão na entrada do cemitério e interromper o cortejo, a família foi avisada que o local não tem pedreiros aos finais de semana. Portanto, não havia nenhum profissional que pudesse aumentar a cova. "Quando a gente soube disso, bateu um desespero, sabe? O corpo dele ali, e a gente tendo que abrir passagem para que outra família passasse para enterrar seu ente querido. Meu tio viu que as coisas não iam andar e falou que faria. Ele é pedreiro dos bons, e pegou para fazer. O cemitério forneceu o material e meu tio quebrou a cova pronta e aumentou, para que então o enterro acontecesse", contou a professora, e irmã da vítima, Lorrane Stephanie Santos da Silva, de 28 anos.
Além de todo esse misto de sentimentos, incluindo indignação e desprezo, o corpo do jovem ficou encostado na entrada do cemitério, no sol, até que levaram de volta para a capela. "Todo mundo ficou apavorado. Porque o caixão entra no Cemitério, mas não é para ele sair de lá. E a gente retornou com ele, para que a cova ficasse pronta", disse a professora.
Para o caixão especial de Luan, e todo procedimento fúnebre, o pai de Luan pagou R$ 3.500, à vista para a funerária. O local, que não aceita cartão, recebeu o valor integral via Pix.
"Nós pagamos e não pagamos barato. Por isso esperávamos, ao menos, um tratamento digno. Passamos por isso há dois anos com minha mãe e o tratamento foi outro. Foram duas experiências completamente diferentes. O agente funerário que tratou tudo com a gente atendeu uma ligação e falou que não trabalha domingo. Mas ele ficou no telefone com a gente, enquanto estava tudo bem, durante a manhã de domingo. Depois que recebeu, ele parou de nos atender", desabafou a jovem.
Pouco após, às 17h, o serviço que o tio da vítima "prestou" ao município estava pronto. A cova estava na largura necessária para o sepultamento ocorresse. Para mostrar o descontentamento com a situação, os familiares da vítima postaram imagens nas redes sociais, que acabaram viralizando e chamando a atenção para o triste caso.
"Registramos tudo para depois não negarem o que aconteceu. Temos todos as imagens. O que passou para nossa família não vai mudar, mas esse descaso precisa ser mostrado, para que não ocorra com outras pessoas", contou o também professor, Renan Silva do Nascimento, de 33 anos.
O pai de Luan, o militar da reserva Luiz Carlos da Silva, de 59 anos, também conversou com O SÃO GONÇALO e relatou com mais detalhes o ocorrido. "Ele passou mal no sábado de noite e, quando o Samu chegou, ele já estava morto. No domingo, por volta das 14h30, teve início o cortejo e começamos a ter o problema vendo que o caixão, que era especial e maior pelo fato de Luan ser obeso, não iria caber na cova. Nesse meio tempo, o corpo voltou para a capela e tivemos que mexer na cova para alargá-la e fazer o caixão dar no espaço. Quando o proprietário da funerária soube que a família estava fazendo a cova ele disse que ia dar problema para ele, ou seja, ele não estava preocupado com a família, mas sim com o negócio dele", contou.
Segundo a família, o responsável pela administração do cemitério autorizou que a família fizesse o trabalho, após ficar sensibilizado com a situação. "Ele estava preocupado com a família. Disse que o agente funerário foi lá, mediu e disse que o caixão cabia. Segundo o cemitério, se fosse falado que não caberia, o enterro seria marcado para segunda-feira (24), já que no final de semana não tinha ninguém para realizar o serviço", contou o pai do jovem.
Apesar do caso, a família alega ter visto boa intenção no Cemitério. O que, segundo eles, não existiu por parte da funerária.
"Fomos lá na funerária com nosso advogado e não conseguimos achar o funcionário que nos atendeu, e o dono estava viajando. Quando o dono falou no telefone com uma outra pessoa ele só se chocou ao saber que a família estava fazendo o serviço. E deixou claro que isso ia dar problema. Ele só estava preocupado com o negócio dele. Pagamos caro e não recebemos sequer um atendimento digno", disse o militar reformado.
Na manhã desta segunda-feira (24), familiares retornaram ao cemitério e mostraram a equipe de OSG a cova improvisada, entre outras covas. A tampa, também feita pelo tio da vítima, será trocada pelo cemitério. Segundo a família, a promessa é de que o trabalho fique pronto até quarta-feira (26).
"A gente não teve nem tempo de viver o luto ainda. Ele era um menino cheio de planos, estava no primeiro mês de trabalho na profissão que escolheu", relembrou.
Pela primeira vez Luan atuava na área da comunicação e ainda estava comemorando o emprego numa agência de publicidade.
O jovem não possuía doenças pré existentes e não tinha histórico de cardiopatia na família.
Respostas
O responsável pela funerária falou com nossa equipe por telefone e disse que a funerária realizou a medição da cova e que o caixão cabia no local indicado, mas, que não sabe se trocaram a cova de última hora.
Ele alegou também que todo o trabalho da funerária foi prestado da forma correta e que, após entrar no Cemitério a questão é municipal.
Prefeitura de SG se posiciona sobre o caso - A Prefeitura de São Gonçalo, através de nota oficial, anunciou lamentar o incidente e esclareceu que a funerária contratada pela família para fazer o sepultamento não comunicou ao Serviço Funerário Municipal, no momento do agendamento, que haveria a necessidade de uma cova em tamanho especial para realizar o enterro. E segundo o órgão, também não informou o Serviço Municipal quando o problema foi detectado, na hora do sepultamento.
Segundo a Prefeitura de SG, as covas disponíveis têm um padrão único, o que reforça a necessidade de que as funerárias informem corretamente os casos que exigem cova especial, que normalmente é criada por demanda. Em alguns casos, quando o cemitério escolhido não dispõe de tal cova, o sepultamento pode ser transferido para outro cemitério, desde que haja tal disponibilidade e a família concorde em fazer o translado, segundo o órgão municipal.
Ainda segundo as informações prestadas pela Prefeitura de SG, os pedreiros são dispensados nos finais de semana, já que as covas para os sepultamentos realizados aos sábados e domingos já ficam preparadas, no limite máximo determinado para cada cemitério municipal. E tal procedimento e disponibilidade de covas são de conhecimento das funerárias.
A Prefeitura informou, ainda, que abriu sindicância para apurar os procedimentos e a conduta da funerária em relação à família, a fim de evitar que tal situação dolorosa e constrangedora volte a ocorrer. A direção do cemitério São Miguel se colocou à disposição da família e está fazendo os reparos necessários na sepultura.