Instagram Facebook Twitter Whatsapp
Dólar R$ 5,0748 | Euro R$ 5,8452
Search

Coletivos fazem campanha para construção de quilombo urbano em Niterói

Espaço está localizado próximo à praça da Cantareira, no bairro São Domingos

relogio min de leitura | Claudionei Abreu 25 de outubro de 2021 - 16:27
Coletivos estão reformando imóvel para abrigar quilombo urbano
Coletivos estão reformando imóvel para abrigar quilombo urbano -

No período colonial, os quilombos funcionaram como locais de refúgio, abrigando negros escravizados que fugiam das fazendas e dos engenhos. Nestes locais, se formaram comunidades onde uns protegiam aos outros. Atualmente, os quilombos ganharam novos significados e têm servido como espaços de acolhimento, resistência e valorização das memórias de diversos grupos étnicos e de minorias no Brasil. 

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, calcula-se que o Brasil possua 5.972 localidades quilombolas. Desse total, 404 são territórios oficialmente reconhecidos, 2.308 são denominados agrupamentos quilombolas e 3.260 são identificados como outras localidades quilombolas. Entre os agrupamentos, 709 estão localizados dentro dos territórios quilombolas oficialmente delimitados e 1.599 estão fora dessas terras.

Em Niterói, um grupo está se unindo para criação de um quilombo urbano em um imóvel localizado na Rua Alexandre Moura, nº 41, próximo à praça da Cantareira, no bairro São Domingos. O casarão, que é alugado, está passando por uma série de reformas para abrigar as novas atividades. O projeto é uma iniciativa do movimento Xica Manicongo, dos coletivos Alagbara e Transparente e do mandato da vereadora niteroiense Benny Briolly, que preveem inaugurar o espaço no dia 29 de outubro.

“O projeto surgiu a partir da identificação da necessidade de espaços para as comunidades negra e LGBTQIA+ de Niterói e da região metropolitana do Rio. Recentemente, começamos a pesquisar sobre a região da Cantareira, que era conhecida como a Pequena África de Niterói. Pouca gente sabe dessa história, mas ali, em 1880, funcionava o clube dos libertos, que era uma escola de alfabetização para pretos naquela época. Ao estudar todo esse passado tão rico, vimos a necessidade de resgatar essa memória”, conta Nathalia Carlos, de 34 anos, que trabalha como assistente social e assessora parlamentar.

Atualmente, cerca de 40 pessoas estão empenhadas na construção do quilombo urbano Xica Manicongo, que, segundo as organizadoras, irá funcionar como um espaço de acolhimento e resistência.

“A ideia do quilombo traz esse conceito de aquilombar, de proteger, cuidar, fortalecer e se acolher, ao mesmo tempo potencializando a história e a cultura afro-brasileira e de resistência da comunidade LGBTQIA+”, aponta Nathalia. 

De acordo com a também assistente social, assessora parlamentar e educadora popular Fabíola Silva, de 33 anos, o espaço irá oferecer uma série de serviços a quem vive e frequenta a região da Cantareira. 

“Nosso objetivo é que cada vez mais pessoas possam conhecer o nosso espaço e se juntar para construir novos projetos conosco. A nossa ideia inicial é oferecer ações para jovens e adultos, visando sempre impactar a comunidade ao redor e atender as necessidades das pessoas que vivem e frequentam a Canteira. Acredito que esse espaço terá muito a oferecer à cidade”, afirma.  

Espaço irá impactar a comunidade ao redor e oferecer diversos projetos
Espaço irá impactar a comunidade ao redor e oferecer diversos projetos |  Foto: Reprodução/Redes Sociais
 

Quem foi Xica Manicongo 

Xica Manicongo é a primeira mulher trans que se tem registro no Brasil. Sua história foi revelada pelo antropólogo Luiz Mott, que identificou que Xica se vestia com um pano amarrado com nó para frente, similar às vestimentas dos quimbanda (termo bantu para definir “invertido” ou “curador”). Já seu sobrenome fazia referência a um título utilizado pelos governantes do Reino do Congo, na África. Assim, seu nome foi trazido como Rainha ou Realeza do Congo. 

Chegando ao Brasil, passou por uma anulação social em Salvador, para onde foi levada, e desafiou as normas de vestimenta na época. Os historiadores apontam que Xica tinha resistência em se vestir com roupas masculinas, pois isso ia contra as tradições de sua origem, onde ela assumia sua identidade feminina. Por conta disso, sofreu grande violência e foi morta queimada. 

A estudante de ciências sociais e assessora parlamenta Ariela Nascimento, de 23 anos, explica a escolha do nome de Xica Manicongo para batizar o quilombo urbano.  

“A ideia do nosso espaço é buscar um resgate da nossa memória e da nossa história, fazendo com que a luta do nosso povo continue sendo evidenciada. A Xica é uma figura representativa porque ela foi a primeira mulher trans preta trazida da África para o Brasil, e aqui ela foi violentada de várias formas por não seguir aquilo que queria o colonizador”, afirma.

“Esse corpo, hoje, para nós, carrega muita luta e deixou um grande legado de sabedoria. Fazer com que a memória da Xica possa ser resgatada é apresentar também a luta de quem começou o movimento trans”, defende Ariela.

Como doar

Para doar, basta utilizar a chave Pix quilomboxicamanicongo@gmail.com. As doações podem ser de qualquer valor. Conheça mais sobre o Quilombo Xica Manicongo no perfil no Instagram.

*Estagiário sob supervisão de Thiago Soares

Matérias Relacionadas