Gonçalenses lutam para superar as sequelas após cura da Covid-19
Prefeitura montou projeto especial para cuidar dos pacientes

A Covid-19 tirou a vida de aproximadamente 3.500 em São Gonçalo. A doença modificou a rotina de diversos gonçalenses e infectou, ao todo, mais de 120 mil pessoas na cidade, segundo o último boletim da prefeitura. Destes, mais de 116 mil se curados. Entretanto, mesmo aqueles que se livraram do vírus ainda podem precisar lidar com sequelas, que incluem falta de ar, dores no corpo, na cabeça e outros, variando de paciente para paciente. Pensando nisso, a Prefeitura criou um projeto para auxiliar essas pessoas que são afetadas pelo que chamam de 'covid longa' na comunidade científica. A ideia está em funcionamento na Clínica Municipal Gonçalense, no bairro do Mutondo.
Com aulas nas segundas e quartas-feiras, das 8h até às 17h, a educadora física Jéssica da Silva Santos, que integra o projeto, busca ajudar os 20 pacientes com sequelas da Covid-19 realizando exercícios físicos e respiratórios. Cada pessoa, segundo a educadora, tem o seu tempo para se curar.
"Não tem muito um tempo médio de quanto a pessoa fica aqui, depende mesmo da pessoa. Nós reutilizamos equipamentos para exercícios físicos que já existiam para praças e vamos adaptando para a sequela de cada paciente. Eu passo o exercício em grupo e tem alguns que tem problemas respiratórios por causa da Covid-19, então, eu busco readaptar a rotina dele com outro exercício e assim vai", contou ela que começou trabalhando na clínica com crianças especiais e adultos.
Jéssica também foi uma que viu sua rotina mudar por causa da Covid-19. "Eu nunca me imaginei nessa situação e passando por tudo isso que a pandemia proporcionou para todos nós", disse ela.

O programa teve início há cerca de três meses. Dos 20 pacientes inscritos no programa, 15 tem o costume de ir fielmente ao espaço e já observam melhorias em suas sequelas. Rosemary de Moraes Ribeiro, de 42 anos, conta que teve a Covid-19 em outubro do ano passado, junto com seus pais (sua mãe tem 72 anos e seu pai tem 67 anos),e foi a única que teve sequelas em sua casa. Hoje, mesmo curada da doença, Rosemary sente dificuldade para respirar e, mesmo fazendo exames, descobriu que seu pulmão já está limpo e sem problemas e que essa falta de ar poderia ser uma sequela. Foi quando uma amiga da igreja recomendou para ela o trabalho desenvolvido na Clínica Gonçalense.
"Em outubro de 2020 eu comecei a sentir os sintomas e como eu sempre fico resfriada achei que fosse ser só mais uma gripe. Achei estranho, no entanto, quando perdi o paladar e o olfato e foi aí que eu fiz o exame. Meus pulmões estavam limpos e só soube que era Covid-19 pelo teste rápido que fiz no Centro de Triagem ao Coronavírus, no Zé Garoto, após encaminhamento médico. Lembro que minha mãe e meu pai também tiveram ao mesmo tempo e a que ficou mais afetada inicialmente foi ela. Lembro que quando eu descobri eu nem pude pensar muito, pois eu esqueci que tinha a doença para cuidar da minha mãe, já que ela teve febre e tudo mais. Meus sintomas e do meu pai foram mais leves", contou.

Desde que se recuperou da doença, Rosemary, que não precisou ficar internada quando teve o vírus, sente que algo no seu corpo não está normal. "Eu não consigo subir uma escada sem cansar muito, mentalmente tenho oscilações de humor já que essa falta de ar me estressa, sinto dor nas juntas e isso tudo mexe comigo. Eu ficava ansiosa e inquieta. Foi aí que, há cerca de dois meses, uma amiga da igreja me recomendou esse projeto e eu vim. É totalmente gratuito e eu só pago a passagem. Eu vim para cá depois de exames em vários médicos e continuo fazendo o acompanhamento, mas o meu caso é sequela mesmo, pois os exames estão dando tudo certo. Quando me perguntam hoje se eu estou bem, eu afirmo que vivo um dia de casa vez. Hoje eu estou bem, mas amanhã posso ter uma recaída emocional. Eu tento pensar que tudo isso vai passar e que tenho uma segunda chance de viver, num novo ritmo", disse a arquivista.

Quem também vem se adaptando à uma nova rotina após sequelas da Covid-19 é Magda da Silva Barbosa Justen, de 53 anos. A moradora da Trindade teve a confirmação de estar com Covid após sentir dor de cabeça e enjoos muito fortes. Esses sintomas se tornaram constantes na vida dela e foi quando, em março de 2021, ela fez o teste na UPA do Colubandê. O resultado dela e de seu namorado foram positivos para a doença.
"Eu achei que estivesse gripada. Sempre ia trabalhar normal até que comecei a sentir dores e vomitar. A partir daí eu fui para a UPA e lá eu desmaiei, vomitei, fui colocada no soro umas três vezes e fiz o teste para a Covid. Antes do resultado, as pessoas achavam que pudesse ser uma infecção urinária. Eu cheguei a ter alta após o exame que testou positivo e fui liberada com remédios para me cuidar em casa, mas a situação foi piorando e eu já não conseguia respirar nem com nebulização. Fui para o Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT) e no exame deu que meu pulmão estava 75% comprometido. Eu fui encaminhada, então, para o Hospital Estadual Prefeito João Batista Caffaro, em Manilha, que era onde tinha vaga. Eles queriam me entubar lá, mas foi o médico quem disse para dar uma segurada para ver se eu conseguiria voltar a respirar com os remédios", contou ela.
No momento em que estava no hospital em Manilha, Magda lembra que não conseguia nem entender o que estava ocorrendo e que foram seus familiares que a informaram, depois que ela teve alta, de todo esse doloroso processo. "Eu consegui me recuperar ainda no hospital e lá tive que começar a alimentação comendo papinha com os remédios. Só depois foi que eu consegui ter alta. Sei que hoje sinto que minhas pernas são diferentes, meus movimentos da cintura para baixo não são mais os mesmos, além disso, minha labirintite piorou, sinto tontura, meu nariz sangra, tenho dor nas costas, na musculatura, minhas articulações estão inchadas, minhas feridas hoje demoram a cicatrizar. Eu cantava na igreja e hoje não tenho ar para cantar e essas são algumas das minhas sequelas. Eu faço fisioterapia e outros procedimentos e continuo com o remédio, mas ainda sinto tudo isso. Por isso, há dois meses eu soube disso aqui por conhecidos e vim até o projeto, onde estou fazendo exercícios para tentar voltar ao normal com meu corpo. Eu tenho muito medo de pegar a Covid-19 e piorar minhas sequelas, além de ter mãe idosa, então só saio com várias máscaras na bolsa e bastante álcool em gel", contou a auxiliar de serviços gerais.

No espaço, são realizados diversos exercícios físicos, incluindo trabalho de carga, cardiorrespiratório e alongamento.
Para quem quiser se inscrever no projeto, basta ir até a Clínica Gonçalense do Mutondo e procurar por Jéssica da Silva Santos. Ela está no local às segundas e quartas-feiras, das 8h às 17h. A Clínica Gonçalense do Mutondo fica na Rua Alfredo Backer, 358, em frente ao 7º Batalhão de Polícia Militar.