‘Grupo de Capoeira Angonal’: Mestre Bocka fala sobre a trajetória da associação
Conheça a história do grupo liderado por Jorge Leite, de 65 anos

O Grupo de Capoeira Angonal, um dos mais antigos da cidade de São Gonçalo, existe desde abril de 1977, há mais de 44 anos e tem como líder Jorge Leite, de 65 anos, mais conhecido como Mestre Bocka. O capoeirista contou sobre a trajetória da associação, comentou as mudanças no esporte e falou sobre o futuro do grupo. Grandes nomes, como Cabide, Negão, Mosquito, Heber, Manico, Moreno, Brindado, Arnaldo, Macumba, Centopeia, Morcego e Papagaio, foram alguns dos seus primeiros alunos graduados.
“Eu iniciei na capoeira em 1968, depois de três anos o mestre foi viver a vida dele e eu comecei a ministrar aulas em 1971, tinha um grupo de pessoas que me seguia, não tinha aquela pressão de mestre, eu era mais o cabeça do grupo. Era o Grupo de Capoeira Regional do Mestre Verdugo. Em 1977, eu peguei as palavras Angola e Regional e criei a Angonal, para não botar nome de lugar, de pessoa, de santo, e estamos aí até hoje.”, contou Mestre Bocka, que tinha intenção de unir o estilo Regional Baiano e a Capoeira Angolana, visando considerar a capoeira uma unidade e deixar aberto o caminho da criatividade, mas principalmente, do respeito entre os integrantes.
O mestre ainda reforçou sua gratidão pela capoeira e revelou que tudo na sua vida é oriundo dessa associação.
“A capoeira é minha vida, a capoeira abriu o leque na minha vida, hoje eu conheço gente de tudo quanto é lugar... Eu não levei a capoeira para lugar nenhum, ela que me levou, ela fez tudo na minha vida, construí família, filho, neto, bisneto e tudo dentro da capoeira e nunca abandonei ela.”, falou o mestre, que prefere não classificar o melhor e o pior momento dessa jornada.
“Cada tempo é um tempo, a capoeira vai se transformando, não gosto de classificar melhor e pior fase, isso faz parte da vida. A nossa maior moeda, no nosso grupo, é a gratidão, é o reconhecimento de um pelo outro, essa é a moeda da Angonal.”, pontuou.
Mesmo com esse legado, o mestre reitera que antigamente a essência da capoeira era mais aflorada e que hoje isso mudou um pouco.
“Ela (Angonal) piorou um pouco, quando era mais pobre, era melhor, hoje tem muita opção. Eu lembro que lá para 1982, tinham 40 mestres, você abria o portão e não via nenhum Fusca. Hoje, qualquer roda de mês a rua fica entupida de carro e tem gente que ainda falta. Pessoal andava com berimbau na mão, aquela coisa toda pela capoeira, acho que piorou um pouco nesse sentido de amor pela capoeira, antes era essa essência, hoje tem outras opções, viagens e etc. Eu pegava três conduções, chegava às 9h e saía às 19h da noite, suado, para pegar ônibus ainda. Hoje tem Uber, tem tudo e alguns faltam, acho que piorou nesse sentido do amor pela capoeira, a essência.”, falou.

Apesar dessas mudanças, ele conta que certas coisas na capoeira não são alteradas, como o acolhimento de outros grupos.
“Tem algo que eu brinco, a capoeira tem o seu passaporte, se você sair daqui para São Paulo, você fica na casa de um colega de lá. Quantos alunos meus usam o 'Bockacard', que o pessoal brinca, vão para outro lugar e falam que são meus alunos, o pessoal dá atenção, aqui ou lá todos são meus amigos, a capoeira é isso, é companheirismo.”, disse.
Mestre Bocka ainda falou sobre o evento mais marcante da associação e reforça a mensagem que deve ser passada para os novos capoeiristas.
“O mais marcante foi os 10 anos da Angonal, fizemos sem dinheiro, sem camisa, e foi muito bom. Foi o mais difícil, mas foi realizado... O que quero passar é conscientização, conseguir fazer o pessoal se conscientizar da coisa, pois muitos hoje entram na capoeira porque é lindo, é bonito, é falado, mas tem que saber que tem que deixar de fazer algumas coisas, a capoeira cobra muito, e para o futuro, a palavra é conscientização. Eu quero que cuidem da nossa família Angonal, façam parte dela, é só isso que eu peço. Nós não somos nada sem ela, vamos abaixar o ego, vamos ser família. É um jogo, não tem porque brigar quando perder, ficar de cara feia, é bola para frente.”, comentou.
Quando fala em ‘deixar de fazer algumas coisas’, Mestre Bocka cita as dificuldades de ser a referência para muitos na associação.
“Além da capoeira, você tem outras funções e com isso, você tem que se privar de algumas coisas. Eu queria um cabelo amarelo, mas não posso, a barbicha o pessoal está aceitando agora. Eu acabo sendo um espelho e por isso não tenho tatuagem nenhuma, cordão, não uso nada. Você fica muito refém disso e tem que dosar tudo, é o que a capoeira cobra.”, disse.
E por fim, o Mestre Bocka contou sobre a origem da capoeira e reitera que não é possível definir ela em uma só área.
“Capoeira é símbolo da liberdade e hoje está um pouco difícil, alguns querem que ela seja profissional, outros querem sindicato. Acho que a capoeira vai se transformando a cada tempo, todo ano tem algo novo, tirado da própria capoeira, até porque ela não evolui, ela já nasceu evoluída, ela só se transforma e depois volta. A capoeira não cabe só em uma pasta, na saúde, educação, esporte, capoeira é bastante coisa.”, reiterou.
Grupo de Capoeira Angonal
Para quem tiver interesse em acompanhar mais do trabalho desenvolvido no Grupo de Capoeira Angonal, basta acessar o link do perfil da associação no Facebook (saiba mais).

*Estagiário sob supervisão de Thiago Soares