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Aos 62 anos, gonçalense faz cartaz com pedido de emprego: "Nunca passei por essa situação"

Idoso caminhou do Colubandê ao Centro de SG com placa pedindo emprego

relogio min de leitura | Claudionei Abreu 04 de outubro de 2021 - 14:36
Renato fez cartaz com ajuda de vizinhos para pedir emprego
Renato fez cartaz com ajuda de vizinhos para pedir emprego -

Cerca de 14,1 milhões de brasileiros estão desempregados atualmente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrados no último trimestre. Com a pandemia de Covid-19, milhares de pessoas acabaram perdendo seus empregos e os idosos foram o grupo mais afetado no período. Em São Gonçalo, um idoso caminhou do bairro Colubandê ao Centro da cidade com um cartaz em busca de emprego.

Até o fim de 2019, Renato Carlos do Nascimento, de 62 anos, trabalhava como pedreiro e bombeiro hidráulico. Em sua carteira de trabalho também constam ocupações como porteiro e vigia. No entanto, em 2020, o gonçalense foi diagnosticado com um lipoma e precisou ficar internado para fazer o tratamento da doença. Sem conseguir trabalhar nesse período, ele e sua esposa, Maria José do Nascimento, de 60 anos, precisaram recorrer ao auxílio emergencial do governo federal.

Renato conta que enfrentou uma série de dificuldades para conseguir ter acesso ao benefício.

“Depois de fazer o nosso registro no auxílio, começamos a estranhar porque estávamos recebendo valores muito baixos, cerca de R$80, R$100. Procuramos saber o porquê aquilo estava acontecendo e foi aí que descobrimos que o auxílio emergencial da minha esposa estava indo para outra pessoa. Pedimos para cancelar e tentamos fazer um novo registro, mas a partir disso não conseguimos mais. O site diz que nós não temos renda compatível para receber o auxílio”, afirmou.

Além disso, outro problema enfrentado pelo casal foi em relação a outro benefício que a esposa de Renato tem direito. Maria José foi diagnosticada com um quadro de depressão com sintomas psicóticos. Além disso, também tem hipertensão arterial e diabetes e faz uso de uma série de medicamentos.

A idosa tenta conseguir o Benefício de Prestação Continuada (BPC), conhecido popularmente como LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social). Esse benefício é uma garantia de um salário mínimo mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso, homem ou mulher que comprovem não possuir meios de prover à sua própria manutenção ou de tê-la provida por sua família. No entanto, mesmo com o diagnóstico, Maria ainda não conseguiu finalizar seu cadastro no sistema do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), responsável pelo BPC.

“Nós vamos na agência do INSS, mas a única coisa que eles dizem é que precisamos fazer o cadastro e acompanhar pela internet. Nós somos analfabetos, não sabemos usar e mexer no celular ou computador. Tudo para nós fica mais complicado”, lamenta Renato.

Casados há 47 anos, Renato e Maria José moram há 25 anos no bairro Colubandê, em São Gonçalo.  No último dia 23, o casal se viu sem gás de cozinha em casa para preparar as refeições e o desespero bateu à porta. Renato conta que nunca passou por uma situação tão complicada como nos últimos tempos.

“A gente tinha uma televisão aqui na sala, mas precisamos vender para pagar as contas que foram se acumulando. É uma situação muito complicada que temos enfrentado nos últimos tempos, nunca passamos por isso antes”, conta Renato.

Com ajuda de vizinhos, ele preparou um cartaz onde pede um emprego e percorreu o trajeto de 3,6km saindo de sua casa, no Colubandê, até a prefeitura de São Gonçalo, no Centro, para tentar conseguir alguma ajuda.

“Preciso trabalhar. Preciso de um emprego, por favor! Me ajude. Deus abençoe quem puder me ajudar”, diz o cartaz.

Em frente à sede do poder executivo, apesar de não ter conseguido uma proposta de emprego, Renato conseguiu ajuda de algumas pessoas, que fizeram doação de um botijão de gás e uma cesta básica. "Foram pessoas abençoadas que apareceram em minha vida naquele momento. Sou muito grato pela ajuda que me deram", disse. 

Renato e a esposa, Maria José
Renato e a esposa, Maria José |  Foto: Layla Mussi/O São Gonçalo
 

Idosos foram os mais afetados pela pandemia

Em 2020, a taxa de desemprego de pessoas com 50 anos ou mais no Brasil chegou ao seu nível mais alto, ultrapassando os 7% pela primeira vez desde 2012, quando começa a série histórica da Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mais de 400 mil brasileiros nessa faixa etária ficaram desempregados entre o fim de 2019 e o fim de 2020.

A taxa de desemprego saltou de 2,7% no último trimestre de 2012 para 7,2% no fim de 2020 para o grupo de pessoas com 50 anos ou mais. No mesmo período, a taxa para pessoas com menos de 24 anos passou de 15,1% para 31,4% e, para quem tem entre 25 e 49 anos, aumentou de 5,6% para 12,2%.

Neste ano, houve redução na taxa de desemprego dos mais idosos no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período de 2020, atingindo 5,7%. É a menor taxa se comparada com outras faixas etárias. No entanto, esse grupo ainda enfrenta outras dificuldades para conseguir se inserir novamente no mercado de trabalho.

Um dos problemas apontados por Renato é o estigma dos empregadores em relação às pessoas mais velhas.

“Em toda a minha vida nunca passei por uma situação como essa. Nunca precisei pedir ajuda na rua. Mas não é vergonha nenhuma. Não estou fazendo mal a ninguém, estou apenas pedindo um emprego. Alguns empregadores não contratam pessoas com mais idade por pensarmos que não temos mais capacidade. Eu tenho 62 anos, mas estou bem de saúde, com disposição, tenho experiência e muita vontade de trabalhar”, conta.

Para ajudar

Renato ainda procura emprego. Quem tiver vagas disponíveis de trabalho ou quiser fazer doações à família pode entrar em contato através do número (21) 97595-4365.

Respostas

Em nota, o INSS informou que a Avaliação Social e a Perícia Médica, duas das etapas da análise do pedido de Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), da sra. Maria José do Nascimento já foram agendadas para a Agência São Gonçalo.

A Caixa Econômica Federal informou que atua como Agente Pagador do Auxílio Emergencial, de acordo com a análise de elegibilidade realizada pela Dataprev e homologada pelo Ministério da Cidadania. O banco disse que a responsabilidade em relação ao caso é do referido ministério, gestor do benefício.

Questionado por O SÃO GONÇALO sobre o caso, o Ministério da Cidadania ainda não retornou o contato até o fechamento da reportagem.

*Estagiário sob supervisão de Thiago Soares

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