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'Inclusão já!' Entenda os problemas por trás das declarações polêmicas do ministro da educação

Biel tem Síndrome de Down estudou em escolas regulares a vida toda e apresenta outra versão sobre o que atrapalha o desenvolvimento das crianças nas escolas

relogio min de leitura | Escrito por Pedro Di Marco | 24 de agosto de 2021 - 14:01
Gabriel Oliveira Costa, de 15 anos
Gabriel Oliveira Costa, de 15 anos -

O ministro da educação Milton Ribeiro voltou a defender a segregação de pessoas com deficiência em “escolas especiais”, chegando a afirmar que “nós não queremos o inclusivismo” em entrevista à rádio Jovem Pan, nesta segunda-feira (23). As falas polêmicas de Ribeiro ganharam os holofotes desde que ele afirmou que crianças com deficiência atrapalhavam o aprendizado de outros alunos, em participação no programa Sem Censura da TV Brasil no último dia 9. As recentes declarações do ministro vão contra à inclusão social de pessoas com deficiência e causaram grande indignação em especialistas e profissionais de educação, inflamando o debate público acerca do tema. Entre os que se posicionaram ferrenhamente contra ele, a voz de Gabriel Oliveira Costa foi uma das que ecoaram mais alto.

Biel, como é chamado por amigos e familiares, tem Síndrome de Down, uma condição genética causada pela presença de três cromossomos 21 na célula do indivíduo e não ficou nada contente com a fala de Ribeiro. O jovem de apenas 15 anos, assim como tantos outros de sua geração, é extremamente politizado e engajado nas redes sociais, das quais se aproveitou para deixar seu recado para o 4º ministro da educação a ocupar o cargo durante a administração do governo Bolsonaro.

“Ministro da educação, eu sou o Gabriel. Tenho 15 anos, estudo, faço futebol e já fiz capoeira e judô, e nunca meus colegas disseram que eu atrapalho. Eu não atrapalho ninguém. Já você e o Bolsonaro, atrapalham a todos. Fora Ministro! Fora Bolsonaro! Inclusão já!”, declarou em postagem no Facebook.

Biel é um rapaz muito ativo e possui grande prazer em aprender e frequentar a sala de aula onde mantém uma boa relação com amigos e colegas. Torcedor do Fluminense, ele destaca ainda que têm uma afeição particular pelo futebol e possui sonhos e aspirações na música, na dramaturgia e na política.

“Gosto de ir para a escola e tenho uma relação muito boa com meus amigos e colegas, tenho certeza que eles são todos do bem! Agora estou de quarentena por causa do coronavírus, mas gostava de jogar bola e brincar com eles. No remoto, gosto das aulas de música com a psicopedagoga e dos exercícios de equoterapia. Quero ser ator, fazer filmes e novelas, ser cantor de funk e vereador”, revelou o estudante.

Como explicado por sua mãe, Marinalva Oliveira, de 56 anos, Gabriel é extremamente independente e nunca deixou a sua condição lhe privar de fazer o que gosta e de lutar pelos seus direitos.

“Gabriel é muito envolvido nas discussões atuais de conjuntura política e extremamente autônomo. Ele adora cantar, ler e escrever textos para as redes sociais. É um filho maravilhoso. Ele é consciente de que tem síndrome de Down, porém não tem isso como limitador. Ele sabe que tem uma longa luta pela frente e terá que batalhar para combater o capacitismo e conquistar seus direitos. Isso nós fazemos juntos!”, declarou ela.

Além de mãe do Biel, Marinalva também é professora da Faculdade de Educação e coordenadora do Laboratório de Inclusão, Mediação Simbólica, Desenvolvimento e Aprendizagem (LIMDA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e como tal não poderia deixar de expressar seu descontentamento com a fala do ministro.

“Como mãe, me sinto triste e indignada, porém, a fala do Ministro sobre a segregação das pessoas com deficiência não é isolada. Infelizmente faz parte da história das pessoas com deficiência que sempre tiveram seus direitos violados. Foi com o mesmo discurso de que alunos com deficiência ‘não aprendem na escola regular’ e que ‘os professores e a escola não estão preparados’, que em setembro de 2020, o Governo Bolsonaro apresentou um decreto que propõe o retorno das escolas e classes especiais como modelo segregador. Mas é preciso ressaltar que a política da inclusão na escola regular não falhou, pois sequer foi implantada na sua totalidade. O que falhou foi a garantia dos direitos da população no processo educacional com ampliação de recursos públicos para efetivar a inclusão escolar das pessoas com deficiência. Nenhuma pessoa com deficiência, se tiver condições adequadas, necessita de escolas e classes especiais. Portanto, se o aluno não se beneficia da escola regular, é necessário preparar a escola e professores para recebê-lo da melhor forma possível”, explicou a professora da UFRJ.

Marinalva destacou ainda a importância do ensino inclusivo para a vida do Gabriel e o desenvolvimento da autonomia de pessoas com deficiência (PCD’s) como um todo, que atualmente são excluídas e isoladas ao invés de educadas como membros ativos da sociedade, o que retarda o processo de desconstrução do capacitismo, perpetuando os preconceitos vigentes no país.

“Biel sempre estudou em escola regular e, isso permitiu a ele interagir com diversas crianças, um fator imprescindível para o seu desenvolvimento e aprendizagem. É isso que vai fazê-lo se tornar um adulto autônomo, o que não ocorreu com as gerações de pessoas com deficiência que foram segregadas em escolas especiais. Por outro lado, a chegada dele na escola regular trouxe para dentro desta a necessidade de mudar. Olhando para uma pessoa com deficiência parece óbvio que é necessário que alguns aspectos do currículo sejam adequados e adaptados para ela e isso impactou em mudanças para outras crianças também. Além do mais, a presença do Biel na escola regular também impacta a geração que estamos formando para o futuro, que com certeza será uma geração mais tolerante com a diversidade”, afirmou Marinalva.

Para o psicólogo e orientador educacional Diogo Bonioli, a perspectiva retrógrada que Ribeiro tem em relação a educação não condiz com os valores e ideais de um estado democrático de direito e leva à perda de grande potencial intelectual e criativo, visto que, com a aplicação das metodologias corretas, um PCD pode alcançar rendimento igual ou superior à qualquer outra pessoa.

“O problema da fala do ministro da educação está na divulgação de um estigma que tende para a recriação de uma segregação social. Sendo a escola um lugar de formação do cidadão para a sociedade, a falta de inclusão será o passo fundamental para a construção de uma sociedade segregadora, preconceituosa e de pouco acesso à diversidade de talentos. Em outras palavras, seria um regresso para uma educação arianista, fascista e alienista, onde aqueles que não se adequarem a um sistema arbitrário de conteúdo escolar estarão fadados à exclusão, à falta de oportunidades e à pobreza. O retorno das ‘classes especiais’ é o passaporte para o retrocesso de liberdade, democracia e humanidade. Já a inclusão dos PCD’s é a possibilidade que a escola tem de exercer a democracia, o direito e a diferença. É a oportunidade de celebrar a riqueza dos que nos faz ser humanos, a diferença. Só convivendo com essas diferenças conseguiremos produzir uma sociedade mais colaborativa e menos competitiva”, explicou Bonioli.

Assim, como dito pelo próprio estudante Gabriel, a decisão sobre quais espaços deve ou não frequentar é de competência única e exclusiva dele e da família.

“Eu sempre estou junto de quem eu gosto e com quem eu quero estar e todo mundo gosta de mim. Então sou eu quem devo escolher com quem ficar, brincar, jogar bola e fazer tudo”, defendeu Gabriel.

*Sob supervisão de Cyntia Fonseca

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