Segunda chance: Família luta por justiça de homem preso no Rocha, em São Gonçalo

Marcos Paulo Pereira da Silva foi preso no último dia 7, após inquérito iniciado em 2014

Escrito por Renata Sena 17/08/2021 13:58, atualizado em 16/08/2021 16:53
Cintia Rosa de Souza e família buscam justiça para o caso de Marcos Paulo
Cintia Rosa de Souza e família buscam justiça para o caso de Marcos Paulo . Foto: Kiko Charret

"Se ele tiver que pagar pelo que fez no passado, tudo bem. A gente fica aliviado, porque a gente não quer contestar a justiça. A gente só não quer que ele pague por uma coisa que não fez. Ele não é quem a polícia está divulgando. Ele hoje é trabalhador, pai de família e com filhos para criar e ser exemplo".  Essas são as palavras de Cintia Rosa de Souza, de 28 anos, nove dias após ver o marido sendo preso, no Detran, no Rocha, em São Gonçalo.  

Marcos Paulo Pereira da Silva, 27, foi preso no último dia 7, quando chegou ao Detran para buscar sua habilitação definitiva. A prisão ocorreu em desdobramento de uma investigação da polícia civil, que aconteceu entre os anos de 2014 e 2016. 

Na ocasião, Marcos Paulo tinha ligação com o tráfico do Complexo do Salgueiro e foi flagrado em conversas telefônicas durante uma escuta autorizada pela justiça. Na época, ele foi indiciado pelo crime de associação ao tráfico de drogas. 

Contudo, segundo a família, que está sendo orientada por um advogado, a própria justiça, em 2016, revogou a prisão e permitiu que o homem respondesse em liberdade. 

| Foto: Kiko Charret
 

Paralelo a essa chance dada pela justiça veio o nascimento da filha, a morte de um amigo e o encontro com Deus, através de uma igreja evangélica. A família conta que em 2017, Marcos Paulo largou o tráfico de drogas e passou a trabalhar para sustentá-los.

"Ele mudou muito. Foi a um encontro de igreja na sexta, no domingo ele chegou chorando e disse que a vida dele tinha mudado, pois Deus havia falado com o coração dele. A partir daí, tivemos um novo Marcos Paulo", recordou Cintia, ao lado da sogra. 

De ajudante de pedreiro a catador de caranguejos. Carteira assinada em uma grande empresa até o inicio da pandemia. Tudo dentro da normalidade para um pai de família de classe baixa. Até o último dia sete. 

"Ele entrou no Detran para buscar sua habilitação e eu e meu filho ficamos no carro esperando. Ele demorou muito até que a gente soube que havia sido preso. Hoje, o advogado já viu que a prisão é por conta da investigação de 2014. Ok, isso ele vai resolver com a justiça. Mas estão dizendo que ele é braço direito de chefe do tráfico, que é bandido perigoso. Ele não é bandido. E mesmo no período que fez coisas erradas nunca teve poder. Nunca teve contexto", esclareceu a mulher, com quem o acusado é casado há quase dez anos. 

Vestidos com camisas estampadas com a foto do acusado, os pais, irmãos, filhos, esposa e advogado de Marcos Paulo deixaram claro que o que eles querem é que a justiça seja feita. "Não estamos contra a justiça. Mas queremos que ele pague só pelo que fez no passado. Todo mundo merece uma segunda chance e ele precisa ter a dele. Ele errou, está pagando, mas mudou. Eu não quero que nossos filhos leiam que ele é um criminoso perigoso, porque isso ele nunca foi", disse Cintia. 

Apesar de a polícia ter divulgado que a prisão aconteceu quando o acusado se escondia na casa de parentes, imagens confirmam a versão da família, de que tudo aconteceu no posto do Detran. "Ele não vivia escondido, porque nem sabíamos que tinha nenhum mandado contra ele. Ele viajava a trabalho, já foi parado em blits. Não teve isso de se esconder", esclareceu a catadora de recicláveis, Jocicleide Pereira da Silva, 46 anos, mãe de Marcos Paulo. 

Para o advogado de defesa do acusado, além das informações imprecisas divulgadas pela polícia e replicadas pela mídia, existe também uma questão técnica que precisa ser revista nesse caso. 

Família e advogado buscam justiça
Família e advogado buscam justiça | Foto: Kiko Charret
 


"O Marcos Paulo já responde um processo em liberdade pela 3° Vara criminal, porém agora ele foi denunciado pela 5° Vara pelo mesmo crime. Ou seja, um crime de associação que se deu em 2014. Assim verificamos que o processo da 5° Vara precisa ser extinto, porque ninguém pode responder pelo mesmo crime por duas vezes", alegou Coimbra. 

Atualmente Marcos Paulo e a família vivem da venda de caranguejos, que eles catam e vendem. Ele ainda está recluso no sistema penitenciário do Rio de Janeiro. "Só queremos que ele saia de cabeça erguida. Ele errou, tá pagando, mas aqui fora vamos mostrar que ele mudou. Hoje ele é um homem de família que não merece ser apontado na rua como bandido", finalizou a esposa de Marcos Paulo,  que deixou a filha do casal em casa no dia que a caçula completa dois anos, para "lutar" em nome do marido.

Em resposta ao caso, o Tribunal de Justiça do Rio informou, em nota, que "a denúncia contra o acusado foi apresentada pelo MP em março de 2021 e decretada a sua prisão, conforme decisão abaixo do juízo da 5ª. Vara Criminal por associação ao tráfico" acrescentando, além do processo detalhado, que "a defesa do acusado já apresentou petição, alegando haver litispendência da presente ação. No decorrer do processo, o juízo poderá analisar a questão, suscitada pelo advogado. .


Gostou da matéria?
Compartilhe!

Veja também

Mais lidas