Educação: veja como tem sido a volta das atividades presenciais em São Gonçalo

Rede pública de ensino do município funciona em modelo híbrido desde março

Escrito por * Pedro Di Marco 28/07/2021 17:08, atualizado em 28/07/2021 17:55
Colégio Municipal Ernani Faria em Neves, São Gonçalo
Colégio Municipal Ernani Faria em Neves, São Gonçalo . Foto: Divulgação

Com o segundo semestre letivo de 2021 começando em agosto, para a maioria das escolas da rede pública a volta às aulas deve contar também com o retorno das atividades presenciais. Contudo, a iniciativa não é uma unanimidade entre pais e professores, muitos dos quais se mostraram descontentes com a decisão. Em São Gonçalo, as instituições públicas de ensino adotam o modelo híbrido, isto é, com aprendizagem presencial e remota desde março, mas os resultados não são exatamente positivos.

Em pronunciamento em rede nacional no último dia 20, o ministro da educação, Milton Ribeiro, defendeu ferrenhamente a volta das atividades presenciais, alegando como um dos principais motivos para a urgência do retorno as altas taxas de evasão escolar durante a pandemia. Maria do Nascimento Silva, professora da rede pública e coordenadora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE) de São Gonçalo, explica que no caso do município, a chegada do novo coronavírus só fez evidenciar a precariedade das instituições públicas de ensino e o descaso dos governantes com a educação.

“A rede municipal daqui é uma das menores se você for comparar proporcionalmente aos municípios vizinhos, conta com 48 mil alunos, o que é pouco para uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. São cerca de 50 a 60 mil crianças que não estão matriculadas nem na rede pública, nem na rede privada. Então o município está pecando muito nisso, é dever do Estado oferecer não somente educação pública como também condições para os alunos se manterem na escola e aqui em São Gonçalo não houve nenhum tipo de investimento nisso durante a pandemia”, explicou. 

“Os professores tiveram que bancar seus próprios celulares, computadores e pacotes de internet para trabalhar e os alunos, muitas vezes, não tinham condição de arcar com esse tipo de gasto, o que fez com que a situação piorasse por conta da exclusão daqueles que não tinham o aparato tecnológico necessário para acompanhar as aulas remotas”, acrescentou.

Além disso, a coordenadora conta que a volta das atividades presenciais também não foi recebida como esperado pelas famílias. Por conta do risco de contágio, muitas ainda não se sentem seguras para mandar os filhos para a escola.

"Quando São Gonçalo retornou às atividades presenciais nós achávamos que teríamos um grande número de alunos, mas não foi o que aconteceu. Em uma das minhas turmas, por exemplo, eu tenho 34 alunos, destes 10 adotaram a forma híbrida e só 6 frequentam regularmente. Então, a gente pode perceber que não está funcionando, os pais ainda não estou seguros para mandarem seus filhos pra escola, mesmo quem passa dificuldade sabe que é melhor passar fome junto com o filho do que mandá-lo pra escola e correr risco de perdê-lo ou de ele contaminar a família inteira e acabar sem ninguém para cuidar dele, como já vimos acontecer", evidenciou a coordenadora do SEPE-SG.

O Gerente da Unidade de Terapia Intensiva pediátrica do Hospital e Clínica São Gonçalo, Gabriel Farias da Cruz, defende que os encontros presenciais são essenciais para o desenvolvimento de algumas habilidades essenciais para a vida em sociedade como a comunicação interpessoal e o trabalho em grupo, mas somente mediante a utilização de alguns protocolos, o mais importante deles sendo a vacinação da população.

"Durante a pandemia, o distanciamento social se apresentou como uma das principais medidas de prevenção, consequentemente a suspensão das atividades escolares presenciais foi fundamental. Porém, a retomada dessas atividades é de extrema importância, desde que realizada com segurança. Por isso a importância da vacinação, que é a medida que mais vai contribuir para o controle da pandemia", sustentou.

A professora da rede pública concorda com o depoimento de Gabriel e lamenta não ser essa a realidade vivida pelos habitantes de São Gonçalo.

"A volta do ensino presencial é de grande urgência sim, mas é um momento onde precisamos ter muita responsabilidade também, não é só dizer: ‘abre tudo e volta todo mundo’. Não dá pra gente sair arriscando nossas vidas de qualquer jeito. Só em setembro teremos todos os profissionais da educação vacinados, então a proposta que tínhamos era ter essa volta agora em agosto. Nós perderíamos muito tempo sim, mas certamente estaríamos mais seguros quanto a este retorno. Agora nós temos pouquíssimos alunos frequentando a escola, os pais ainda com muito medo, professores adoecidos pela sobrecarga de trabalho e falta de condições e merendas estragando nas escolas", desabafou a coordenadora.

Procurada por O SÃO GONÇALO, a prefeitura informou que "as atividades presenciais foram reorganizadas considerando os impactos das medidas de isolamento na aprendizagem dos estudantes e estão sendo retomadas de forma gradual levando em conta a situação singular de cada instituição (estrutura física, dimensão dos prédios e salas, ventilação dos ambientes, áreas ao ar livre, faixa etária dos estudantes e número de profissionais que trabalham na escola)". Além disso, alegou ainda que foi concedida as Unidades de Ensino a autonomia necessária para elaborar seu próprio Plano de Ação levando em conta suas especificidades e que estas foram devidamente adequadas ao recebimento híbrido de todos os estudantes da Rede Pública Municipal.

*Sob supervisão de Cyntia Fonseca

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