Mãe denuncia preconceito de colégio contra a filha em atividade escolar
Caso aconteceu em setembro do ano passado, na Escola Adventista de São Gonçalo

O que parecia ser um simples trabalho escolar virou um verdadeiro pesadelo para a pequena Maya, de 11 anos, em uma aula de Artes, na Escola Adventista de São Gonçalo, que fica no bairro Colubandê. A atividade tinha por objetivo realizar uma releitura da bandeira do Brasil, que foi feita com as cores da comunidade LGBTQIA+ e com a frase ‘Black Lives Matter’, 'Vidas Negras Importam', mas não foi aprovada pela instituição e zerada pela professora.
Recentemente um caso parecido ocorreu no município de Campinas, em São Paulo. O trabalho de um aluno com a temática LGBTQIA+ sofreu diversas críticas e foi repreendido pelos demais, via mensagens no WhatsApp, na Escola Estadual Aníbal de Freitas, no estado paulista. O Ministério Público e a Polícia Civil apuram o ocorrido.
“O diretor, ele falou olhando na minha cara, que por ser um ensino cristão, a minha filha não poderia levantar bandeira nenhuma de militância. Foi dado um prazo de dois dias pra que ela fizesse outro trabalho. Ela fez essa outra bandeira de um país em desordem e a resposta da professora foi que a minha filha era muito crítica, que os trabalhos dela tinham sempre muitas críticas. Então eu falei: ‘a minha filha tem que ser crítica, porque ela tem raciocínio, ela tem a opinião dela, ela é um ser humano e como ser humano ela pensa’.”, revelou a mãe da menina, Jacqueline Lemos, de 47 anos.

Após esse momento, Jacqueline relata que não aceitou a imposição do colégio e que isso virou uma verdadeira perseguição no dia a dia.
“Falam que ela vai voltar pra casa porque a calça jeans dela é apertada, falam que ela vai voltar pra casa porque o cabelo dela é azul. A coordenação fica me mandando direto mensagem dizendo que ela não fez trabalho. Ela diz que fez e eu mando o print para o colégio. Toda semana tem um problema com eles e isso tudo começou no dia em que a Maya fez a bandeira com as cores LGBT e vidas negras importam.”, contou.
Ainda de acordo com a mãe, o colégio usa de outros artifícios para prejudicar o andamento da vida escolar da menina. Dificuldade para comprar o uniforme e ao mesmo tempo, repressão por não estar utilizando a vestimenta, atraso no envio dos boletos, o que impossibilita o desconto na fatura, e-mail de cobrança de mensalidade já quitada e até exigência de prova já concluída pela aluna são algumas das experiências que Jacqueline e Maya têm vivido na Escola Adventista de São Gonçalo.
Jacqueline ainda revela que não tirou a filha da instituição apenas por uma questão financeira naquele momento.
“Infelizmente eu não tive condições financeiras para tirar minha filha do colégio, porque eu já tinha comprado material, uniforme, tudo, porque senão teria tirado ela naquele minuto. E eu deixei isso bem claro ao diretor. Ainda bem que o ano letivo está acabando e vou poder resolver isso".
Segundo a mãe da pequena Maya, o ocorrido foi registrado na Delegacia Online, com as provas e as informações encaminhadas a um advogado para tomar as medidas cabíveis no caso.
De acordo com o psicólogo Diogo Bonioli, algumas instituições têm direcionamentos para passar o conteúdo aos alunos, como as escolas cívico-militares, militares e as confessionais.
"Toda escola é regida por um Projeto Político Pedagógico, também chamado de PPP. Nele contém a forma com a qual a escola pretende ensinar os conteúdos mínimos estabelecidos pelo MEC. É assim que surgem as escolas cívico-militares, militares e as confessionais. No caso da rede adventista, que nos parece se tratar de uma escola confessional, estando o PPP esclarecido sua posição cristã como forma de ensinar os conteúdos pedagógicos, poderá excluir determinados objetos de debates que não condizem com as convicções professadas pela mantenedora e ensinar doutrina em seus tempos de aulas."
Apesar disso, o especialista entende que uma conversa sobre a questão seria mais viável do que apenas a exclusão da atividade.
"No entanto, nada justifica haver preconceito e mecanismos de exclusão sorrateiras. Neste cenário, uma conversa franca sobre a posição conservadora da escola junto a mãe seria mais interessante e educativa. Assim como não é possível matricular um filho em um colégio cívico-militar e pedir para não ensinar ordem unida, também não é possível pedir para uma escola francamente cristã permita discussões e defesas das minorias, visto que a maior parte dos grupos cristãos tradicionais rejeitam temáticas como a LGBTQIA+ e outras semelhantes. Como se trata de uma rede particular, cabe aos pais e responsáveis procurarem saber sobre o Projeto Político da escola antes de matricularem os filhos."

Em nota, o Colégio Adventista de São Gonçalo comentou o ocorrido.
"O Colégio Adventista de São Gonçalo esclarece que a atividade solicitada para os alunos do 5°ano, em setembro de 2020, consistia em fazer uma releitura da bandeira do Brasil, utilizando as cores originais da bandeira. A professora, assim que recebeu o trabalho da aluna em questão, demonstrou empatia pela proposta apresentada elogiando-a pelo senso crítico e realista durante a realização das suas atividades. A professora, ainda, explicou novamente a proposta.
A direção da instituição, procurada pela família na data em questão, esclareceu com respeito e atenção todas as dúvidas quanto à atividade.
Com uma educação pautada em valores e princípios o Colégio Adventista valoriza o diálogo e a empatia, sem discriminação de qualquer natureza. Fundamentada em uma educação cristã, o Colégio Adventista assegura que a discriminação está desvinculada da essência do cristianismo e por isso deve ser condenada e combatida."
Em informe, a Secretaria Estadual de Educação falou que o caso não está em sua alçada, pelo menos até o momento.
"Informamos que se trata de uma unidade da rede privada de ensino e que, até o momento, não fomos demandados sobre o caso em questão."
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca